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Alexandre Chiure
O presidente da Renamo, Ossufo Momade, está a tirar-me do sério. É que nunca vi uma pessoa como ele que prefere pôr em causa os interesses do seu partido, se isso significar ganhos pessoais ou, pura e simplesmente, manter-se no poder a todo custo.
Em 2024, não percebeu que se concorresse com Venâncio Mondlane como seu candidato às presidenciais, a Renamo chegaria longe. Se não ganhasse as eleições, pelo menos teria uma forte presença no parlamento. Os moçambicanos tinham decidido votar em massa na Renamo e conduzi-la ao poder.
Ossufo Momade não soube ler os sinais, apesar de evidentes. Fez tudo ao contrário. Combateu VM7. Fechou-lhe todas as portas. Não permitiu que se candidatasse ao cargo de presidente do partido. Venâncio abandonou a “perdiz”. Abraçou o Podemos, um partido sem estrutura, que, do nada, ganhou 43 deputados.
Face aos resultados desastrosos que a Renamo registou nas eleições gerais de 2024 em que terminou, pela primeira vez, na terceira posição, vozes internas levantaram-se a exigir a cabeça do presidente do partido. O mandatário nas autárquicas de 2023, em Nampula, Ossufo Ulane, foi dos primeiros a pedir a cabeça de Ossufo Momade.
Depois foi Manuel Bissopo, ex-SG da Renamo, a contestar a liderança do seu chefe e a apelar aos membros do Conselho Nacional a assinarem uma petição a convocar um congresso extraordinário para a eleição do novo presidente do partido. Estes foram os primeiros sinais de que as coisas não estavam bem no seio da Renamo, entretanto ignorados por Ossufo Momade.
As reivindicações subiram de tom, com o envolvimento de um grupo de ex-guerrilheiros. Estes escreveram uma carta para o presidente da sua formação política a solicitar o diálogo, carta essa que não foi respondida. Dirigiram uma outra para a secretária-geral. Também não teve resposta. Redigiram a terceira, endereçada ao departamento jurídico, com o mesmo objectivo, e nada feito.
Como uma medida de pressão, os ex-guerrilheiros optaram por desencadear uma onda de encerramento de delegações políticas provinciais. Fecharam a primeira, Ossufo Momade ficou calado. Seguiram-se outras. O presidente da Renamo não cedeu. O poder cegou-lhe completamente. Não só não vê, como também é surdo e mudo.
O grupo decidiu ocupar a sede nacional, em Maputo, onde permaneceu durante duas semanas, e, em seguida, o gabinete de trabalho do seu presidente. Conseguiram paralisar, por completo, as actividades políticas da Renamo. Ossufo Momade manteve-se, mais uma vez, calado.
Deixou-se corromper pelo poder e tornou-se arrogante. Perdeu as qualidades de dirigente que são de ser dialogante, saber ouvir e ter a capacidade de fazer leituras de sinais para melhor posicionar-se na esfera política do país.
Para o espanto do público, o presidente da “perdiz” evitou qualquer contacto com os ex-guerrilheiros durante os dias em que estiveram na sede do partido. Mandou a UIR, a mesma que quase matou Afonso Dhlakama na Beira, para escorraçar os homens do local, UIR que ocupou as instalações por alguns dias e não deixava ninguém entrar, incluindo quadros seniores da Renamo, o que ficou estranho.
No lugar de convocar o Conselho Nacional, como é a exigência dos ex-guerrilheiros, para a reabertura das sedes provinciais e da nacional, a direcção da Renamo organizou, daqui para aqui, uma conferência nacional dos ex-homens armados na tentativa de os distrair do essencial, alegadamente para discutirem os seus problemas. Curiosamente, os participantes ao encontro não eram os grevistas, mas pessoas seleccionadas a dedo, entre os fiéis a Ossufo Momade.
A história vai repetir-se dentro de dias. Os ex-guerrilheiros, provenientes de várias províncias, que continuam em Maputo, apesar de expulsos da sede nacional, querem, novamente, encerrar os escritórios centrais, as delegações provinciais e todas as instalações pertencentes à Renamo. Ossufo Momade está numa boa. Não me parece preocupado com isso.
Até há bem pouco tempo, o porta-voz da Renamo, Marcial Macome, contentava-se com o facto de que o seu partido está dentro do prazo quanto à organização da sessão do Conselho Nacional. Agora, ao que tudo indica, já não está mais. Os estatutos prevêem duas sessões por ano. Estamos no segundo semestre do ano e nem sequer a primeira teve lugar.
Afinal, o que é que Ossufo Momade quer, na verdade? Será que até agora não percebeu que está a prejudicar a Renamo e a ele próprio do ponto de vista de imagem e credibilidade perante o público? Com estes problemas todos que se levantam, quem é que pode continuar a apostar na Renamo? O que é que vale insistir em querer manter-se na presidência do partido se, como líder, perdeu a legitimidade?
Quando uma equipa de futebol não ganha jogos, o seu treinador é mandado embora. É o que acontece com Ossufo Momade. A Renamo registou maus resultados nas eleições de 2024 ao passar de 60 para 28 deputados e de segunda para a terceira força política do país. Os membros e simpatizantes do partido não gostaram disso e querem-no, hoje, fora da liderança.
Pode resistir por algum tempo ou usar a UIR para chamboquear os ex-guerrilheiros que lideram o movimento rumo à destituição de OM e continuar no poder, mas a verdade é certa: ele terá, finalmente, que deixar, voluntariamente, o cargo à disposição, o que seria aconselhável, ou por via da força. É que os ex-guerrilheiros estão determinados a lutar até às últimas consequências. Um conselho para si, Ossufo Momade: evite passar vergonha.



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