Singapura recorre a gás natural liquefeito moçambicano para mitigar cortes no abastecimento

DESTAQUE ECONOMIA
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Singapura recebeu recentemente uma carga de gás natural liquefeito (GNL) proveniente de Moçambique, num momento em que o mercado energético global atravessa uma fase de elevada volatilidade e incerteza. Segundo informações avançadas pela Reuters, o carregamento teve origem no projecto Coral Sul, situado na bacia do Rovuma, ao largo da costa de Cabo Delgado, e foi entregue no dia 19 de Abril. Esta operação foi realizada pela empresa estatal singapurense GasCo, no âmbito de uma série de aquisições pontuais destinadas a mitigar os impactos das perturbações causadas pelo conflito no Médio Oriente, que tem condicionado severamente o fluxo internacional de hidrocarbonetos.

A dependência extrema de Singapura em relação ao gás natural, que assegura cerca de 95% da produção de electricidade daquele país, torna a nação asiática particularmente exposta a disrupções no abastecimento. A instabilidade atual deriva, em grande medida, dos constrangimentos operacionais no Qatar e das limitações impostas ao trânsito através do Estreito de Ormuz, por onde circula aproximadamente 20% do GNL mundial. Face a este cenário, Singapura tem procurado reforçar as suas reservas através de compras no mercado spot, tendo recebido, além da carga moçambicana, dois carregamentos adicionais oriundos da Austrália, numa tentativa de travar a escalada de preços que atingiu na Ásia níveis não observados nos últimos três anos.

O projecto Coral Sul, operado pela petrolífera italiana Eni, consolida-se como um pilar fundamental da estratégia energética moçambicana. Sendo a primeira unidade flutuante de liquefacção de gás natural em águas profundas a operar no mundo, a infraestrutura entrou em funcionamento em Novembro de 2022 e possui capacidade para produzir 3,4 milhões de toneladas de GNL anualmente. Desde o início das suas operações, Moçambique já concretizou 135 carregamentos de hidrocarbonetos para exportação, sendo 118 de GNL e 17 de condensados. Embora o mercado asiático seja o principal destino, ao abrigo de contratos de longo prazo com a BP, estas entregas pontuais para Singapura demonstram a flexibilidade e a crescente diversificação das exportações moçambicanas no panorama energético global.

A GasCo indicou que a sua prioridade permanece a segurança dos volumes de gás no mercado a curto prazo, enquanto prosseguem negociações com fornecedores de confiança para garantir contratos de longo prazo. A intenção da estatal singapurense é avançar, ao longo de 2026, para a contratação de fornecimentos estáveis que permitam assegurar o abastecimento nacional a partir de 2028. Para Moçambique, esta operação não só reforça a posição do país como um interveniente cada vez mais relevante nas cadeias globais de valor, como também sublinha a importância estratégica dos seus recursos no contexto de uma transição energética marcada por tensões geopolíticas constantes.

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