O suicídio assistido da civilização ocidental

OPINIÃO
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Luca Bussotti

O “suicídio assistido” é uma expressão que, geralmente, se refere à vontade de alguém, doente no estado terminal, expressar a ideia de querer parar com a sua própria vida. Países como a Suíça regulamentam este desejo mediante leis específicas, dando a possibilidade à pessoa que queira empreender este doloroso percurso de interromper a sua vida de forma assistida, ou seja, com fármacos apropriados e com o apoio dos familiares, em clínicas ou hospitais adequadamente estruturados para o efeito.

Querer terminar a própria existência evitando o que os médicos chamam de “tratamento agressivo” é uma escolha difícil, mas sempre possível, pois trata-se de uma opção individual. Se aplicarmos este paradigma às civilizações, ainda mais as hegemónicas, o discurso muda por completo. Acima de tudo, os tempos em que este processo ocorre: se, no caso individual, são suficientes poucos minutos para acabar com a existência de um ser humano, para sociedades dominantes a perspectiva cronológica implica séculos de demorada decadência, com momentos de aparente resgate e outros de crise mais explícita. Em segundo lugar, as civilizações produzem as suas próprias condições para desaparecerem, de forma inconsciente, embora sempre apareça uma classe de intelectuais (considerados heréticos e frequentemente perseguidos) assinalando que a parábola está a se tornar descendente, e chamando atenção para uma queda irreversível. Finalmente, existem algumas manifestações mais ou menos constantes, em que as nações hegemónicas procuram afirmar a sua potência mediante políticas agressivas, ou seja, ocupando territórios alheios e travando guerras com cada vez mais inimigos. E criando simbolismos e narrativas ad hoc.

Se analisarmos a situação que actualmente se vive no Ocidente, representada pelos Estados Unidos, podemos vislumbrar que alguns destes sinais já se manifestaram há muito tempo, e que, com a ascensão de Trump no poder, eles se acentuaram. Como dizia o grande historiador britânico Arnold Toynbee, “os grandes impérios não morrem por assassinato, mas por suicídio”. E o que estamos a ver nos últimos dias no Médio Oriente é justamente uma forma de suicídio assistido que está a levar a uma progressiva destruição daquela que se costuma chamar de “civilização ocidental”.

Os pontos da crise estão claros: em primeiro lugar, um dado sempre importante para medir a saúde de uma civilização é a sua demografia. Nos Estados Unidos, pela primeira vez em 650 anos, o saldo demográfico foi negativo, em 2025, com a pior taxa de natalidade da sua história (em 2024, 1,6 nascimentos por mulher). Se formos a considerar a Europa, esta tendência é muito mais consolidada. Em 2025, a Itália bateu o recorde negativo em termos de taxa de natalidade, com 1,18 filhos a cada mulher, seguida por Espanha e Grécia. Se este é um indicador central para medir as condições de uma civilização, o mais contraditório é que, diante destes dados, existem tendências da extrema direita que apontam para que justamente estes países fechem as suas fronteiras aos estrangeiros, os únicos que poderiam garantir uma retomada da taxa de natalidade, além de empregos que os nativos já não querem fazer. Do ponto de vista simbólico, a reacção das extremas direitas, que visa proteger de forma obsessiva as “identidades” (sejam elas religiosas, filosóficas, jurídicas, etc.), em detrimento dos “números”, representa um dos mecanismos mais evidentes de suicídio civilizacional do Ocidente. Trump e Milei representam, neste momento, os governantes que estão a empurrar estes mecanismos até às suas extremas consequências, favorecendo assim o envelhecimento e a liquefação desta sociedade.

O segundo elemento, o mais visível, é constituído pelas guerras agressivas que os vários impérios, antigos e novos, estão travando. Não é por acaso que os dois países que mais se engajaram em conflitos armados nos últimos anos foram as duas antigas grandes potências da época da Guerra Fria, Rússia e Estados Unidos. Ambas estão a perder a sua hegemonia mundial ou regional, e ambas estão à procura de novas afirmações territoriais que, mesmo simbolicamente, consigam resgatar a antigo prestígio. A potência emergente, a China, há muito tempo não se engaja em conflitos, procurando ficar fora de qualquer tipo de tensão internacional, com evidentes dividendos políticos, culturais, económicos.

A postura, a linguagem, as motivações da intervenção de Putin na Ucrânia e a de Trump/Netanyahu no Médio Oriente são parecidas, embora com algumas peculiaridades. Em primeiro lugar, o mito do inimigo “perigoso” que é preciso conter: no caso da ocupação russa na Ucrânia, este inimigo era a OTAN que ameaçava Moscovo, devido ao avançamento dos seus limites orientais; no caso da intervenção israelo-americana no Irão, o país dos Ayatollah representava supostamente um perigo – até nuclear – para Israel e para os próprios Estados Unidos.

