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Arão Valoi
Na última semana, durante uma visita de trabalho a Cuamba, Província do Niassa, tive um reencontro inesperado com antigos colegas da Vale, no Distrito de Nacala-a-Velha. A maioria deles entrou para o Projecto Corredor Nacala em 2011 e continua até hoje a garantir a operação e segurança da linha férrea que liga Tete ao Terminal Portuário de Nacala-a-Velha, passando por Malawi, num troço de 912 km. Entre memórias e constatações, veio à tona uma verdade desconfortável: Nacala-a-Velha, outrora anunciada como novo eixo de desenvolvimento regional, hoje está de rastos. O que se vendia como sonho de modernização não passou de uma promessa adiada, senão abortada.
Durante os anos de pico do projecto, a economia local conheceu uma breve, porém intensa, euforia. Infra-estruturas surgiram como cogumelos: condomínios para expatriados, hotéis, restaurantes, oficinas, serviços de catering, transportes públicos revitalizados. A presença da Vale mexia com tudo — do comércio informal ao arrendamento de casas. A narrativa era clara: estávamos diante de uma nova era. Mas como todas as eras que nascem sob os desígnios do capital extractivo, esta foi breve, desequilibrada e, sobretudo, excludente.
Com a transição da Vale para a Vulcan Minerals, seguiu-se uma mudança silenciosa, mas profunda: Nacala-a-Velha perdeu o seu papel no centro da operação. A CLN, parceira na logística, optou por construir habitação para os seus trabalhadores doutro lado de Nacala-Porto, deixando Nacala-a-Velha com estruturas vazias e um amargo sentimento de abandono. O transporte de pessoal passou a ser feito por barco, atravessando a baía diariamente, ignorando a economia local. Os hotéis fecharam, os restaurantes ficaram às moscas, e os empregos evaporaram-se. Os beneficiários directos do “boom” foram embora ou mudaram-se; os indirectos ficaram com o prejuízo.
Mais do que um episódio isolado, Nacala-a-Velha representa um microcosmo do fracasso estrutural do modelo de desenvolvimento baseado na extracção de recursos naturais em Moçambique. Um modelo que privilegia a exportação acelerada de matérias-primas sem valor agregado e ignora a necessidade de transformar as economias locais. Um modelo em que grandes empresas impõem a sua lógica operacional, muitas vezes à margem dos interesses e aspirações das comunidades.
Este padrão já não é novo. O País tem assistido, ciclicamente, ao mesmo fenómeno: anúncios pomposos de megaprojectos, euforia inicial com efeitos multiplicadores temporários, e uma posterior retracção abrupta que deixa para trás um rasto de passivos sociais, económicos e ambientais. O que resta são cidades-fantasma, estruturas subutilizadas, comunidades desapontadas e jovens sem perspectivas. O caso de Moatize, na Província de Tete, é outro exemplo gritante. A exploração intensiva de carvão trouxe pouco ou nenhum benefício directo para as comunidades locais. O processo de reassentamento de milhares de famílias foi mal conduzido, deixando populações em zonas áridas, sem infra-estruturas adequadas, sem acesso digno à água ou emprego. O Estado, que deveria arbitrar os interesses colectivos, mostrou-se frágil, frequentemente capturado por interesses económicos ou condicionado por acordos assinados a portas fechadas.
E, no meio disso tudo, o símbolo da eficiência continua a brilhar — o comboio Dash 9 da CLN. Potente, diário, constante. Com as suas duas locomotivas e 120 vagões de carvão, percorre os 912 km de Tete à Nacala-a-Velha como um relógio suíço, transportando riqueza bruta para mercados externos. Riqueza que raramente deixa pegadas significativas onde foi extraída. Os lucros atravessam fronteiras; os impactos ficam. Os desequilíbrios intensificam-se. E a promessa de um desenvolvimento nacional, equitativo e duradouro, continua adiada.
É aqui que surge a grande questão: como é possível que um projecto de tal envergadura falhe em gerar impactos transformadores para a região que o acolhe? A resposta é complexa, mas passa por três eixos centrais.
Primeiro, a fraca integração local. Os megaprojectos são pensados de cima para baixo. Pouco se investe em cadeias de valor locais, em ligações com as Pequenas e Médias Empresas (PME’s), em formação técnica da juventude local, em mecanismos de reinvestimento directo nos distritos anfitriões. A economia torna-se refém da “cidade do capital”, onde tudo orbita em torno da lógica do lucro imediato.
Segundo, a debilidade da governação. Muitos dos contratos são celebrados com pouca transparência e escassa exigência de contrapartidas claras. A fiscalização das obrigações sociais e ambientais é débil. E, quando há incumprimentos, as sanções são raras. O Estado, em vez de regulador e árbitro do interesse público, assume frequentemente um papel submisso.
Terceiro, a ausência de uma política de desenvolvimento territorial robusta. O País continua a pensar em investimento como sinónimo de “grandes números” e “infra-estruturas visíveis”, e não como instrumento de reconfiguração económica e social. O investimento externo não deve ser combatido, mas precisa de ser estrategicamente condicionado, orientado e articulado com políticas públicas de longo prazo. O sonho de Daniel Chapo, quando Administrador de Nacala-a-Velha, era que, por exemplo, a CLN construísse os seus condomínios em Nacala-a-Velha e não do outro lado da baía. Entendia ele que isso impulsionaria a economia local daquele distrito que, hoje, é sombra de si mesmo.
Se não aprendermos com casos como o de Nacala-a-Velha, corremos o risco de repetir o mesmo erro com os megaprojectos de gás em Cabo Delgado, com a corrida ao lítio em Tete, com os areeiros do Limpopo. E nesse caso, não será exagero dizer que estaremos a caminhar não para o desenvolvimento, mas para uma nova forma de dependência — uma dependência moderna, embalada em linguagem de progresso, mas alicerçada em desigualdade estrutural.
É tempo de Moçambique renegociar o seu lugar nas cadeias de valor globais. Isso implica: exigir partilha justa de lucros, condicionar licenças à geração efectiva de emprego local, obrigar à criação de fundos distritais de desenvolvimento, promover a industrialização local e garantir que o ambiente não seja destruído impunemente.
Mais do que isso, é tempo de colocar as pessoas no centro da equação. Porque desenvolvimento que não melhora vidas, que não cria oportunidades duradouras, que não fortalece a coesão social, não é desenvolvimento — é extracção. E extracção sem transformação é condenação. Enquanto isso não acontece, o comboio continuará a passar, pontualmente. Mas a terra — essa terra de Nacala-a-Velha, de Moatize, de tantas outras localidades esquecidas — continuará a assistir, silenciosamente, ao embarque da sua riqueza. E a sonhar, em vão, com o tal desenvolvimento que nunca chega.



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