No dia que o SERNIC chumbou na prova oral e o certificado de incompetência veio de Portugal

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Portugueses mandam seus próprios investigadores à causa da morte de Pedro Reis
  • Nova Democracia compara o caso aos assassinatos de Siba-Siba Macuácua e Carlos Cardoso
  • Há uma petição a exigir investigação séria, após desconfianças à tese do SERNIC

Diante de uma narrativa pouco convincente do Serviço Nacional de Investigação Criminal sobre as causas da morte do executivo bancário Pedro Reis, encontrado morto na casa de banho do Hotel Polana, no início da semana com vários cortes nas mãos, feridas no pescoço, numa coxa e no abdómem, do lado do coração, as autoridades portuguesas despacharam para Moçambique uma equipa de legistas do Instituto de Medicina Legal e agentes da Polícia judiciária para auxiliarem nas investigações, naquele que já é encarado como um certificado de incompetência passado às autoridades moçambicanas. Uma petição tinha sido lançada ao meio da semana solicitando intervenção das autoridades portuguesas.

Evidências

A equipa, que já se encontra em Maputo, acompanha as investigações da morte do empresário Pedro Reis, em estreita cooperação com as autoridades judiciárias e policiais moçambicanas.

“Na sequência dos contactos com as autoridades de Moçambique, decorridos ao longo desta semana, e no quadro de cooperação entre autoridades policiais e judiciárias de ambos os países, seguirá neste fim-de-semana para Maputo uma equipa composta por elementos da Polícia Judiciária e do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses”, adianta o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério da Justiça, num comunicado conjunto, divulgado este sábado.

Embora a cooperação na investigação com equipas vindas de Portugal seja vista pelas autoridades moçambicanas como comum, há uma crença nos dois países de que as autoridades portuguesas não tenham ficado satisfeitas com as conclusões apresentadas pelo SERNIC que estabeleceu um novo recorde de esclarecimento de um caso em menos de 24 horas.

Refira-se que, segundo a reconstituição dos factos feita pelo SERNIC, Reis retirou-se do local de trabalho (BCI) às 14 horas e dirigiu-se à sua residência, onde retirou uma faca da cozinha. Posteriormente, deslocou-se a um estabelecimento comercial, onde adquiriu mais duas facas. Noutro estabelecimento comercial, adquiriu raticida, antes de se dirigir ao Hotel Polana.

Já na unidade hoteleira, dirigiu-se à casa de banho, onde teria ocorrido o suposto suicídio. O SERNIC acredita que, após ingerir o raticida, o indivíduo desferiu repetidos golpes contra si próprio, causando cortes e perfurações nos pulsos, na região do pescoço, na garganta e no peito, na zona do coração.

A narrativa apresentada rapidamente levantou sérias dúvidas, por ser difícil compreender como alguém que corta profundamente os pulsos consiga, com facilidade, manter firme a faca para, de seguida, cortar o pescoço e depois perfurar-se o peito na zona do coração.

Perante a pressão, o SERNIC que praticamente já tinha assumido a sua tese como conclusiva, viu-se obrigado a recuar e assumir que ainda não encerrou a investigação à morte do português e que decorrem diligências.

Um grupo de cidadãos portugueses lançou uma petição dirigida ao presidente da Assembleia da República e ao ministro dos Negócios Estrangeiros, exigindo a intervenção do Estado português no esclarecimento da morte. Os peticionários manifestam profunda preocupação pelas explicações avançadas pela SERNIC, que consideram “incongruentes” e “insuficientes”.

Nova Democracia denuncia escalada de homicídios selectivos e exige justiça

Sempre interventivo, o partido Nova Democracia (ND) manifestou profunda preocupação pelo assassinato do cidadão português e classificou o crime como parte de uma crescente vaga de violência no País, marcada por sequestros e homicídios selectivos, que atribui alegadamente a “esquadrões da morte” com o objectivo de silenciar fontes de informação sensível e “queimar arquivos

Num documento enviado à redacção do Evidências, a formação política, liderada por Salomão Muchanga, sustenta que estes crimes têm fragilizado as instituições do Estado, desacreditado as autoridades, aterrorizando empresários e detentores de informação sensível, além de manchar a imagem do país junto da comunidade internacional. Segundo a ND, neste contexto, “possuir conhecimento relevante tornou-se um risco”, podendo levar à inclusão numa alegada “black list”.

Para o partido, o caso levanta “muitas incertezas” e tem dado origem a narrativas que apontam para um possível homicídio envolvendo interesses da elite económica. A formação política compara o caso aos assassinatos de Siba-Siba Macuácua e Carlos Cardoso, figuras emblemáticas que marcaram a história do país, sublinhando a persistência da impunidade em crimes envolvendo interesses poderosos.

No mesmo posicionamento, a Nova Democracia desafia as autoridades competentes moçambicanas e portuguesas a agirem “com veemência”, respeitando os instrumentos legais nacionais e internacionais, com vista à responsabilização criminal dos mandantes e executores.

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