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Arão Valoi
Maputo anda de cara lavada — e de tapete novo. A julgar pelo ritmo das obras, é como se a cidade tivesse descoberto que pode, afinal, ser cuidada. Estradas reabilitadas, passeios pintados, jardins aparados e praças remodeladas dão à capital um ar de quem se prepara para receber visitas ilustres. Máquinas pesadas rugem, homens de colete fluorescente espalham alcatrão como se fosse ouro negro, e placas institucionais repetem o mantra: Razaque Manhique está a trabalhar.
Mas convém não perder de vista o enredo. Este súbito zelo urbanístico pode não ter nascido do nada; é bem provável que ele brote do terreno fértil da contestação política. A eleição que colocou Razaque Manhique na presidência do Conselho Municipal veio marcada por acusações sólidas de fraude e irregularidades. Para muitos, a sua chegada ao cargo foi menos um triunfo democrático e mais uma vitória administrativa nas actas de apuramento. E quando a legitimidade não vem pelas urnas, resta tentar conquistá-la pelas obras. É, de resto, o que Manhique tenta fazer e está a fazê-lo com mestria.
O cálculo é simples e velho como a política: se não se pode mudar o passado, muda-se o cenário. Com um mandato viciado de ilegitimidade, Manhique descobre a “obra visível” como tábua de salvação. Uma estrada asfaltada não interroga o boletim de voto; uma praça renovada não pede recontagem. E, como qualquer gestor de imagem sabe, nada é mais fotogénico do que um antes-e-depois urbano.
O curioso é que essa estratégia encontra terreno fértil num traço distintivo do eleitorado da capital e: uma postura pragmática que ultrapassa as fidelidades partidárias tradicionais. Para muitos munícipes, o que realmente importa não são as cores ou siglas políticas, mas sim a entrega de resultados palpáveis no quotidiano — ruas limpas, água disponível, iluminação funcional. Essa orientação prática faz com que a população, ainda que consciente das disputas políticas, prefira valorizar o desempenho concreto dos governantes em vez de se prender a alinhamentos ideológicos ou partidarismos que, na sua percepção, pouco impactam diretamente a qualidade de vida.. Aliás, já o dissemos anteriormente que ninguém é contra a Frelimo; o que realmente importa é que quem ocupa aquele cargo demonstre capacidade e trabalho. E, com o desempenho atual de Manhique, é natural que muitos munícipes de Maputo rapidamente esqueçam as circunstâncias da sua ascensão ao poder, focando-se apenas nas acções que ele está a desenvolver agora.
Há, no entanto, um risco — e ele é estrutural. A política do asfalto privilegia obras que brilham à luz do dia e rendem boas fotografias, deixando para trás as reformas silenciosas e menos mediáticas: saneamento básico, drenagem de águas pluviais, gestão de resíduos nos bairros periféricos, vias alternativas — principalmente as que permitem a saída do centro da cidade para conectar os diferentes bairros da capital. Assim, enquanto as avenidas do centro ganham tapetes impecáveis, zonas mais pobres podem estar a afundar-se — literalmente — em lama e lixo. É o urbanismo da vitrine: bonito à frente, caos nos bastidores.
E, como se não bastasse, a própria vitrine sofreu um abalo recente. O conflito entre catadores de lixo e a Polícia, na lixeira de Hulene, terminou com a destruição de um camião de recolha de resíduos e de uma escavadora. O episódio, para além de expor fragilidades na segurança das operações municipais, ocorreu precisamente quando a edilidade procura projetar a imagem de eficiência e ordem. Foi uma mancha num pano que se queria imaculado.
O mais irónico é que este surto de violência não é fruto de um acaso imprevisível, mas sim a colheita amarga de um processo de conivência prolongada. Durante anos, o município e a PRM toleraram — e, em certos casos, até acarinharam — comportamentos ilegais dos mesmos catadores: assaltos a viaturas em movimento, montagem de portagens improvisadas, intimidação de condutores, extorsão disfarçada de “serviço” e outras práticas que, longe de serem reprimidas, foram-se enraizando naquele ecossistema. Aquilo ali virou uma república, com normas próprias. Ao domesticarem um problema que exigia intervenção firme, as autoridades ajudaram a criar um poder informal com musculatura suficiente para desafiar o próprio município e a polícia.
Hoje, esse poder informal não só sobrevive como afronta a edilidade, criando um paradoxo: quando Maputo quer exibir-se como cidade organizada e funcional, enfrenta focos de anarquia que ela própria ajudou a cultivar. O caso de Hulene torna-se, assim, uma metáfora desconfortável: por mais que se asfaltem avenidas, se maquilhem praças e se pintem passeios, a cidade continuará vulnerável enquanto não se enfrentar, de forma estrutural, a desordem que se alimenta na sua periferia social e institucional. Se a pacificação de grupos marginais for tratada com condescendência, qualquer poder paralelo saberá que a força, quando aplicada em bloco, rende mais que o diálogo.
Maputo, hoje, oferece um caso de estudo em comunicação política via infra-estrutura. É governada como se fosse uma campanha permanente, em que cada faixa pintada é um cartaz, cada buraco tapado, um comício silencioso. Mas a lição de Hulene serve de alerta: o asfalto tapa buracos no chão, não crateras na legitimidade. Sem enfrentar a raiz dos problemas — desde a insegurança urbana até à cultura política de improviso —, o risco é que, ao fim de cinco anos, o que reste seja apenas uma cidade com ruas bonitas, mas vulnerável ao mesmo caos que agora late nas suas franjas.
E aqui está a ironia maior: talvez Manhique tenha razão na sua aposta. Afinal, numa cidade habituada a promessas não cumpridas, o roncar das máquinas pode ser mais convincente do que qualquer discurso. O problema é que, um dia, a obra acaba, o asfalto gasta-se — e aí, sem urnas limpas, sem instituições sólidas e com grupos marginais cada vez mais empoderados, o governante descobrirá que não há máquina que asfalte legitimidade.



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