Centro Cultural Português recusou espaço e não respondeu à carta de esclarecimento do autor

CULTURA DESTAQUE
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  • Camões acusado de travar lançamento de livro
  • Camões alegou que a agenda de lançamentos é feita com um ano de antecedência
  • Evidências apurou que há lançamentos que foram agendados faltando dias e fortam aceites
  • Dualidade de critérios levanta suspeitas sobre a transparência do Instituto Camões

O lançamento do livro País Bordado, de Rui Lamarques, ficou marcado por uma controvérsia com o Centro Cultural Português – Instituto Camões, em Maputo. A instituição recusou, à última hora, ceder o espaço, justificando a decisão com a alegada indisponibilidade da agenda. O autor, porém, contestou a explicação e até hoje não obteve resposta ao pedido de esclarecimento.

 Evidências

O jornalista moçambicano Rui Lamarques estreia-se esta sexta-feira, 22 de Agosto, na literatura com a obra “País Bordado”. O lançamento do livro, que deveria ter lugar no Centro Cultural Português – Instituto Camões, em Maputo, foi subitamente travado pela instituição, que se recusou, à última hora, a ceder o espaço previamente acordado.

No dia 6 de Agosto, o director do Camões em Maputo, José Amaral Lopes, enviou uma carta formal ao autor. No documento, escreveu: “Cumpre-nos informar que o Plano de Atividades de 2025 já se encontra definido, porque foi aprovado no ano imediatamente anterior ao da sua execução (os projetos que estamos a executar no corrente ano, já estão programados desde novembro do ano passado).” E acrescentou: “O Centro Cultural Português em Maputo não tem, nas datas propostas, disponibilidade para realizar o evento, pelo que não será viável responder favoravelmente ao V. pedido.”

A resposta do autor

Poucas horas depois, Rui Lamarques contestou a decisão num e-mail enviado à direcção do Camões. Embora reconhecesse o direito da instituição em definir a sua programação, apontou contradições:

  1. Após a submissão do pedido, foi contactado pelo próprio centro cultural para discutir alternativas de datas (22 de Agosto ou Setembro), o que indicava haver disponibilidade.
  2. Sabe de obras lançadas recentemente no mesmo espaço sem o requisito de planeamento anual.

No mesmo e-mail, escreveu: “Por isso, coloco a questão de forma directa: trata-se de um problema decorrente do facto de o País Bordado ser uma obra independente, sem a chancela de uma editora tradicional?” E pediu esclarecimentos concretos sobre: (i) como é feita a gestão de reservas e a atribuição de datas; (ii) qual foi, especificamente, o impedimento para acolher o lançamento na data proposta.

O silêncio do Camões

 Até hoje, a direcção do Camões não respondeu ao pedido de esclarecimento. O silêncio alimenta suspeitas de dualidade de critérios e levanta dúvidas sobre a transparência da gestão cultural da instituição.

Para o meio literário, o episódio expõe fragilidades na relação entre estruturas oficiais e autores independentes. Um editor ouvido pelo Evidências resumiu: “Se há agenda, deve ser clara e aplicada a todos. O que não pode existir é regra para uns e excepção para outros.”

Reacções do meio cultural à recusa do Camões

A decisão do Instituto Camões em Maputo de recusar acolher o lançamento de País Bordado não passou despercebida entre escritores, editores e jornalistas culturais. Em conversas com o Evidências, as leituras convergiram: a explicação oficial da “agenda fechada” não convence.

“Nem precisa fundamentar. Essa recusa tem motivação política”, resume um jornalista cultural, lembrando que o Camões, ao longo dos anos, abriu as portas para actividades muito diversas, incluindo projectos de última hora.

“O instituto tem ampla abertura para qualquer actividade. Eles babam até para terem iniciativas, pois não conseguem fechar com a própria programação. O argumento administrativo soa a desculpa”, sublinha.

No meio artístico, há também quem veja a recusa como sintoma de uma dificuldade maior: a relação entre estruturas institucionais e produção independente.

“Quando um livro sai do circuito tradicional, sem chancela de editoras reconhecidas, há sempre resistência. Mas esta recusa foi além: foi uma mensagem clara de que certas vozes e certos textos não cabem no espaço institucional”, aponta um crítico.

A ausência de resposta à carta de esclarecimento enviada pelo autor reforça essa percepção. “Se houvesse apenas um conflito de agenda, bastava dizer: temos estas datas, não conseguimos encaixar. Mas a recusa total e o silêncio posterior revelam constrangimento. É um gesto que fala por si.”

Para alguns observadores, o episódio inscreve-se num padrão de tensões recorrentes. “Há instituições culturais habituadas a funcionar como guardiãs da visibilidade. Receber um lançamento é, para elas, um acto de chancela, de legitimação. Quando surge um projecto independente, que escapa ao controlo habitual, a tendência é fechar portas”.

O impacto simbólico ultrapassa a circunstância do livro como nota um escritor moçambicano: “Não se trata apenas de um autor rejeitado. Trata-se de um sinal perigoso para a liberdade criativa. Se o Camões, que existe para promover cultura e língua, começa a seleccionar por conveniência política, deixa de ser espaço de encontro e passa a ser filtro de exclusão.”

Assim, a polémica em torno de País Bordado transformou-se em debate mais amplo: até que ponto as instituições culturais portuguesas, em Moçambique, estão preparadas para lidar com vozes críticas e independentes? E, sobretudo, até que ponto a gestão cultural pode ser usada para silenciar, em vez de ampliar, a diversidade literária?

O dilema da publicação independente

Se, por um lado, a recusa do Camões foi lida como censura, por outro há quem levante dúvidas sobre o lugar das obras independentes no circuito cultural.

“É preciso reconhecer que a publicação independente nem sempre garante qualidade. Falta revisão de pares, não há avaliação editorial rigorosa, e isso abre espaço para fragilidades de linguagem, estrutura e até de rigor factual”, defende um crítico literário.

Para alguns agentes culturais, a função das instituições não é apenas disponibilizar espaço, mas também zelar por padrões mínimos de qualidade. “As editoras tradicionais cumprem um papel de filtro: revisam, cortam excessos, asseguram coerência. No caso de autores que optam por caminhos alternativos, essa garantia desaparece. É legítimo que um centro cultural questione se quer ou não associar-se a uma obra que não passou por esse crivo”.

A crítica, contudo, não deixa de ser polémica. Defensores da publicação independente lembram que muitos dos clássicos começaram fora das grandes casas editoriais, e que, em contextos onde o mercado é reduzido, negar espaço a essas iniciativas equivale a condenar vozes novas ao silêncio.

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