Estêvão Chavisso
Em 1979, Jean-François Lyotard definiu a época em que vivemos como a era da incredibilidade em relação às meta-narrativas, o fim das “grandes ideias”. O francês justificava a sua ideia com o argumento de que a “pós-modernidade” é marcada por um pluralismo ideológico onde nenhuma ideia é assumida como absoluta ou universal.
Pelo contrário, acreditou o filósofo francês, a sociedade pós-moderna se autoproclamou legítima o suficiente para questionar o fundamento de qualquer ideia que se apresentasse como universal (ideologia).
O problema é que Lyotard não chegou a ter o privilégio de conhecer a geopolítica moçambicana e, se o tivesse, teria desistido da sua frutífera carreira académica, jogado as suas obras no lixo e, provavelmente, se tornado um monge, como ambicionou fazer quando mais jovem.
Lyotard limitou-se a uma análise histórica da condição da sociedade pós-moderna, mas houve quem, treze anos depois, com base no seu postulado, estendesse a reflexão para o campo político, anunciando um inusitado “Fim da História e o Último Homem”: Francis Fukuyama.
Reforçando o argumento do neoconservadorismo que caiu posteriormente nas graças de Bush, Fukuyama advogou que a democracia continuaria a expandir-se, criando espaço para a eliminação das contradições e, por conseguinte, dirigindo-se ao um suposto “fim da história” e ao nascimento de um tal Último Homem.
Embora tivesse sido contestado teórica e empiricamente, Fukuyama anunciava, na verdade, o fim de “propostas políticas alternativas”, tendo em conta que, desde a queda do muro de Berlim (1989), o mundo realmente viveu aquilo que Severino Ngoenha chamou de “unicidade ideológica”.
O ultraliberalismo “fredmaniano” vincou sobre outras formas de organizar a vida social. Nos Estados Unidos, Biden, como Obama, foi eleito através de ideais de esquerda, embora seja classificado como “centrista”. Na França, um “ex-banqueiro”, também centrista” (Macron), foi reeleito numa disputa em que a única ameaça era uma extrema-direita em ascensão.
Embora as críticas à estrutura económica socialista levantadas pela Escola Austríaca encontrem seu fundamento na prática, no final, morreu a única ideologia animada por um ingénuo sentido de justiça e igualdade para as massas. À escala global, parece-me que a esquerda “alinhou-se” e já não há mais marxistas em bibliotecas, tascas ou cafés.
Nós não estamos alheios a esta geopolítica. Hoje, em Moçambique, na prática, parece que todos os partidos políticos são de Direita ou, pelo menos, Centro-Direita, o que limita uma reflexão sobre a possibilidade de um outro “Devir”.
A consequência deste “alinhamento” é um empobrecimento estrutural em termos de alternativas e outras propostas políticas, agravado pela cultura de um discurso de revindicação histórica (“libertador” e o “democrata”).
De certo modo, em minha análise, este jargão de reivindicação histórica mostra que nós perdemos a visão totalizante da história de Moçambique e, presumo, não temos qualquer ideia de como se apropriar do futuro que se nos apresenta.
Não há partidos trabalhistas (de camponeses ou operários) em Moçambique, e embora quase todos se considerem “nacionalistas”, continuam evidentes limitações na definição das suas próprias identidades, como observou Michel Cahen (2020).
Os manifestos políticos estão cada vez mais pobres e a falta de ideias realmente diferentes empurrou as forças políticas ao que Severino Ngoenha chama de “definição da política pela negativa”, em alusão ao clássico jargão sobre o combate contra corrupção e outras anomalias sociais, pontos que normalmente aparecem nos programas políticos como se de uma grande ideia (convincente) se tratasse. A vantagem é que ninguém vota em projectos políticos em Moçambique.

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