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- País Bordado sobreviveu ao boicote e conhece o Sol de Junho baptizado pela AEMO
O lançamento de País Bordado, primeiro romance do jornalista e escritor Rui Lamarques, é mais do que um exercício literário. É um gesto de bordado: ponto a ponto, fio a fio, o autor recompõe os rasgões da história de Moçambique, sobrepondo à trama nacional, as verdades escondidas, silenciadas e, muitas vezes, ignoradas. O título da obra não é acaso. Bordar, neste contexto, é um acto político e estético: ocultar e revelar, proteger e expor. Como o próprio autor explica, trata-se de colocar sobre o pano rasgado — a memória colectiva — as camadas de verdade que a nação insiste em varrer para debaixo do tapete.
Edmilson Mate / Redação
O jornalista, escritor e director-executivo do Mídia Lab, Rui Lamarques, lançou na última sexta-feira, 22 de Agosto, na sede da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), em Maputo, a sua primeira obra literária, intitulada País Bordado. O romance combina ficção e história, entrelaçando narrativas que dialogam com a realidade política e social de Moçambique, através de personagens simbólicas como Namicopo, Julieta e Beúla.
A obra, editada de forma independente, foi apresentada pela professora Julieta Langa e comentada pelo jornalista Luís Nhachote, num evento que reuniu escritores, jornalistas, estudantes e jovens amantes da literatura.
Segundo o autor, País Bordado nasceu da necessidade de transformar a escrita num espaço de liberdade e reflexão.
“Pegámos um pano e bordámos. A ideia é colocar por cima do pano rasgado as verdades escondidas, aquelas que ninguém quer contar. Foi nessa perspectiva que surgiu o título”, explicou Rui Lamarques, acrescentando que a motivação maior foi “o prazer pela literatura e o compromisso com a liberdade”.
A obra constrói-se a partir de personagens que não são apenas figuras ficcionais, mas símbolos de uma nação em metamorfose. Nascidas em datas que marcam a história nacional — 1962, 1975 e 1992 —, elas atravessam os grandes marcos da luta armada, da independência e da paz. O romance não pretende ser crónica histórica, mas antes um olhar íntimo sobre como os acontecimentos se entranham na vida de homens e mulheres comuns.
Há, em País Bordado, ecos de autores moçambicanos como Ungulani Ba Ka Khosa, que também resgataram a memória para evitar que caísse no esquecimento. Mas Lamarques acrescenta um lirismo contemporâneo, em que a crítica social surge entretecida na própria narrativa.
Na sua intervenção, o jornalista e crítico literário Luís Nhachote destacou que o livro reflecte um trabalho amadurecido ao longo do tempo, sustentado por leituras e influências diversas. Aliás, define a obra como um romance de intervenção social, mas com um estilo sóbrio, com cadência quase poética, e cada frase parece buscar a delicadeza do bordado, mesmo quando trata de cicatrizes profundas.
“Não é um exercício momentâneo, mas uma ideia trabalhada e enriquecida por várias leituras. Há ecos de obras como Entre as Memórias Silenciadas, de Ungulani Ba Ka Khosa. O Rui busca a memória para evitar que caia no esquecimento. Como dizia Borges, o livro é uma extensão da memória e da imaginação”, afirmou.
Valor literário e contributo histórico
Por sua vez, a docente Julieta Langa classificou a obra como de grande valor estético-literário, elogiando a organização, o estilo e o contributo para a compreensão da história moçambicana.
“O autor conseguiu retratar o país como um contínuo histórico desde 1962, através de personagens que nascem em momentos-chave: o início da luta de libertação, a independência em 1975 e a assinatura dos Acordos de Paz em 1992. É uma narrativa que une o percurso individual ao coletivo, trazendo elementos políticos, sociais e culturais do país”, destacou.
Para a jornalista do Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD) e antiga instruenda de Lamarques, Sheila Wilson, País Bordado é uma obra particularmente relevante para compreender Moçambique contemporâneo:
“É um livro necessário, sobretudo em tempos como os actuais. Retrata um País fragmentado, feito de pedaços de pano, mas também mostra momentos de coragem. Denuncia o silêncio como marca nacional e revela a força de quem ousa falar. É, acima de tudo, um livro de coragem.”
O lançamento contou igualmente com a participação de jovens leitores. Wilma Bebane, finalista do curso de Geologia Aplicada, mostrou-se entusiasmada com a oportunidade de conhecer melhor a trajectória histórica do país através da literatura:
“Estou muito curiosa em relação à obra e prometo lê-la. Para nós, jovens, é uma oportunidade de conhecer melhor a história da nossa nação”, afirmou.
Com País Bordado, Rui Lamarques estreia-se na literatura evocando fragmentos da história nacional, num romance que conjuga memória, ficção e crítica social. Ao revisitar diferentes períodos da vida política e cultural do país, o autor oferece ao leitor um retrato simultaneamente poético e incisivo do Moçambique contemporâneo.
O lançamento do livro marcou não apenas a apresentação de uma nova obra, mas também a afirmação de uma voz literária que promete contribuir de forma significativa para o panorama da literatura moçambicana. O lançamento da obra chegou a ser boicotado pelo Instituto Camões, o que acabou abrindo caminho para que País Bordado visse o Sol de Junho com o apadrinhamento da Associação dos Escritores Moçambicanos – AEMO.



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