Assessor do reitor da UEM acusado de assédio sexual

DESTAQUE SOCIEDADE

Pagou um quarto de hotel e tentou forçar sua estudante a partilhar cama

Já passa perto de um ano e a reitoria da UEM tenta a todo custo abafar o caso

Financiadores estão a pressionar para o posicionamento da universidade

O pesquisador principal da mais antiga universidade do país, a Universidade Eduardo Mondlane (UEM), e antigo assessor do reitor para assuntos estratégicos, Patrício Langa, é acusado de assédio. Langa terá recorrido aos fundos de um projecto que estava sob a sua responsabilidade, a ‘Climate-U’, financiado pelo governo do Reino Unido, através da Global Research Fund (GRF), para inventar uma viagem para África do Sul, com uma estudante, a pretexto de trabalhar num projecto, mas chegado no país que nada tinha a ver com a Climate-U, forçou a companheira a partilhar o quarto. O caso foi denunciado pela vítima, o que levou a Universidade de Londres a solicitar à reitoria da UEM os procedimentos internos para resolução dos casos de assédio que envolvem docentes e alunas e a instar a mesma a investigar o assunto, mas até aqui não houve esclarecimentos.

É o primeiro caso envolvendo Pátricio Langa com seguimento dentro da UEM por haver uma pressão externa, mas há denuncias de casos que se perderam no Centro de Coordenação dos Assuntos do Género (CeCAGe), devido ao fraco acompanhamento e negligência institucional quando o assunto é assédio sexual.

No dia 23 de Julho do ano passado, Fiona Ryland, vice-presidente do Instituto de Educação da UCL, uma extensão da Universidade de Londres (University of London), escreveu ao vice reitor da UEM a respeito de “uma alegação de má conduta sexual envolvendo um académico e uma estudante de sua universidade”, que foi  levado a seu conhecimento.

No documento que a Universidade de Londres, com ligação aos financiadores do referido programa, classificava de confidencial, Ryland partilhava informações na posse do Instituto de Educação da UCL, a fim de que a UEM possa conduzir “sua própria investigação, de acordo com suas políticas relevantes”.

Não deixa de ser curioso o facto de a vítima ter se queixado aos financiadores e não à UEM, o que reforça a narrativa de que as queixas internas são arquivadas na instituição.

É que naquele momento o Instituto de Educação da UCL estava envolvido com a Universidade Eduardo Mondlane em um projeto, ‘Climate-U’, financiado pelo governo do Reino Unido, através do Global Challenges Research Fund (GRF), conduzido por Patrício Langa, um dos pesquisadores principais. Não estando claro se o projecto foi suspenso ou continua.

“Recebemos uma denúncia onde é relatado que o Prof. Langa agiu de forma inadequada com uma estudante enquadrada no programa como coordenadora da rede de alunos”, denunciou Fiona Ryland, num documento que o Jornal Evidências teve acesso.

Adiante, lê-se no documento que Langa “convidou a estudante para a África do Sul com base no facto de que ela devia fazer algum trabalho para Climate-U. Quando a estudante chegou, alegou que o Prof. Langa sugeriu que eles deveriam fazer sexo. Fomos informados que o Prof. Langa havia pago apenas por um quarto individual na África do Sul, com a expectativa de que haveria sexo, mas quando a aluna recusou qualquer intimidade, ele pagou para ela ter seu próprio quarto”, expôs.

Essa situação preocupa a UCL pelo facto de ser alguém que estava em uma posição tão poderosa que colocou, supostamente, uma jovem em uma situação tão vulnerável, em um país diferente, sob o pretexto de um projecto que não exigia uma visita a África do Sul, ou seja, a viagem foi inventada para fins predadores.

UEM diz estar na fase final das investigações

A vítima consentiu em compartilhar a alegação com a UEM. Mas desde que o processo foi partilhado com UEM as investigações têm sido lentas. Contactado pelo Evidências, o antigo reitor da UEM, Orlando Quilambo, assessorando do suposto infractor e a quem foi remetida a queixa, disse que as investigações estavam ainda a decorrer (passado perto de um ano) e que as informações solicitadas pela UCL foram dadas.

“Mandamos o que solicitaram e estamos no momento na fase de apuração, e se aguardarem, penso que nos próximos dias, teremos respostas”, disse Quilambo, assegurando que, por aquilo que ele tem conhecimento, é a primeira vez que seu antigo assessor, até 2020, é denunciado por assédio.

Uma posição não partilhada pelos colegas do pesquisador, que afirmam que há processos internos que não tiveram o devido tratamento no Centro de Coordenação dos Assuntos do Género. Em Março último, na sua edição 55, o Evidências trouxe uma reportagem com relatos aterradores de vítimas de Assédio sexual nas instituições de ensino superior, incluindo a própria UEM. Nalguns casos as vítimas viram-se forçadas a desistir dos seus sonhos e abandonarem a universidade.

“A preocupação em relação a este caso é que a denúncia vem de fora”, argumentou uma fonte interna da instituição, quando abordado sobre os procedimentos internos da instituição em relação a este caso. Mas não deixa de ser curioso o facto de a UEM levar cerca de um ano para esclarecer este caso. 

Não queremos nos intrometer nos vossos assuntos, mas…

Visivelmente agastada com a aparente falta de interesse da UEM em esclarecer o caso, a UCL deixa claro na sua exposição que não pretende se intrometer na investigação de outras universidades, mas mostra-se preocupada.

“Estamos mais preocupados com a gestão do projecto Climate-U, incluindo o tratamento dos funcionários e alunos envolvidos, bem como o uso adequado dos fundos. Ficaríamos gratos se pudesse nos fornecer cópias de suas políticas e procedimentos contra assédio e intimidação e nos manter informados sobre o status de sua investigação sobre alegações que trouxemos à sua atenção e seu resultado”, revela aquela universidade, recomendando a UCL a proteger quaisquer supostas vítimas e garantir que elas sejam apoiadas durante todo o processo de investigação.

Contactado pelo Evidências, Patrício Langa, o acusado, quando solicitado a tecer comentários, não mostrou qualquer disponibilidade, tendo solicitado o envio dos “documentos e reportagem” alegadamente para saber de que assunto se tratava.

O assédio sexual no Ensino Superior em Moçambique não tem tido o melhor tratamento, principalmente no ensino público. Os docentes chegam a reter estudantes, chumbando-os durante anos nas suas disciplinas, como represálias por não haver cedência aos seus apetites sexuais. Há registo de casos de desistência devido ao assédio e falta de amparo à vítima.

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