Última edição do ano

EDITORIAL
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O ano que agora se encerra deixa em Moçambique um rasto de inquietação difícil de ignorar. Foi um período marcado por sobressaltos económicos, fragilidades institucionais e uma sensação colectiva de que caminhamos sobre um terreno cada vez mais instável. Se o balanço do presente já é pesado, o que verdadeiramente inquieta é a incerteza do futuro, uma incerteza que, longe de nos mobilizar para a mudança, parece empurrar-nos para uma situação progressivamente pior, anulando aquela convicção proferida pelo Chefe de Estado, a de que “o país está a mudar!”

A incerteza, quando prolongada, corrói. Corrói a confiança dos cidadãos, mina o planeamento das empresas, enfraquece o investimento e instala um sentimento de sobrevivência permanente. É exactamente isso que se observa hoje, um país onde grande parte da população vive sem previsibilidade, sem garantias mínimas e sem clareza sobre o amanhã. A economia não cresce de forma inclusiva, o emprego formal encolhe e o Estado revela dificuldades evidentes para honrar compromissos básicos.

É sintomático que estejamos a caminhar para o Dia da Família num contexto em que milhares de funcionários públicos, incluindo parlamentares, ainda não receberam os seus salários, ou os recebem a conta-gotas, de forma irregular e imprevisível. Para muitas famílias moçambicanas, a celebração torna-se um exercício de resiliência, quando deveria ser um momento de dignidade e estabilidade. Atrasos salariais não são apenas números em folhas de pagamento, representam crianças sem material escolar, mesas mais vazias e um tecido social sob tensão constante.

O cenário empresarial também lança sinais preocupantes. O fecho da MOZAL, com mais de mil trabalhadores afectados, sem incluir as empresas que prestas serviços a esta, expôs a vulnerabilidade de sectores estratégicos e o impacto social imediato das decisões económicas de grande escala. A incerteza em torno da BAT, inicialmente associada ao risco de encerramento, agora à sua aquisição por outro grupo, demonstra como decisões externas moldam, de forma abrupta, o destino de centenas de famílias. A reestruturação de pessoal na Kenmare reforça essa tendência de ajustamentos dolorosos, enquanto o tom de pressão e quase chantagem da TotalEnergies levanta questões sérias sobre a capacidade do Estado de negociar em pé de igualdade com multinacionais.

A isto soma-se a mudança accionista na Multichoice, agora sob o controlo de um grupo de media francês, e a reestruturação global da Nestlé, que prevê a redução de mais de 16 mil postos de trabalho a nível mundial. Embora algumas destas decisões tenham origem fora das nossas fronteiras, os seus efeitos internos são reais e imediatos. Tudo isto nos obriga a uma reflexão profunda: até que ponto Moçambique está preparado para enfrentar um futuro cada vez mais volátil?

Já somos, por natureza, uma economia vulnerável, fortemente dependente de importações, com uma base produtiva limitada e finanças públicas sob enorme pressão. Qualquer choque externo, seja económico, energético ou geopolítico, encontra-nos fragilizados. A ausência de reservas sólidas, de diversificação económica e de uma estratégia clara de desenvolvimento expõe-nos a ciclos repetidos de crise, onde os custos recaem quase sempre sobre os mesmos: os trabalhadores e as famílias.

Este último editorial do ano não pretende ser apenas um exercício de pessimismo, mas um apelo à lucidez. O futuro não se constrói com discursos vazios nem com adiamentos sucessivos de decisões difíceis. Exige reformas sérias, transparência, planeamento e, sobretudo, um compromisso real com o interesse colectivo.

Fica esta reflexão, enquanto aproveitamos a nível interno, observar férias colectivas (na versão semanário), por um período de três semanas, regressando às bancas e às plataformas no dia 20 de Janeiro. Voltaremos com o mesmo compromisso: informar, questionar e contribuir para um debate público mais consciente.

Que o próximo ano traga não apenas esperança, mas também acção concreta. Porque a incerteza, quando não é enfrentada, transforma-se no nosso maior inimigo.

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