Chapo manda “auditar” Instituto de Bolsas a pedido de estudantes bolsistas na Argélia

DESTAQUE POLÍTICA
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  • Há problemas no IBE: Estudantes bolsistas aproveitam visita de PR para desabafar
  • IBE e embaixada muitas vezes sentam em cima dos processos e prejudicam estudantes
  • Uma simples autorização para estudantes continuarem a estudar com fundos próprios chega a demorar um ano
  • Há quem chegou a perder um semestre ou ano por causa da demora injustificada e subsídios têm olhos

O encontro entre o Presidente da República, Daniel Chapo, e a comunidade moçambicana residente na Argélia, maioritariamente composta por estudantes bolsistas, transformou-se numa sessão de desabafo colectivo. Os estudantes aproveitaram a ocasião para expor problemas relacionados com a vida académica, os desafios de integração em território argelino e, sobretudo, a deficiente comunicação entre a embaixada moçambicana, o Instituto de Bolsas de Estudo (IBE) e as universidades argelinas, o que tem resultado em perdas de semestres e até de anos lectivos devido a atrasos burocráticos. Em muitos casos, basta uma simples carta de autorização para prosseguir os estudos de mestrado, mesmo com fundos próprios, mas os estudantes relatam que o documento pode demorar mais de um ano ou simplesmente nunca chegar, comprometendo carreiras inteiras. Outro ponto levantado foi o tratamento desigual no pagamento de subsídios. Embora, em 2023, o então Presidente Filipe Nyusi tenha concedido uma moratória permitindo que estudantes reprovados continuassem a beneficiar de bolsas, alguns foram contemplados e outros não, sem explicação plausível. Houve até denúncias de perseguição selectiva e de cortes arbitrários de direitos, levantando suspeitas de má gestão ou desvio de fundos. Face a esse cenário, os estudantes exigiram uma auditoria independente às contas e processos do IBE, para esclarecer “porque uns recebem e outros não, e se o dinheiro efectivamente não saiu ou foi desviado”. Após ouvir atentamente as preocupações dos estudantes, grande parte das quais já com barba branca, o Presidente da República, Daniel Chapo, garantiu que o Governo vai trabalhar para resolver os principais desafios enfrentados pela comunidade académica no exterior, sobretudo no que diz respeito à comunicação entre universidades e instituições nacionais, bem como à inserção profissional no regresso a Moçambique. Respondendo ao pedido dos estudantes, Chapo ordenou que fosse feito um levantamento da situação das  uma auditorias às contas do IBE.

Reginaldo Tchambule, em Argel

Reina um ambiente de cortar a faca entre os estudantes bolsistas na Argélia, a embaixada de Moçambique naquele país e a direcção do Instituto de Bolsas de Estudos (IBE), a quem os primeiros acusam de falta de assistência adequada, burocratização das comunicações, troca de cursos e alegado desvio de fundos.

Durante a sua visita oficial a Argélia, o Presidente da República, Daniel Chapo, reuniu-se com a comunidade moçambicana residente naquele país, na sua maioria estudantes bolsistas que levantaram diversas preocupações, sobretudo em relação ao corte de subsídios, há cerca de dois anos, as dificuldades que têm para poderem aderir ao sistema LND mesmo quando é para pagarem com fundos próprios e das suas família, dada a incapacidade do Estado de arcar com os custos devido a dificuldades financeiras que o País atravessa..

O encontro começou com o discurso de Valdemiro Jorge, presidente da comunidade estudantil, que destacou as dificuldades que marcam a vida dos bolseiros moçambicanos na Argélia.

Entre os pontos levantados, citou o problema do excesso de bagagem, a dificuldade em mudar de curso, a transição entre sistemas académicos e a falta de emissão atempada de documentos essenciais para progressão no mestrado.

Uma das maiores preocupações, segundo Jorge, é a suspensão de subsídios para estudantes em situação de reprovação, o que agrava as dificuldades de sobrevivência.

“Na Argélia é quase impossível conseguir trabalho paralelo. Sem subsídio, é um pesadelo que nos tira o sono e o foco nos estudos. Pedimos que este apoio seja reconsiderado, mesmo que ajustado à realidade económica do país”, apelou.

