Alegações de abusos em Cabo Delgado ressurgem apesar da falta de provas e desmentido claro do Estado e da TotalEnergies

DESTAQUE SOCIEDADE
Share this
  • A máquina silenciosa que se moveu contra Moçambique
  • 2025: quando a mentira encontrou o momento político certo

 Há narrativas que nascem, morrem e regressam quando alguém lhes sopra vida. A acusação do “massacre dos contentores” é uma delas. Criada em Setembro de 2024, num artigo explosivo do POLÍTICO, a história entrou pela Europa como uma bala perdida: dramática, gráfica, impossível de ignorar, mas rapidamente bateu na parede da realidade quando o Ministro da Defesa, Cristóvão Chume, desmontou publicamente o seu enredo. Não havia localização confirmada, não havia testemunhas sólidas, não havia dados independentes. Apenas alegações difusas apanhadas no meio do caos dos ataques de Palma.

Evidências

O POLÍTICO, assim como tantos outros jornais que repercutiram o assunto não só não conseguiram provar as suas alegações, como Moçambique e a TotalEnergies desmentiram, desafiando a parte que acusa a prová-lo. Na altura, o mundo registou e o caso morreu. Ou assim parecia.

Um ano depois, o mundo muda e a mentira encontra terreno fértil, curiosamente num momento crucial para o projecto. Tudo acontece num espaço de duas semanas, como que buscando contrariar o andar das coisas como demonstram os factos:

– 7 de Novembro: a TotalEnergies levanta a força maior. Pouco depois o Executivo de Daniel Chapo abre formalmente a porta ao regresso da empresa.

– 17 de Novembro: o ECCHR, uma ONG alemã sem trabalho de campo em Moçambique, apresenta em Paris uma queixa criminal contra a TotalEnergies, baseada exclusivamente na velha narrativa do Político.

E como se não bastasse, no dia 20, os portais europeus enchem-se de frases carregadas de certeza. Nenhum deles menciona o desmentido de Moçambique em 2024. Nenhum deles cita o contexto militar de 2021. Nenhum deles fala com o País (Moçambique), lugar onde os factos supostamente ocorreram.

O argumento renasce, não porque ganhou provas, mas porque ganhou utilidade. E é aqui onde começa o ataque real. A guerra não é sobre direitos humanos: é, ao que tudo indica, sobre poder energético.

É ingenuidade acreditar que essa ofensiva caiu do céu. Moçambique está prestes a tornar-se um dos cinco maiores exportadores de LNG do mundo. ExxonMobil deu sinal verde. A TotalEnergies regressou. A ENI prepara expansão. E a Europa, mergulhada numa crise energética estrutural, teme depender de fornecedores que não controla.

É nesse tabuleiro que as ONGs encontram palco. A estratégia é conhecida: Lançar uma acusação moral devastadora; abrir investigação num País europeu com jurisdição extra-territorial; gerar pânico reputacional entre investidores; pressionar financiadores públicos europeus para cortar garantias; e forçar atrasos que aumentam custos e condicionam decisões.

O objectivo, ao que tudo indica, nunca foi apenas a TotalEnergies. O alvo é maior: é o posicionamento geopolítico de Moçambique no mercado energético global e o erro interno: o Estado foi apanhado sem o seu arquivo

Na conferência de imprensa do dia 20, o porta-voz do Conselho de Ministros, Inocêncio Impissa, foi confrontado com a queixa. A resposta foi institucionalmente correcta: “precisamos de dados concretos”, “vamos monitorizar”, “é uma questão de soberania”.

Mas politicamente, essa resposta revelou o maior problema: o Governo não tinha no seu próprio sistema a memória da acusação de 2024.

O Ministro falou como quem enfrenta um tema novo. E isso foi lido, sobretudo na Europa, como: “Moçambique não nega”, “Moçambique está a avaliar” e “Moçambique pode estar a admitir”.

Não estava. Só não estava informado. E uma brecha de informação interna tornou-se a porta que a ofensiva internacional precisava de abrir.

A ofensiva europeia entra na sua fase mais dura

Depois da queixa do ECCHR, surgiram imediatamente comunicados sincronizados de plataformas anti-extractivistas; artigos em cadeia replicando a alegação como facto; pressões no Parlamento dos Países Baixos, que discute agora relatórios escritos sem visita ao terreno; colunas de opinião que ignoram a posição de Moçambique e da TotalEnergies; e editoriais que transformam suspeitas em dogmas.

Moçambique, sem resposta imediata, aparece isolado. E a narrativa dominante torna-se a narrativa estrangeira. É assim que se perde uma batalha informacional. Não é com tanques. É com manchetes.

A batalha que o País enfrenta já não é sobre o que aconteceu em 2021; é sobre quem controla a versão dos factos em 2025.

Se Moçambique não agir rapidamente, arrisca-se a enfrentar perda de credibilidade diplomática; travagem de financiamentos europeus; adiamentos estratégicos por parte de operadores privados; corrosão da imagem das suas Forças Armadas; e constrangimentos negociais em contratos de gás de décadas.

“Esse não é um momento para silêncio institucional. É um momento para memória, firmeza e estratégia”, disse um especialista ouvido pelo Evidências, considerando que “Cabo Delgado ensinou-nos que o País resiste em todos os terrenos onde é atacado: na floresta, no rio, na aldeia, no mar. Mas a guerra que agora chega não vem com insurgentes, nem com células jihadistas. Vem com comunicados, relatórios, artigos e procuradores estrangeiros”.

E a primeira linha de defesa, segundo a mesma fonte, é simples: “não permitir que o mundo acredite numa mentira desmentida pelo próprio Estado moçambicano há mais de um ano. Se Moçambique recuperar a narrativa, recupera o seu lugar. Se deixar outros contá-la, perde mais do que a reputação, perde a soberania sobre a sua própria história”.

Promo������o
Share this

Facebook Comments