Tiro aos pratos

OPINIÃO

Afonso Almeida Brandão

(para o jornalista Abel Faife, com quem trabalhei nos Anos 70, esta Memória de Infância, com Eterna Saudade)

Abri a boca com sono. Tornei a abrir. Abri-a uma vez mais. Mas ninguém me ligou. O meu pai estava a falar ao telefone com um amigo. A minha mãe, que de vez em quando me olhava com um ar severo, andava por ali às voltas para ver se eu comia, e não dava a menor importância aos meus bocejos. E eu sem vontade nenhuma de comer.

A sopa até tinha um aspecto mais ao menos agradável. Era uma sopa de massa de letras. Uma daquelas sopas com que se pode brincar. Ali mesmo, diante de mim, boiavam um R, um V e dois T. E já lá vinha um H. Quem inventou esta sopa merecia receber um prémio. É uma sopa gira, nada parecida com a sopa de legumes, cheia de nabos e de coisas assim, e que sabe mesmo a dias de chuva: um horror! Com uma sopa de letras, pelo menos, podemos tentar escrever o nosso nome. Afonso. Faltava um N. A minha mãe virou-se para mim e falou-me com aquela voz que ela tem muito especial, para mostrar que está zangada:

— Afonso! Quero que comas essa sopa, imediatamente!

Quando ela se zanga, trata-me por Afonso, eu bem sei. Por isso, comi uma colher cheia de vogais o mais depressa possível.

Foi então que a minha mãe ligou o televisor. A imagem surgiu de repente, e eu olhei-a por detrás do fumo que saia da minha sopa de letras. Mas, eu não estava com vontade de comer sopa, também não tinha o menor desejo de ver televisão. Reparei, apesar de tudo, que estavam a dar imagens de uma guerra. Não sei se era um filme, uma telenovela, um noticiário ou um anúncio publicitário. Era uma guerra e pronto.

Igual a todas as guerras que todos os dias dão na televisão. Tinha todo o barulho e toda a zaragata, toda a confusão e toda a violência de uma guerra vulgar.

— Afonso, a sopa!

A minha mãe gritou mesmo na altura em que, na guerra, rebentava uma tremenda explosão: zás! Encheu-se tudo de fumo. A guerra e a sopa esconderam-se como os prédios e as ruas nos dias de nevoeiro.

De repente, para meu espanto, a sopa salpicou a toalha, espalharam-se as letras de massa. Eu abri os olhos, verdadeiramente admirado. Ali, no meu prato, todo sujo de vogais e de consoantes, com a farda cheia de caldo, estava um soldado farrusco, tão pequenino que facilmente se sentou na concha da minha colher de sopa. O soldado gritou-me:

— A guerra? Onde é que está a minha guerra?

Eu não soube lhe responder, até porque a televisão mostrava uma senhora simpática, que se esforçava para nos explicar como é que devíamos lavar a roupa.

— Onde é que meteram a minha guerra? Foste tu, matulão, que a escondeste? – tornou a gritar o soldadinho, agitando no ar uma espingarda minúscula.

— Como é que tu queres que eu saiba da tua guerra? Estou eu a comer a minha sopa, muito descansado, quando tu entras na minha casa sem pedir licença, fazes um enorme estardalhaço e ainda por cima dentro do meu prato… e tens o descaramento de perguntar «pela tua guerra?»

O soldadinho ficou furioso e pôs-se aos saltos, sujando ainda mais a toalha de sopa:

— Quero a minha guerra! Quero a minha guerra!

Eu, só para o contrariar, deitei-lhe por cima três letrinhas de massa: P, A, Z.

— Toma! Come este bocadinho de paz e que te faça muito bom proveito.

O soldado ficou ainda mais danado.

— Isso são modos de se tratar um desconhecido? Dando-lhe paz? O que eu quero é guerra, guerra! Guerra.

Bom. Era tão maçador, tão aborrecido este soldado, e com a sua gritaria fiquei também zangado. Se ele não se calasse, aliás, a minha mãe certamente apareceria e quem acabava por apanhar algum raspanete ou algum castigo de guerra era eu.

Com toda a certeza: ainda se, ao menos, ele gritasse “gelado” em vez de “guerra” …

— Guerra! Guerra! Quero a minha guerra!

Pois, se queria guerra, ia tê-la. Querem saber o que é que eu fiz? Estava tão farto dele que o meti na colher de sopa, fui-me ao televisor e despejei-o, com uma colher de caldo, pela boca abaixo de uma locutora sorridente, que então havia aparecido na TV. Ela tossiu, pediu desculpa, e continuou a falar das coisas que tinha para dizer.

Nessa altura, chegou a minha mãe.

— Pronto, Afonso. Deixa lá a sopa; estou a ver que estás a dormir com a cabeça dentro do prato…

Então, fui-me deitar, tendo o cuidado de reparar se o soldado não voltava, todavia estava tudo sossegado.

Até hoje, nunca disse à minha mãe nada a respeito do soldado que saltou para dentro da minha sopa. E vocês, a quem eu narro esta história, façam-me o favor de não lhe contarem nada também, combinado? É que ela podia não acreditar…