- Sente-se usado e descartado
Chama-se Jorge Mwanamuzik, natural de Cabo Delgado, docente e artista plástico. Outorga-se o título de autor da bandeira da Frelimo, quando em 1991, o partido que governa o país desde a independência livrou-se do seu primeiro símbolo cujas feições coincidiam com as da bandeira nacional. Fora aos elogios e palmadinhas que ouviu e sentiu na ocasião, o autor da marca Frelimo, afinal, ainda não foi remunerado passados 33 anos. Conta que já chegou a solicitar explicação sobre as causas do não pagamento, desde o nível provincial até central, mas nunca teve resposta satisfatória. Magoado por não ter saboreado um centavo sequer da sua obra, Jorge vive recolhido ao seu cantinho da pobreza, onde ensopa-se diariamente na amargura da marginalização.
Adolfo Manuel, Pemba
Franzino e de estatura baixa, Mwanamusik, de seu nome artístico, conta que em 1991, na azáfama da entrada do multipartidarismo, o partido Frelimo decidiu lançar um concurso para o desenho do seu símbolo, de modo a desfazer-se das semelhanças entre o seu antigo símbolo e a bandeira nacional.
Ainda tenro, Mwanamusik, que para além de artista plástico é professor de desenho, foi acompanhado do seu tio ao Comité Provincial de Cabo Delgado, onde foi convencido a submeter a sua candidatura no concurso para desenhar o símbolo do partido.
Era o último dia das candidaturas, e como tal não se deu o tempo de ler o regulamento do concurso. Bastou conseguir submeter a sua candidatura com a proposta de um símbolo da cor do sangue, com contraste harmonioso do batuque e maçaroca.
Embora chegara no último dia, quando os camaradas já se preparavam para encerrar as portas, acabou vendo o seu trabalho escolhido entre as milhares de propostas a nível nacional. A revelação veio com um sabor agridoce. É que ninguém se dignou a comunicar aos concorrentes, com ele incluso, dos resultados do concurso.
A fonte ficou simplesmente espantada quando viu colado nas paredes, murais e troncos de árvores, entre outros espaços públicos, o símbolo que desenhou com o seu próprio punho, sem que tenha tido qualquer informação do partido, que a nível daquele ponto do país era dirigido por Raimundo Pachinuapa.
Em meio a emoção pelo facto do seu trabalho ter sido seleccionado e a amargura de não ter sido sequer comunicado dos resultados, o tempo foi passando, sem que nenhuma alma bondosa se dignasse a reconhecer o seu feito.
Já em 2020, teve um breve encontro com o então Presidente da República, Joaquim Chissano, tendo explicado a situação. Comovido, Chissano orientou ao executivo provincial para que resolvesse o problema de uma vez para sempre, mas de lá para cá nunca teve satisfação, nem por parte do comité provincial do partido, muito menos do comité central.
Tentativas de obter esclarecimento sobre a razão de se ignorar o comando de Chissano redundaram no insucesso, até que um dia ouviu da boca de um dos achegados do 1º secretário provincial da altura que devia desistir porque ninguém iria pronunciar-se sobre o assunto.
Desde então, a sua expectativa de um dia vir a ser pago pelo seu trabalho artístico, que hoje se tornou num dos símbolos mais conhecidos no país e cujos artigos com ele ornamentados chegam a ser arrematados por milhões de meticais em galas de angariação de fundos, tornou-se nula.
Derrotado, mas inconformado, Mwanamusik diz sentir-se “usado e descartado pelo partido no poder”, pelo que lamenta o silêncio da direcção sénior do partido, que sem dó nem piedade faz questão de ignorar as suas inúmeras cartas que endereça pedindo explicação sobre a razões pelas quais não é pago até hoje.
Embora seja quadro da educação, actualmente, Jorge não tem residência própria, vivendo neste momento de favores em casa de familiares, por isso grita por socorro na esperança de que um dia possa ser ouvido.
O Evidências se fez à sede do Comité Provincial da Frelimo para auferir as reais causas da falta de remuneração do “mentor” do símbolo do batuque e maçaroca, mas foi sem sucesso porque o secretário provincial orientou ao chefe da mobilização e propaganda para nos informar para aguardarmos por um milagre, pois tudo dependia do nível central.
“Amigo, aqui na província ninguém vai se pronunciar acerca do assunto. Imagina desde 1991 até hoje, ele já escreveu tantas cartas de pedido de audiência, mas ninguém responde”, disse Selemane Nacir. Entretanto, informações apuradas pelo Evidências indicam que pode ter havido desvio do dinheiro a si destinado.

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