Chiguidela: o epicentro da devastação

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  • Cheias históricas isolam comunidades e expõem uma crise sanitária extrema em Gaza
  • Sem água, sem latrinas, sem dignidade – eis o retrato da localidade após as cheias

  A localidade de Chiguidela, Posto Administrativo de Chilembene, Distrito de Chókwè, Província de Gaza representa o epicentro da devastação pelas recentes cheias em Moçambique. O caminho até lá já anuncia a dimensão da tragédia. A estrada foi violentamente cortada pelas águas e, no seu lugar, existe apenas um desvio improvisado, aberto à força, que atravessa um riacho espesso de lama. É uma travessia lenta, instável, feita com o coração apertado e os olhos presos ao chão. Os veículos avançam em gincana, como se cada metro fosse um risco calculado. Não é qualquer carro que chega a Chiguidela. Entre os residentes, o trajecto ganhou um nome irónico e cruel: a rota das estrelas — porque só quem tem sorte consegue passar.

 Arão Valoi, colaboração

Quando finalmente se chega, a sensação é de entrar num lugar abandonado pelo tempo e pela vida. Chiguidela é, provavelmente, o local mais devastado pelas cheias que afectaram quase 800 mil pessoas nas províncias de Maputo, Gaza, Inhambane e Sofala, obrigando à abertura de 99 centros de acomodação em todo o País. Aqui, a destruição é total. Casas desapareceram por completo. Outras ficaram reduzidas a esqueletos de lama e paus. Infra-estruturas públicas colapsaram. Sistemas de abastecimento de água deixaram de existir. Latrinas foram arrancadas do chão. As vias de acesso foram engolidas. O que resta é um cenário desolador, pesado, quase irreal. Chiguidela parece hoje uma aldeia fantasma, onde o silêncio só é interrompido pelo barulho de martelos a tentar pregar o que resta, em jeito de reconstrução ou então por vozes cansadas e agoniantes das pessoas que tentam lembrar como era a vida antes de a água chegar.

As populações falam em 107 pessoas mortas e muitas outras dadas como desaparecidas. Um número que ecoa como um grito e que contrasta brutalmente com os dados oficiais apresentados a nível nacional, que apontam para apenas vinte e três mortes em todas as províncias afectadas. Aqui, os números não são abstracções. São nomes. São histórias interrompidas. São corpos que nunca regressaram. E o número pode aumentar, porque há zonas ainda inacessíveis, famílias inteiras por localizar e dados que continuam por apurar.

O isolamento agrava tudo. Com a estrada cortada, Chiguidela vive dias de abandono quase total. O apoio humanitário chega com dificuldade. Quando chega, chega pouco e tarde. As famílias perderam tudo. À nossa chegada, o cenário é de um movimento estranho, quase caótico: algumas pessoas escavam a lama à procura de restos das suas casas — uma panela, um prato partido, um pedaço de roupa. Outras tentam reconstruir as suas latrinas para as suas necessidades biológicas — enquanto algumas abandonam a localidade em silêncio, carregando crianças, sacos improvisados e um olhar vazio, em busca de qualquer lugar que ainda ofereça segurança.

Aqui, não há água potável, não há latrinas. E, sem isso, não há dignidade

As populações recorrem à água estagnada que ficou depois das cheias — água turva, contaminada, misturada com resíduos, fezes e restos de animais — para beber, cozinhar, tomar banho e lavar roupa. É a mesma água que inundou latrinas, cemitérios e currais. O risco de surtos de doenças de origem hídrica é extremo. Depois da destruição visível, instala-se uma ameaça silenciosa, invisível e potencialmente mortal.

Em Chalucuane, outra localidade severamente afectada, encontrámos Álvaro Macamo Júnior, 23 anos. A sua história concentra, num único relato, o terror vivido por milhares de famílias em todo o distrito.

“Fiquei três dias no tecto da casa”, conta, com a voz embargada. Desde a madrugada de 17 de Janeiro, quando as águas entraram violentamente na zona, até ao dia 19; Álvaro, os pais idosos e mais oito famílias ficaram presos no topo de uma casa cercada por água por todos os lados. No total, cerca de 45 pessoas.

Foram três dias de medo contínuo. Durante o dia, um calor sufocante, sem sombra, sem água potável. À noite, chuva intensa, vento e cobertores encharcados. Não havia resgate à vista. Helicópteros passavam por cima deles, seguindo para outras comunidades. O pânico instalou-se. A fome chegou rápido. As pessoas faziam necessidades em baldes e despejavam as fezes na água que os rodeava. Álvaro arriscava a própria vida, descendo ocasionalmente para tentar recuperar algo útil dentro da casa submersa.

