Para quando «um mandato de captura internacional para Putin»?

OPINIÃO

Afonso Almeida Brandão

A Ucrânia viveu cerca de 70 anos sob domínio soviético, conseguindo a sua independência em 1991, na sequência da queda da URSS. Desde então é um país independente, reconhecido pela Comunidade Internacional, inclusive pela própria Rússia. Putin ascendeu ao poder em 1990. Ou seja, a convivência entre o país e o governante vizinho leva mais de duas décadas. Nem sempre pacífica, é certo, mas nunca com a escalada sem precedentes de violência que se viu e continua a ver diariamente há cerca de um mês. O que se alterou, então? Segundo a narrativa russa — e com a ressonância do Partido Comunista Português — a aproximação à NATO e à União Europeia, fazendo perigar as suas fronteiras. A isto, somam a necessidade de protecção de minorias oprimidas pelo governo ucraniano e o desrespeito por tratados bilaterais, nomeadamente os Acordos de Minsk. A realidade histórica, porém, não é bem essa. Primeiro, haverá que distinguir entre NATO e UE, já que a aliança internacional terá um certo cariz militar e a União um cariz maioritariamente económico. Duas situações distintas, portanto.

Podendo, no plano teórico, aceitar o argumento da adesão à NATO como uma ameaça, o mesmo deixa de colher por dois motivos: quer por interferir directamente na Soberania Ucraniana enquanto Nação Independente; quer porque outras ex-repúblicas soviéticas a ela aderiram (no caso da Estónia e Letónia fazendo fronteira com a própria Rússia) sem que daí resultasse drama maior. A questão é, pois, de outro jaez. A economia russa precisa da Ucrânia, pelo que a aproximação desta à EU representaria um rombo de enormes proporções.

Assim, quando em 2013 o Presidente Viktor Yanukovych cedeu às pressões do Kremlin para não assinar um acordo comercial com a UE, contrariando a vontade popular, o povo saiu à rua.

A chamada “Euromaiden” durou cerca de três meses e culminou com a fuga de Yanukovych para a Rússia. Poucos dias tardaram até que o Conselho da Federação Russa adoptasse, por unanimidade, uma resolução autorizando Putin a usar a força militar contra a Ucrânia, ao que se seguiu a anexação da Crimeia e a guerra na província de Donbass, apoiando, descaradamente, as milícias separatistas pró-rússias de Donetsk e Lugansk, pela sua importância estratégica. Se a Crimeia nunca foi devolvida à Ucrânia, já o fim da guerra (alegadamente) civil foi negociada em Minsk. Dos acordos confrontaram-se a pretensão ucraniana de desarmar as milícias e recuperar o controlo fronteiriço e, do lado separatista, a imposição do Kremlin de que, para lá da autonomia e estatuto especial daquelas províncias, as mesmas pudessem usar o Direito de veto em decisões estratégicas nacionais, como fosse a adesão à EU ou à NATO. Obviamente que estes acordos não eram para cumprir, como não foram cumpridos durante oito anos que se seguiram. À excepção de movimentações de soldados e equipamentos russos em Donetsk, em 2016, prontamente travada pelos EUA, o “status quo” foi-se mantendo num clima de guerrilha, “limitando-se” a Rússia a armar as referidas milícias. A NATO foi reforçando as suas posições territoriais, numa lógica de proximidade ao governo ucraniano e de defesa dos aliados. Putin manteve-se sereno, já que do outro lado do telefone estava um líder com o qual não se atrevia a medir forças.

Com a queda de Trump e de Merkel, os obstáculos político-militares perderam força. Uma Rússia depauperada (senão mesmo falida!) por sanções europeias e norte-americanas por causa da Crimeia, com uma inflação galopante, uma taxa de desemprego a subir de forma consistente, a perda acentuada do poder de compra, a desvalorização gritante do Rublo face ao Euro ou ao Dólar (para não falar da Libra inglesa), um PIB em queda e um custo de vida incomportável para os russos, levantaram uma onda de contestação social sem igual. A reacção do líder foi culpar um inimigo externo e tentar unir as forças numa revolta comum, como perfeita manobra de diversão de quem pretende perpetuar o Poder.

A título de curiosidade, podemos adiantar que o salário na Rússia ronda os 152 Euros, cerca de 8 Mil Meticais a menos, comparado com um vencimento normal em Moçambique e o vencimento médio pouco supera os 480 Euros. Contudo, a renda de uma Flat no Centro de Maputo, na Av. 24 de Julho, na Av. Eduardo Mondlane ou ainda na Zona onde se situa o Bairro da COOP ou o Hotel Polana, oscila entre os 850 a 1.500 Euros  (à data de 1993), pagos em moeda USD, pelos Cooperantes estrangeiros a trabalhar e a residir em território Moçambicano. E não nos podemos esquecer de referir os preços da Água, da Luz, do Gás, dos Transportes Públicos, dos Electrodomésticos, todo o resto (incluindo aparelhos de televisão, roupas de marca que continuam a ser caras e com um custo idêntico ao da Europa Ocidental). É bom lembrar que o PIB, “per capita”, desceu em 2020, quase 18% e 15%, quer em Moçambique, quer na Rússia. Em traços gerais é isto! Duas Nações falidas, mas “amigas por conveniências”.

