O verdadeiro legado do poder: Hoje suas mãos, amanhã outras mãos

OPINIÃO
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Nilza Dacal

Em tempos de disputas políticas intensas, onde a conquista e a manutenção do poder parecem ser o objectivo supremo, muitos líderes perdem de vista uma verdade fundamental: o poder é, por sua própria natureza, transitório. Hoje, ele repousa nas mãos de um governante, mas amanhã pode pertencer àqueles que hoje são seus adversários. As dinâmicas de poder são inconstantes, moldadas por forças políticas, económicas e sociais que se transformam com o tempo. Contudo, quando as tempestades das batalhas políticas se dissipam, o que permanece não é o eco das vitórias efémeras, mas a solidez das instituições que foram construídas.

O verdadeiro legado de um líder não se mede pela quantidade de inimigos que conseguiu derrotar ou pela intensidade com que silenciou opositores. Governar com base na vingança ou na eliminação política do adversário não é demonstração de força, mas um sinal evidente de insegurança. Líderes que apostam na destruição dos outros podem alcançar triunfos momentâneos, mas esses sucessos são frágeis e frequentemente deixam um rastro de instabilidade. O vazio deixado por tais práticas compromete a própria estrutura do Estado, criando um terreno fértil para crises futuras.

Por contraste, líderes visionários compreendem que o poder genuíno reside na construção de instituições sólidas, independentes e imparciais. Essas instituições, tais como tribunais justos, órgãos de fiscalização robustos, forças de segurança profissionalizadas e sistemas eleitorais transparentes, são os alicerces de um Estado de Direito. Elas garantem a protecção dos direitos fundamentais, equilibram os poderes, salvaguardam as minorias e evitam que o país se transforme num campo de batalha político permanente. Ironicamente, essas mesmas estruturas podem, um dia, proteger até aqueles que as criaram, pois, no xadrez político, ninguém permanece no topo para sempre.

Em muitos outros países, sobretudo do continente africano, persiste uma perigosa confusão entre os interesses pessoais no poder e os interesses do Estado. Essa indistinção abre espaço para práticas como o clientelismo, a corrupção e o abuso de poder, que corroem a confiança pública e fragilizam as bases da boa governação. A história recente, tanto em África quanto em outras regiões do mundo, oferece lições claras: estruturas institucionais frágeis não resistem a choques prolongados. Uma crise política, por menor que seja, pode rapidamente evoluir para um colapso social quando as instituições não possuem a robustez necessária para mediar conflitos e garantir estabilidade.

Lições como as do Zimbábue, Venezuela, Somália, Brasil, entre outros, revelam uma verdade dura: quando as instituições são capturadas ou fragilizadas, o Estado inteiro entra em risco. O que começa como disputa política ou crise económica rapidamente degenera em instabilidade social e até em colapso total. Seja através de tribunais cooptados, órgãos de fiscalização impotentes, forças de segurança transformadas em instrumentos de repressão ou sistemas eleitorais desacreditados, o resultado é sempre o mesmo: a perda de confiança pública, polarização extrema e violência. A ausência de instituições sólidas transforma desacordos normais em rupturas graves, abrindo espaço para golpes, guerras civis, êxodos massivos e até fome.

A grande lição é clara: a força de um Estado não reside no carisma dos seus líderes, mas na solidez das suas instituições. Governos passam, partidos alternam, mas apenas tribunais independentes, órgãos de controlo robustos, forças de segurança profissionalizadas e sistemas eleitorais legítimos podem garantir uma estabilidade duradoura. É essa arquitectura institucional que impede que crises políticas se tornem em tragédias sociais. Líderes que compreendem esta verdade deixam legados que sobrevivem às suas próprias carreiras, os que a ignoram condenam os seus países a ciclos de instabilidade e sofrimento.

A fragilidade institucional não é apenas uma questão de má administração, ela reflecte uma visão míope do poder, que prioriza ganhos de curto prazo em detrimento da sustentabilidade de longo prazo. Quando o interesse pessoal se sobrepõe ao bem comum, o resultado é um Estado vulnerável, incapaz de responder eficazmente às demandas de sua população ou de resistir às pressões internas e externas.

Um líder verdadeiramente visionário vai além da gestão do presente ou da consolidação do poder pessoal, dedicando-se a construir uma arquitectura institucional que sustente a democracia e o progresso, independentemente de quem esteja no comando. O seu compromisso é forjar alicerces duradouros que promovam justiça, estabilidade e confiança pública, deixando um legado que transcenda o seu mandato. Isso inclui tribunais independentes, que garantem a imparcialidade da justiça; órgãos de fiscalização robustos, que asseguram transparência e combatem a corrupção; forças de segurança profissionalizadas, que protegem a população sem servir como instrumentos de repressão; e sistemas eleitorais fortes que legitimam a vontade popular. Essas instituições formam a base de um Estado resiliente e criam um ambiente de previsibilidade onde cidadãos e governantes confiam nas regras do jogo democrático.

Esses elementos formam a espinha dorsal de um Estado funcional, capaz de resistir às intempéries do tempo e até às alternâncias de poder. Eles criam um ambiente de estabilidade e previsibilidade, onde cidadãos e governantes sabem que existem regras claras e instituições confiáveis para protegê-los.

O poder é, por definição, passageiro. A glória política é volátil, sujeita aos caprichos do momento. Mas um Estado de Direito forte é a única herança política capaz de resistir ao teste do tempo. Ele protege tanto os governados quanto os governantes, oferecendo um arcabouço que transcende interesses individuais ou de grupos. Um líder que compreende isso não se limita a lutar por vitórias eleitorais ou a neutralizar adversários; ele trabalha para construir alicerces que sustentem a democracia mesmo quando ele próprio já não estiver presente.

O futuro de uma nação não se constrói com a destruição do outro, mas com a criação de instituições que promovam a justiça, a equidade e a estabilidade. Em qualquer democracia em construção, o desafio é claro: deixar de lado a tentação do poder efémero e investir naquilo que realmente perdura. Porque, no final das contas, o verdadeiro legado de um líder não é medido pelo que ele conquistou para si, mas pelo que ele edificou para todos — hoje nas suas mãos, amanhã nas mãos de outros.

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