Manuel Rodrigues foi qualquerizado pelo PR

DESTAQUE POLÍTICA
  • Frelimo resgata o número 22 da lista para substituir o renunciante
  • Pediu audiência com PR, mas o encontro não levou mais de 10 minutos
  • Tentativas de convencer MR para rever a desistência não surtiram efeito
  • Antes de ser indicado para as eleições internas, era conotado com ambições presidenciais

 

Depois de alguma resistência em aceitar a realidade, a Frelimo conformou-se, semana passada, com a desistência de Manuel Rodrigues, actual governador da província de Nampula, que havia sido imposto pela direção do partido para concorrer como cabeça-de-lista na cidade de Nampula. Mesmo a intensa tentativa de o convencer para não ser o primeiro moçambicano a dizer NÃO à direção máxima do partido não surtiu eleitos e os elogios de praxe do diretor da campanha, Celso Correia também não o demoveram. Nesta segunda-feira, quando finalmente a ficha caiu, a Frelimo, em Nampula, foi ao fundo do seu baú para resgatar da lista Luís Madubula Giquira para fechar o buraco. O agora eleito por unanimidade e aclamação, para disputar a presidência daquele município com Paulo Vahanle, actual Edil é um ilustre desconhecido para grosso modo dos moçambicanos e até dentro das lides partidárias não conseguiu ser forte o suficiente para estar para além da posição 22 da lista dos candidatos a membros da Assembleia Municipal. Na terça-feira da semana passada, um dia depois do Evidências trazer a manchete que confirmava a desistência de MR, Manuel Rodrigues, que fez escala em Maputo para participar da FACIM antes de se ausentar do país supostamente para cuidar da sua saúde teria solicitado uma audiência com o Presidente da República e da Frelimo, Filipe Nyusi, mas a audiência que decorreu na Presidência da República, depois de uma longa espera, não levou mais de 10 minutos. Manuel Rodrigue, apurou o Evidências, se explicou, foi ouvido, mas nada foi dito, senão um “tudo bem”.

 

Já é um dado adquirido. Manuel Rodrigues não cedeu à pressão e até alguma dose de chantagem que vinha sofrendo nos últimos dias, e provou que, afinal, não basta “o partido te querer” para “você se querer” e “ser” (essa acrescentamos nós). Manteve a sua decisão até às últimas consequências, o que embaraçou as contas da Frelimo, em Nampula e não só.

 

Depois de finalmente digerir a seco o “NÃO” categórico de Manuel Rodrigues, a Frelimo foi em surdina reunir, esta segunda-feira, em Nampula, e elegeu Luís Abdula Giquira como novo cabeça-de-lista do partido Frelimo para as eleições autárquicas de 11 de Outubro.

 

Giquira, empresário local, foi resgatado do meio da lista dos membros da Assembleia Municipal onde ocupava o 22 assento. Manuel Rodrigues, que não se fez presente na sessão de escolha do seu substituto, encontra-se, segundo apurou o Evidências, fora do país a cuidar de assuntos ligados à sua saúde.

Tanto Manuel Rodrigues, como a Frelimo abordam o assunto com excesso de cautela e não avançam os motivos da desistência.

 

Foi o que se viu, por exemplo, na semana passada, quando de forma incaracterística e um discurso coerente o secretário geral, Roque Silva, contrariando a sua postura habitual, mostrou muita cautela ao se debruçar sobre o assunto. Perante jornalistas, afirmou categoricamente que não confirmava e nem negava a informação que dava conta da desistência, mas que pelos canais apropriados o partido iria se pronunciar.

 

Antes do anúncio, na semana passada, MR pediu uma audiência com o presidente da Frelimo e da República. Informações na posse do Evidências indicam que Manuel Rodrigues foi qualquerizado, o presidente lhe recebeu por apenas dez minutos, se explicou, mas nada foi dito, senão que estava tudo bem.

 

O chefe da brigada central de assistência a Nampula e director da campanha da Frelimo, Celso Correia, é citado pelo jornal Ikweli a afirmar que “costuma se dizer que os partos difíceis costumam dar filhos saudáveis e bonitos”. A afirmação sugere a grande decepção com que a Frelimo olha para Manuel Rodrigues, para quem Celso Correia rasgou leves elogios na cerimónia de apresentação dos candidatos a Nampula.

 

MR é o primeiro a dizer NÃO às vontades de Roque Silva

 

Mas não dava para disfarçar que estava ali por imposição. Uma imposição extensiva a muitos, fazendo jus a afirmação de que não vale a pena se querer, “nós é que temos que te querer”. Tal é o caso da Matola, onde Parruque foi imposto, e Beira, onde Stela Pinto, sem consulta prévia, também foi imposto e há relatos de que teve que avançar contra vontade.

 

A este respeito, Stela explicou ao Evidências que de facto não se manifestou, foi proposto e de seguida o que fez foi apurar se se tratava da vontade de um grupo ou do partido. “A partir do momento que foi indicado certifiquei de era uma decisão de todos”, aclarou, reagindo à informação de que avançou contra vontade, a ponto de tentar fazer lobes para ser colocado fora da corrida.

 

“Não houve imposição. O que aconteceu é que fui abordado por pessoas que não sabia de onde vinham, mas depois certifiquei-me e avancei. O partido confiou em mim, da mesma forma que me indicou para ser Secretário do Estado, e agora me indicou para ser candidato, como sabem ganhei a 100% nas internas”, disse Stela.

 

No dia 16 de Julho, Manuel Rodrigues concorreu sozinho e foi eleito com 100% de votos como cabeça-de-lista da Frelimo na autarquia de Nampula, mas até às vésperas da votação, o actual Governador da Província de Nampula não sabia que a Frelimo apostava nele como cabeça-de-lista. Esta vitória absolutista se verificou em quase todos os municípios urbanos, nomeadamente Matola, Maputo, Beira, Quelimane, coincidentemente onde os candidatos foram “impostos” pela comissão política. A Frelimo autorizou a democracia em municípios onde tem maior influência ou de menor expressão.

 

A estratégia da ala no poder consistiu em apostar nas figuras com capital político “consolidado” para convencer o eleitorado nas eleições autárquicas marcadas para 11 de Outubro de 2023, nestes municípios, onde a oposição se faz sentir, e o controlo nas urnas, no dia da votação, é maior.

 

Mas essa estratégia não está a triunfar em Nampula, onde Manuel Rodrigues manifestou a sua indisponibilidade, uma decisão que colocou a Frelimo numa situação de ter de procurar um outro candidato.

 

Antes de ser proposto candidato, Manuel Rodrigues cogitava a possibilidade de se posicionar para sucessão, ou seja, queria ser Presidente da República. Esta informação escapou, e por sua surpresa foi proposto, sem consulta prévia, para ser edil de Nampula. Mas ele recusou, tornando-se no primeiro membro a recusar a vontade dos chefes, que na sua maioria têm ambições presidenciais.

 

Rodrigues prefere continuar como Governador da Província de Nampula até ao término do seu mandato, em Janeiro de 2025. Aliás, Manuel Rodrigues é descrito como um governador que tem grande aceitação na província, sobretudo ao nível das lideranças comunitárias. Mas essa aprovação não lhe confere vantagem na corrida pela liderança da cidade capital. E ele está informado sobre o voto anti-Frelimo que domina na Cidade de Nampula.

 

A “desistência” de Manuel Rodrigues ainda está a ser gerida internamente pela direcção da Frelimo. Mas é possível que o actual Governador de Nampula seja pressionado a avançar contra a sua vontade.

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