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Empresas moçambicanas, sobretudo pequenas e médias, continuam a enfrentar dificuldades para aproveitar os recursos disponíveis nos fundos de pensões e no mercado de capitais, devido à falta de conhecimento, organização e estruturação empresarial. A constatação foi apresentada durante um debate sobre financiamento à economia, onde representantes do sector financeiro defenderam maior preparação das empresas para facilitar o acesso ao financiamento.
Durante o debate, foi apontado que os fundos de pensões possuem recursos de longo prazo que poderiam ser canalizados para o financiamento da economia produtiva, mas que grande parte desses recursos acaba concentrada em instrumentos do Estado e na banca comercial.
Segundo uma das intervenções, o Estado tem conseguido captar recursos dos fundos de pensões através de instrumentos como obrigações do Tesouro, enquanto muitas empresas desconhecem os mecanismos existentes para aceder a esse financiamento.
A situação, segundo os participantes, faz com que os bancos tenham maior facilidade em captar recursos dos fundos de pensões a taxas relativamente baixas e, posteriormente, conceder crédito às pequenas e médias empresas a taxas mais elevadas, dificultando o acesso destas ao financiamento.
Foi igualmente defendida a criação de mecanismos de intermediação capazes de reduzir os riscos associados ao financiamento do sector privado, sobretudo da agricultura. A proposta passa pela existência de entidades especializadas na avaliação e gestão de riscos, permitindo que os fundos de pensões invistam indirectamente em sectores produtivos sem expor directamente as suas poupanças.
“Falta uma entidade que tenha estrutura, que organize tudo, para os fundos se sentirem confortáveis em poder colocar o dinheiro”, disse Valter Manjate, Director Administrativo e Financeiro da Moçambique Previdente.
Mercado de capitais ainda pouco explorado
A Bolsa de Valores de Moçambique (BVM) reconhece igualmente que existe desconhecimento por parte das empresas sobre o mercado de capitais como alternativa ao crédito bancário.
Celso Filimão, Director de Estudos e Marketing da BVM, explicou que muitas empresas também demonstram receio de perder o controlo da gestão ao abrir o seu capital, além de enfrentarem dificuldades para cumprir os requisitos necessários para serem admitidas à cotação.
Segundo a instituição, grande parte das empresas moçambicanas, sobretudo as pequenas e médias empresas, está constituída como sociedade por quotas, enquanto o acesso ao financiamento através do mercado de capitais exige, em determinadas modalidades, a constituição como sociedade anónima.
A transformação estrutural das empresas constitui, por isso, um dos principais desafios para a utilização da Bolsa como instrumento de financiamento.
“Há um desconhecimento das empresas em relação ao mercado de capitais como alternativa de financiamento. Há um receio também das empresas em termos de perder o poder de gestão”, explicou Celso.
Para facilitar a entrada gradual das pequenas e médias empresas no mercado de capitais, a BVM criou o terceiro mercado, concebido como um espaço de incubação e preparação das empresas para, posteriormente, poderem migrar para os mercados de cotação oficiais.
O mecanismo prevê um período de dois anos para que as empresas possam amadurecer e completar os requisitos necessários à sua progressão no mercado de capitais.
Agricultura continua com dificuldades de financiamento
O sector agrícola foi apontado como uma das áreas que mais enfrenta dificuldades no acesso ao financiamento, apesar do seu peso estratégico na economia nacional.
Durante o debate, foi referido que a agricultura representa apenas cerca de 1,5% do crédito concedido à economia, situação que levanta preocupações sobre a capacidade de financiamento de um sector considerado fundamental para o desenvolvimento do país.
A BVM defende que as empresas do sector agrário devem igualmente apostar na organização e transformação da sua estrutura empresarial, incluindo a adopção do modelo de sociedade anónima, para poderem recorrer aos instrumentos disponíveis no mercado de capitais.
O representante da Bolsa explicou ainda que os investidores precisam de informação financeira fiável para avaliar as empresas antes de aplicarem os seus recursos. Por isso, a publicação de relatórios de contas e a existência de planos de negócios transparentes são elementos fundamentais para criar confiança.
BNI defende maior preparação das PME
O Banco Nacional de Investimento (BNI) também reconhece que poderia haver maior absorção dos seus produtos e serviços pelas pequenas e médias empresas, que constituem uma parte importante da economia moçambicana.
Segundo um representante da instituição, apesar de existirem produtos financeiros disponíveis, muitas empresas não conseguem aceder ao financiamento devido a dificuldades relacionadas com a organização interna, literacia financeira e contabilidade organizada.
“Gostaríamos de estar mais satisfeitos. Percebemos que a nossa vontade está lá, a nossa capacidade permite fazer, mas poderíamos fazer mais e poderíamos ter uma maior absorção por parte do mercado aos produtos e serviços que trazemos”, afirmou, Ancha Omar, Directora da Direcção Comercial e Marketing do BNI.
O BNI considera que a solução não depende apenas das instituições financeiras, defendendo uma actuação conjunta entre bancos, associações empresariais, instituições públicas, empresas de consultoria financeira e outros intervenientes da cadeia de financiamento.
No sector agrícola, o banco diz estar a actuar através do financiamento de pequenas e médias empresas que podem funcionar como elo entre os produtores e os mercados, incluindo os mercados de exportação.
A estratégia passa também pelo apoio a pequenos produtores, empresários e estudantes de escolas agrícolas, através de linhas de financiamento destinadas a aumentar a capacidade produtiva e introduzir tecnologias e informação.
Seguros agrícolas podem reduzir riscos
Outro mecanismo apontado como necessário para facilitar o financiamento à agricultura é o desenvolvimento de seguros agrícolas.
Segundo o BNI, a criação de produtos de seguro adequados ao sector poderia reduzir os riscos associados à actividade agrícola e dar maior conforto às instituições financeiras para conceder crédito aos produtores.
Os participantes convergiram na necessidade de maior organização empresarial e literacia financeira para que as empresas possam aproveitar os recursos disponíveis no sistema financeiro.
A concluir, os intervenientes são unanimes ao reconhecer que, no mercado existe dinheiro disponível para financiar a economia, mas as empresas precisam de se preparar, cumprir os requisitos e adoptar estruturas que lhes permitam aceder aos diferentes instrumentos de financiamento.



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