Em segundo lugar – fora da retórica de levar a democracia lá onde ela não existia, como no Afeganistão ou no Iraque, que Trump eliminou do seu discurso político -, a questão energética. Uma questão que preocupa os principais expoentes de uma civilização em crise (a ocidental) por uma razão muito simples: por um lado, com a actual revolução tecnológica, as necessidades energéticas são cada vez mais significativas: Calcula-se que, em 2026, tais necessidades irão subir em razão de 3,6% comparando com 2025, e que a maior contribuição deste crescimento deve ser atribuída à inteligência artificial e aos Data Centers; por outro lado, Europa e, em parte, Estados Unidos, já não querem explorar recursos como carvão, petróleo ou gás nos seus territórios, devido ao tremendo impacto ambiental e aos protestos de grande parte da sociedade civil. O que se pretende, portanto, é garantir quantidades crescentes de energia, que deve, porém, ser explorada fora do Ocidente; daqui, a decisão de atacar o Irão, que representa o 7º maior produtor mundial de petróleo, e que fornece principalmente China e Índia, ou seja, as duas potências emergentes, inimigas estratégicas dos Estados Unidos (e de Israel). Finalmente, a ocupação de territórios alheios justificada com um discurso de “missão religiosa”. Quer Putin, com a Igreja Russa Ortodoxa, quer Trump, com os evangélicos americanos, e obviamente Netanyahu com os radicais judeus, usam desta retórica para se tornarem “Ungidos do Senhor”, justificando assim a sua missão de morte e destruição mediante a religião.

O papel de Israel representa o elemento conjuntural (ou seja, a liderança de Netanyahu) que está a provocar esta “perfect storm”, acelerando a queda da civilização ocidental. Tem muito de simbólico nisso: Israel é onde começou a civilização ocidental, que depois teve a variante cristã, que se difundiu em grande parte do planeta. Mas o início de tudo foi ali, naqueles territórios e com aquela religião. E é ali onde está a se celebrar o fim desta civilização. A sede de guerra e de mortes de Netanyahu parece não ter fim: um conflito sem prazo certo contra inimigos que surgem de todo o lado, e que vai ser preciso destruir, de forma definitiva e a qualquer custo. E este custo é representado por vidas ceifadas, invasões territoriais ilegítimas, direito internacional que foi para a lixeira, exaltação da morte como paradigma político principal, até destruição das infra-estruturas energéticas que servem ao seu próprio país. Em paralelo, um papel relevante é constituído pelas incertezas da Europa, que está a tentar manter os princípios que desde sempre foram os pilares da civilização ocidental, mas sem conseguir, devido ao seu temor reverencial para com os Estados Unidos. Em suma, uma função de “assistência” a este suicídio colectivo, a que poucos estão a tentar se opor.

Mas a prova de que este suicídio assistido está em curso é constituída pela destruição daquilo que Trump considera o essencial, na sua intervenção militar no Irão (e nas ameaças à Groenlândia): os poços de petróleo. Neste sentido, o próprio Trump pediu ao Netanyahu para cessar os ataques contra estes jazigos, pois a economia mundial está a entrar numa crise nunca vista até hoje (o preço do petróleo por barril é só a ponta deste iceberg), que é preciso travar. Quem protagonizou a guerra no Médio Oriente foi Netanyahu, o verdadeiro player do conflito, cuja capacidade de (auto)destruição é infinita. Trump, que já não sabe como sair desta guerra, percebe que o caminho está a levar ao suicídio acima referenciado, mas agora é tarde demais para recuar. Então, medidas contraditórias em rápida sucessão: vamos afrouxar o embargo contra a Rússia para garantir mais fornecimento de gás e petróleo, dando assim fôlego ao antigo Império do Mal através de receitas inesperadas, alimentando ainda mais a guerra na Ucrânia, que Trump procurou travar desde a sua nova eleição; vamos permitir que o Irão consiga vender o petróleo que está parado nos seus navios, assegurando receitas ao inimigo que está a tentar destruir… Em suma, um caos completo, fruto, por um lado, de lideranças politicamente impreparadas (Trump), ou destrutivas (Putin e Netanyahu), e, por outro, de uma queda que parece irreversível de uma civilização – a ocidental – que fará de tudo (como demonstram os últimos eventos) para atrasar a ascensão das potências asiáticas.

O grande Império Otomano se desfez por causa da Primeira Guerra Mundial, mas os mecanismos de auto-destruição já eram visíveis muito antes deste evento traumático, com corrupção das elites dirigentes, e resistência à modernização e às reformas por parte dos mais abastados; o mais poderoso império da história, o Império Romano, caiu por razões parecidas, e colocando um adolescente (Rómulo Augusto) na sua liderança; a dinastia Ming na China, no século XVII, desmoronou por razões económicas (o preço da prata, a base da sua economia, disparou), climáticas, mas também endógenas, com a subida do poder dos eunucos e a ausência política dos imperadores; o actual sistema económico, o Capitalismo, beneficiou de uma aceleração quando, na Inglaterra, foi aprovado o Speenhamland Act no fim do século XIX (em 1795), procurando garantir um salário mínimo aos mais pobres, que resultou numa paralisação da produção agrícola, impulsionando o desenvolvimento industrial urbano.

O grande Império Americano, com os seus aliados europeus e médio-orientais (israelitas e árabes), está a trilhar pelo mesmo caminho. A sua decadência definitiva é questão de tempo. Quanto tempo é impossível dizer, mas lideranças como a de Trump ou de Netanyahu estão a acelerar este processo que, como dizia Giambattista Vico, faz parte dos cursos e dos recursos da história. Ou, como teorizou Nietzsche, será um “super-homem” (talvez, no nosso caso, dois…) a determinar a destruição (a morte de Deus) e um novo recomeço. Que pode não ser necessariamente melhor do que tínhamos antes, mas certamente será diferente, abrindo oportunidades para partes do planeta (Ásia e África, sobretudo) até hoje marginalizadas.

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