E Moçambique, como sabemos, depende muito dos russos e é por isso que o Governo ainda não teve a CORAGEM de condenar a invasão russa à Ucrânia, para não «perder as mordomias» e os «apoios tão desejados», embora o seu Presidente vá dizendo que «a FRELIMO, Moçambique e os seus Governantes são defensores da Paz»… Tretas, claro!!!…

Por outro lado, enquanto isso, a UE continua a avançar com um manancial de Sanções Económicas, sem descurar de avaliar o efeito “boomerang” que as mesmas podem ter a curto prazo e sem estar preparada para o impacto das mesmas. Fica a posição de princípio, em sede de resposta musculada, mas logo furada por regimes de excepção dos seus membros. A Itália excepciona bens de luxo, 40% do gás que importa vem da Rússia, a Bélgica os diamantes, a Alemanha o gás. Entretanto, formaliza-se o pedido de adesão da Ucrânia que pouco mais vale que “um gesto simbólico”. Primeiro, pela tramitação legal e prazos que tal implica (10 a 15 anos, no mínimo!) Segundo — e bem mais sério — pela imperativa necessidade de intervenção militar, caso a Ucrânia fosse membro dessa União — que não pretende e para a qual não está manifestamente preparada. Não há orçamentação conjunta da Defesa. Não há Exército Europeu. Não há cadeias de comando institucionalizadas. E, acima de tudo, não há Estratégia.

Portugal andou bem no apoio que prestou ao fornecer equipamento e outros meios logísticos, merecendo um registo de agradecimento do Presidente Zelensky. Não tardou o Miguel Tiago a demarcar-se desse apoio. Esse ser rastejante que confunde vidas humanas com posições de princípio, achando que o segundo se deve sobrepor. A uma Mobilização Social e Humanitária a que já estamos pouco habituados, o PCP de Jerónimo de Sousa responde com mitigação de culpas e mãos cheias de nada. Vergonhoso o voto contra os comunistas portugueses contra a atribuição de uma ajuda de emergência à Ucrânia por parte da Comissão Europeia. Lamentável a abstenção, na mesma votação, dos Bloquistas de Catarina Martins. Patética a explicação de João Pimenta Lopes, pretendendo defender o indefensável. Tristes, infantis e desonestas as justificações dos JOÕES comunistas: Ferreira e Oliveira. E baixo e inqualificável o “amuo” de António Filipe, capitulando perante a argumentação de Sérgio Sousa Pinto, esse comentador político de “meia tigela”, perigoso e fascista, ao “acolhimento” da SIC portuguesa e, por último, «o silêncio» inexplicável de algumas figuras moçambicanas da Actual Política, da Vida Social e ainda da Comunicação Social Moçambicana (Rádio, Televisão e Imprensa Escrita), com notória evidência para jornais como DOMINGO, NOTÍCIAS, DIÁRIO DE MOÇAMBIQUE, RÁDIO DE MOÇAMBIQUE E TVM, além de algumas figuras de relevo da nossa Cultura — como é o caso de alguns escritores do nosso meio (?) intelectual, designadamente, Mia Couto (que ainda não “piou!), do Ungulani, do frelimista “disfarçado”, Nelson Saúte, e de mais alguns que andam por aí distraídos… Todos eles, ao que sabemos, até ao momento em que escrevemos estas linhas, não assumiram uma posição de revolta e de repúdio por tudo aquilo que a Rússia tem vindo a fazer, a comando de um «atrasado mental», isto é, a dizimar um Povo e Cidades inteiras Ucranianas. Talvez por estarem todos, ao fim e ao cabo, a pactuar, ao que parece, com os «silêncios» do Regime da FRELIMO, do seu Presidente da República e dos membros do Governo, o que nos deixa sinceramente a pensar… Mais adiante, convém não esquecer — para concluir — que stalinistas e trotskistas são contra a NATO e contra a UE. Convém que a Imprensa Mundial (incluindo a Moçambicana, Portuguesa e ainda dos restantes país que constituem os PALOP), o repitam até à exaustão, para que, quando for votar, será um PUTIN qualquer que nos defenderá. Excepto se a invasão for russa…

Esta será a nossa Ucrânia, Caros Leitores!

E não posso deixar de manifestar, aqui e agora, a minha dor e indignação para perguntar como é que ainda não foi emanado Um Mandato de Captura Internacional contra este Doente Mental e Criminoso de Guerra, de nome PUTIN, não obstante estar a decorrer uma petição de assinaturas — que já ronda, aproximadamente, um Milhão — a pedir que este LOUCO seja levado, quanto antes, ao Tribunal de Guerra para ser julgado e condenado por crimes cometidos contra a Humanidade, sem apelo nem agravo.

Como é possível não terem falado, ainda, neste Mandato de Captura Internacional?! Esperam que morram mais pessoas e sejam destruídas mais cidades Ucranianas?! Francamente!