Felisberto S. Botão
Vi um vídeo que mostrava jovens numa escola, tentando forçar uma porta de sala de aula algures no Maputo, e do outro lado estavam polícias resistindo, alegadamente protegendo urnas ilegais. Rapidamente se juntaram crianças da escola e começaram a gritar “awaive, awaive”, que fiquei sabendo que significa ladrões.
Vi outro vídeo, um jovem saudável, supostamente membro da CNJ, uma entidade do estado, para jovens, a ser espancado algures na Zambézia, por tentativa de suborno de membros da mesa de alguns partidos, alegadamente para que estes efectuassem o enchimento de urnas com boletins falsificados.
Vi mais um vídeo, mostrando o Manuel Araújo na Holanda, supostamente para pedir ajuda da comunidade internacional para desmantelar a fraude eleitoral no país.
Vi e ouvi muitas outras coisas, entre baleamentos em Sofala e em Maputo, roubo de urnas por comandante distrital da polícia, fuga de presidentes de mesa com editais, órgãos eleitorais a agirem como entidades privadas, assembleias de votação com número de boletins superior ao votantes recenseados, editais com resultados múltiplos para uma mesma assembleia, senhoras que pela primeira vez valorizaram algo mais do que os cabelos postiços, ao preferirem serem arrancadas cabelos e peças de roupa, para proteger boletins pré-votados, enfim, um cenário de guerra e desespero.
Este cenário pode lembrar tudo menos a DEMOCRACIA.
Já não nos importamos com as crianças, que invadimos o espaço delas de aprendizagem e travamos nossas batalhas degradantes e vergonhosas lá, a juventude não acredita mais no trabalho, a ponto de se expor ao ridículo e a humilhação para garantir um favor partidário, as nossas mulheres “dão tudo” para garantir o seu lugar na sombra, a dignidade já não tem valor para elas, e o pior de tudo, quando a luta entre nós aquece, corremos para o branco, lá nas terras frias, para ele ajudar a resolver.
É aí que o nosso querido Fred Jossias diria, “JÁ NÃO HÁ NADA“, como nação e como sociedade.
Definitivamente e infelizmente, este não é nosso processo. A democracia ocidental é um dos apegos que está a matar as nossas sociedades em África. E a narrativa associada ao seu fracasso é a ausência de boa liderança em África, e nós acreditamos. O facto é que o africano está condicionado para levar ao poder maus líderes, ou então estragar os bons que conseguem chegar ao poder.
É assustador como estamos cada dia mais parecidos com o colono, quanto mais o número de anos de independência aumenta. Fica a impressão que aos poucos vamos percebendo as razões do colono, e vamos validando as suas metodologias. Só que não temos a lucidez de perceber que o colono extorquia de nós para dar boa vida ao seu povo lá na terra deles, e nós, usamos a extorsão contra nós mesmos. Isso gera tanta confusão nas nossas cabeças que acabamos mandando dinheiro lá para a terra do colono, pensando que é em casa também.
Infelizmente não conseguimos dissociar da doutrinação, da propaganda, da programação mental, da humilhação onde quer que nos chamem, mesmo depois de terem humilhado os nossos antepassados. O que nos causa este apego? Como podemos desapegar desta praga do nosso povo, que nos mata a cada dia? O poder a todos custo, mas para quê?
Nós não estamos a construir uma nação, parece mais que estamos a destruir, voluntariamente. As eleições gerais moçambicanas do dia 09 de outubro de 2024, e subsequente processo de apuramento de resultados, parece confirmar esta citação, a tomar pelo comportamento de vários intervenientes.
Em todo país viu-se um povo acuado, a votar pela esperança da liberdade. Como se explica este sentimento colectivo de opressão, numa nação independente? Quando iniciou o apuramento parcial, as pessoas iam entrando em êxtase a medida que somavam os números, como se estivessem a libertar-se de uma força colonial. O desligamento do povo moçambicano com o poder do dia é total, a contar pelas reações. E o que mais me choca é a despreocupação dos agentes do poder do dia com relação a este sentimento, como se o seu poder não dependesse em nada deste povo.
Assim como a religião foi capturada, a democracia também o foi. Gente do mal está a aplicar um sistema que não sei qual é o nome, e dão o nome “democracia”, como forma de burlar as massas, por ser o que toda gente anceia como modelo social. Mas o que assistimos em todo mundo, que é o consenso da classe política, de democracia só tem a capa.
O povo deve estudar política para perceber os contornos, e encontrar formas de lutar. Os políticos se acomodam e se protegem globalmente.
As eleições são apenas para fazer “lavagem de poder“, para comprar legitimidade, mas a decisão de quem assume o poder, acontece nas lutas de grupos de pressão, e ganha quem melhor joga as pedras de manipulação de massas, atracção de capital para comprar lealdades, alianças com outros grupos internacionais, etc. Isso é que define quem vai assumir o poder, em Moçambique e em toda parte do mundo.
O povo tem que desaprender a narrativa democrática actual, assim como as narrativas religiosa e social, para se libertar e impor novas formas de organização social, ou seja, a real democracia, dentro de um estabelecimento social baseado nas tradições e na espiritualidade africana.
O mundo tem conspirado para que africano continue nesta realidade desviada, oferecendo vários objectos de distração, que o africano se apega tanto, tais como a religião armadilhada, o modelo de civilização ocidental, a academia vazia, a moda e o entretenimento, e não consegue largar, devido ao apego emocional da manipulação mental sofrida, e o faz acreditar que aqueles modelos são melhores que os seus.
O pior da alienação do africano é defender aqueles modelos como se fossem seus, com toda a ferocidade, sem saber que o faz fora da sua plena consciência, tanta é a manipulação mental.
O africano, para a sua prosperidade, só precisa largar os objectos de distração oferecidos pelo mundo, essencialmente o ocidental, e já está.
No livro Ser Espiritual (2022), eu cito o W. E. B. Du Bois, na sua obra Almas do povo negro (1903), que “o negro vivia dividido por uma dupla consciência: comunal (negra) e nacional (estadunidense)”, que mais tarde ele próprio passou a entender este fato como um reflexo local do verdadeiro dilema universal do negro, emparedado entre a busca de sua especificidade e a integração ao Ocidente.
Vamos rever esta democracia que está a matar-nos, pois o partidarismo não difere do tribalismo, que representa interesses de um grupo, que exclui os outros. O parlamentarismo é uma fraude, pois um grupo de pessoas se diz representantes de um povo com o qual não têm nenhuma ligação, e usurpam o poder e soberania deste. E as eleições só servem para agravar a divisão entre nós, impedindo a construção da nação, que só é possível com todos nós juntos e unidos.
O paradigma actual enquadra-nos numa matriz pré-estabelecida por terceiros, onde temos a liberdade de acção, mas desde que seja dentro dos limites da mesma, quais peixinhos num aquário.
“Aquele que luta pela verdade tem momentos de vacilação e dúvida, porque avança de descoberta em descoberta e vai esbarrando nas contradições e ambiguidades do real. Mas aquele que aposta na mentira não vacila nem duvida, porque nada busca e nem descobre: está fechado para sempre dentro da sua mentira, que é, ao mesmo tempo, sua fortaleza e seu túmulo” – Olavo de Carvalho.
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