Onde a água corre, a igualdade cresce

OPINIÃO
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Arão Valoi

No Domingo, 22 de Março, o mundo assinalou mais um Dia Mundial da Água, este ano sob o lema “Água e Género” e com uma mensagem poderosa: “Onde a água corre, a igualdade cresce”. Mas em Moçambique – e em grande parte do mundo – esta frase não é ainda uma realidade. É, antes de tudo, uma ambição. E, talvez mais importante, um alerta. A crise de água não é neutra. Nunca foi. Afecta todos, mas não da mesma forma. Onde o acesso à água potável segura e ao saneamento básico falha, as desigualdades não apenas persistem – aprofundam-se. E são, de forma desproporcional, as mulheres e as raparigas que carregam esse fardo invisível.

Neste preciso momento, em várias zonas do País, há mulheres a percorrerem quilómetros sob o sol para garantir alguns litros de água para as suas famílias; há raparigas que faltam à escola por não terem condições dignas para gerir a sua higiene menstrual; há mulheres que enfrentam riscos de segurança ao procurar locais isolados para satisfazer as necessidades básicas. Estas não são histórias isoladas -são rotinas diárias. E são, acima de tudo, manifestações de uma falha estrutural.

Reduzir a crise da água a uma questão de infra-estrutura é um erro. Trata-se, simultaneamente, de uma crise de dignidade, de saúde pública, de igualdade de género e de desenvolvimento. Onde não há água segura nem saneamento adequado, há mais doenças, mais abandono escolar, menos oportunidades económicas e maior vulnerabilidade social. A água, ou a sua ausência, molda destinos.

Os dados mais recentes são claros – e preocupantes. Em Moçambique, cerca de 63 a 64% da população tem acesso à água potável. Isso representa progresso, sem dúvida. Mas este número esconde desigualdades profundas, sobretudo entre zonas urbanas e rurais. Mais alarmante ainda é a situação do saneamento: apenas cerca de 35% da população tem acesso a serviços melhorados. Ou seja, quase dois terços dos moçambicanos vivem sem condições adequadas de saneamento. E mais de um terço da população continua a praticar o fecalismo a céu aberto.

Esta discrepância entre avanços na água e atrasos no saneamento é uma das principais barreiras para o alcance do Objectivo de Desenvolvimento Sustentável número 6 – garantir água e saneamento para todos até 2030. E o tempo não está do nosso lado.

Como se não bastasse, a crise climática está a amplificar esta realidade. Em Moçambique, falar de mudanças climáticas é, inevitavelmente, falar de água. Secas prolongadas reduzem drasticamente a disponibilidade de recursos hídricos. Ciclones e cheias destroem infra-estruturas, contaminam fontes de água e criam condições ideais para surtos de doenças como a cólera.

Eventos extremos recentes demonstraram a fragilidade dos sistemas existentes. Em questão de dias – por vezes horas – comunidades inteiras ficam sem acesso à água segura. E, mais uma vez, são as mulheres, as crianças, os idosos e as pessoas com deficiência que mais sofrem as consequências.

A verdade é simples: a crise climática é uma crise hídrica. E, sem sistemas resilientes, continuaremos a reagir a emergências em vez de preveni-las.

É neste contexto que se torna urgente repensar a forma como desenhamos e implementamos soluções. Não basta construir mais furos de água ou latrinas. É necessário garantir que estas soluções são sustentáveis, resilientes ao clima e, sobretudo, inclusivas.

Aqui entra uma dimensão frequentemente negligenciada: o género.

Programas de Água, Saneamento e Higiene (ASH) que ignoram as desigualdades de género estão condenados a falhar parcialmente. Não é possível falar de acesso universal sem reconhecer que as experiências de acesso são diferentes para homens e mulheres. Integrar a perspectiva de género não é um detalhe técnico – é uma condição essencial para a eficácia.

Isso implica envolver mulheres na tomada de decisões, desde a concepção até à monitoria dos projectos. Implica desenhar infra-estruturas que respondam às necessidades específicas de todos os utilizadores. Implica reconhecer que o tempo gasto na recolha de água tem um custo real — em educação, em rendimento, em qualidade de vida.

Em Moçambique, há exemplos encorajadores. Organizações como a WaterAid, presente no País desde 1995, têm vindo a demonstrar que uma abordagem integrada e sensível ao género pode produzir resultados concretos e duradouros. Ao longo de três décadas, mais de dois milhões de pessoas beneficiaram de serviços sustentáveis de água, saneamento e higiene em várias províncias do País. Mas é preciso dizer com clareza: estes esforços, embora significativos, não são suficientes face à escala do desafio.

O que está em causa não é apenas expandir cobertura. É transformar sistemas. É garantir que cada escola tem água e casas de banho adequadas para raparigas. Que cada unidade sanitária pode oferecer cuidados com segurança e dignidade. Que nenhuma mulher tenha de escolher entre a sua segurança e uma necessidade básica. E isso exige investimento. Muito mais investimento.

Investir em água, saneamento e higiene não é um luxo – é uma das decisões mais inteligentes que um País pode tomar. Cada metical investido traduz-se em ganhos em saúde, educação, produtividade e resiliência. É uma base para o desenvolvimento sustentável. Neste momento, o apelo é claro e inadiável.

O Governo de Moçambique, com o apoio dos parceiros de cooperação, precisa de reforçar significativamente os investimentos em serviços de ASH resilientes ao clima. Infra-estruturas devem ser concebidas para resistir a choques, adaptadas aos contextos locais e capazes de servir as populações mais vulneráveis de forma contínua.

Mas o compromisso não pode ser apenas financeiro. É também político. É necessário priorizar o sector, fortalecer a coordenação institucional e garantir que políticas públicas integram, de forma efectiva, a dimensão de género.

A sociedade civil, o sector privado e os cidadãos também têm um papel a desempenhar. A água é um direito humano, mas a sua concretização depende de acção colectiva.

Ao celebrarmos o Dia Mundial da Água — ainda que com alguns dias de distância — importa ir além das mensagens simbólicas. Este não é apenas um momento de reflexão. É um momento de responsabilização. Porque, no final, a questão é simples: que tipo de país queremos ser: Um País onde milhões continuam excluídos de serviços básicos, onde as desigualdades se reproduzem diariamente através da falta de água e saneamento? Ou um País que reconhece que a dignidade começa no acesso ao essencial – e que actua de forma decisiva para garantir esse direito a todos?

“Onde a água corre, a igualdade cresce” não pode continuar a ser apenas um slogan. Tem de se tornar uma realidade visível, mensurável e irreversível.

E isso começa agora.

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