“Houve momentos em que pensei que ia morrer”, diz, para depois acrescentar “mas fiz de tudo para que os meus pais não sofressem”. Apesar de tudo, ninguém da sua família morreu. Outros não tiveram a mesma sorte.

“Estas cheias chegaram onde nunca tinham chegado”

Álvaro reconhece hoje que muitos moradores não levaram a sério os alertas emitidos pelas autoridades. Pensavam que estas cheias seriam como as de 2000 ou 2013. O pai confirma. Álvaro Pedro Macamo, 66 anos, residente em Chalucuane há quatro décadas, diz nunca ter vivido nada semelhante.

“Estas cheias chegaram onde nunca tinham chegado. Arrastaram casas, mataram pessoas e animais. Aqui não ficou nenhuma latrina. Nada. Ficámos sem nada.”

Mesmo em meio ao colapso, algumas iniciativas de sobrevivência emergem. Professor de formação e mentor do Projecto SHARE, implementado pela WaterAid em vários distritos do sul do País, Álvaro mobiliza as comunidades para sessões improvisadas sobre boas práticas de higiene, alertando para os riscos do fecalismo a céu aberto e da utilização de água contaminada. É uma corrida contra o tempo. Porque depois da cheia, vem a doença.

A dimensão da crise é confirmada pelas autoridades distritais. Segundo o administrador de Chókwè, Narciso Eduardo Nhamuhuco, as cheias afectaram directamente mais de 170 mil pessoas, cerca de 34 mil famílias. Nem todas foram para centros de acomodação, mas só no distrito foram abertos três grandes centros, acolhendo dezenas de milhares de deslocados. Para evitar uma catástrofe sanitária ainda maior, o distrito está a garantir cerca de 500 mil litros de água por dia, transportados e armazenados em tanques flexíveis.

“Temos consciência de que podemos salvar pessoas das cheias e depois perdê-las para a sede ou para doenças relacionadas com a água”, admite o administrador. A preocupação agora é a fase de retorno, num contexto em que milhares de famílias regressarão a zonas onde não há água, nem saneamento, nem condições mínimas de habitabilidade.

“O impacto das cheias não termina quando a água recua”

É neste cenário de colapso quase total que a resposta humanitária se torna vital. A WaterAid Moçambique, com o apoio dos seus escritórios regional e do Reino Unido, juntou-se a outros parceiros humanitários numa resposta de emergência focada na protecção da saúde pública e da dignidade humana através de Água, Saneamento e Higiene (ASH). A organização iniciou a distribuição de kits de higiene e dignidade a mais de 5.000 famílias afectadas pelas cheias, nos centros de acomodação das províncias de Maputo e Gaza, incluindo Chókwè, onde milhares de pessoas vivem em condições extremamente precárias.

Em Gaza, a WaterAid está a apoiar directamente cerca de 4.000 pessoas nos centros de Chiaquelane, Hókwe e Chinhacanine. Em Maputo, foram distribuídos 1.000 kits em Boane e Marracuene. Cada kit inclui produtos essenciais de higiene pessoal e doméstica, concebidos para reduzir o risco de doenças e restaurar um mínimo de dignidade às famílias deslocadas. Num contexto em que o acesso à água potável e ao saneamento seguro é severamente limitado, estes kits representam muito mais do que bens materiais. São uma linha de defesa imediata contra surtos de cólera, diarréias e outras doenças evitáveis. São também um gesto concreto de humanidade num momento em que tudo foi perdido.

“O impacto das cheias não termina quando a água recua”, afirma Gaspar Sitefane, director da WaterAid Moçambique. “Sem acesso à água segura, saneamento adequado e condições básicas de higiene, as comunidades continuam em risco. O nosso foco é proteger vidas agora, mas também garantir que a recuperação seja sustentável. Água, saneamento e higiene não são um luxo em emergências. São uma questão de sobrevivência.”, diz ele.

Para além da resposta imediata, a WaterAid está a preparar um pacote de intervenção para a fase pós-emergência, com foco na reabilitação de fontes de água, construção de latrinas resilientes e promoção de práticas de higiene seguras nas comunidades afectadas. O objectivo é evitar que a tragédia se repita, transformando uma emergência numa crise prolongada de saúde pública.

Em Chiguidela e Chalucuane, a água recuou. Mas deixou para trás um território ferido, famílias sem nada e uma urgência que não pode esperar. Porque quando as cheias passam, a crise não acaba. Ela muda de forma. E sem água limpa, saneamento seguro e higiene, o desastre continua — silencioso, invisível e mortal.

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