Na verdade, o encontro começou com um tom protocolar, com dois discursos ensaiados e escritos, mas diante das preocupações apresentadas pelos estudantes, o Presidente da República, ao seu estilo característico, acabou abrindo espaço para que os bolsistas apresentassem as suas preocupações.

Já sem o ar protocolar e perante insistência do Presidente  da República para que falassem de modo a compreeender caso a caso, os bolsistas se abriram e rapidamente o encontro ganhou um tom de conversa aberta.

Estudantes perderam semestres e anos devido a excesso de burocracia e descaso

Com sinais claros de desgaste com a actuação do IBE e da embaixada na tramitação dos seus processos, denunciaram atrasos burocráticos que lhes custaram semestres inteiros, ou até anos académicos.

Os estudantes expuseram as suas preocupações sobre atrasos nas bolsas, troca de cursos sem justificação aparente; excesso de burrocracia e demora na emissão de pareceres, comunicação e autorizações por parte das instituições moçambicanas quando solicitadas pelos estudantes, para cumprirem exigências das universidades argelinas; bem como receios em relação à inserção profissional no regresso a casa.

É que para os estudantes moçambicanos continuarem a fazer fazer o mestrado depois de três anos de licenciatura, naquilo que se chama sistema LMD, as universidades argelinas exigem autorização do IBE, que muitas vezes prefere assobiar para o lado, mesmo nos casos em que os bolsistas e as suas famílias estão dispostos a arcar com os custos.

Um dos estudantes explicou que muitas vezes o problema não está nas universidades ou no Ministério da Educação argelino, mas sim na morosidade da comunicação oficial.

“A universidade não tem problema, o ministério não tem problema. A condição é que a embaixada envie a lista dos estudantes que querem trocar de sistema; mas, às vezes, o IBE demora mandar as autorizações”, relatou, lembrando que chegou a perder um semestre inteiro devido a este impasse.

Trata-se de casos em que uma simples carta de autorização para prosseguir estudos de mestrado com fundos próprios chega a levar mais de um ano a ser emitida, deixando carreiras suspensas no tempo.

“Fui perseguida e excluída de subsídio sem explicação”

A engenheira química Naira Boa, que terminou o mestrado em tempo recorde, denunciou o corte abrupto da sua bolsa em 2023, quando apenas ela e uma colega ficaram de fora, sem critérios claros.

“Apresentei uma carta de reclamação. A resposta foi que eu não tinha direito à bolsa, sem nenhuma explicação. Foi muito frustrante”, contou Naira, acrescentou ainda que só conseguiu concluir os estudos graças a uma bolsa concedida directamente pelo governo argelino.

Já Alfredo Raul Macuaco, da mesma promoção de Naira Boa, reforçou as críticas, lembrando que muitos colegas acabaram por desistir devido às barreiras criadas.

“Quando chegamos à Argélia, havia estudantes que podiam escolher a cidade, o curso e até avançar para o mestrado. Com o tempo, esses direitos foram cortados. Tivemos irregularidades no pagamento dos subsídios e, muitas vezes, éramos obrigados a esperar meses ou até anos para resolver situações simples”, desabafou.

Macuaco lembrou ainda que chegou a ser colocado num curso sem a devida base académica, sem direito à mudança.

“Expliquei à embaixada que precisava de mudar de curso, mas a resposta foi dura: se quer continuar, continue; se não, volte para casa. Mesmo assim, ninguém desistiu. Todos continuamos, apesar das dificuldades”

Levantamento de dados para saber se realmente recebemos tudo o que tínhamos direito

Outros se queixaram de tratamento desigual no pagamento de subsídios. Apesar de uma moratória aprovada em 2023 pelo então Presidente Filipe Nyusi, permitindo que estudantes reprovados continuassem a beneficiar de apoio, muitos afirmaram que a aplicação da medida foi selectiva e mal comunicada.

Entre as várias intervenções feitas durante o encontro, destacou-se o testemunho emocionante de uma finalista de Medicina. A jovem, já em processo de tratamento de documentos para regressar ao País com o seu diploma, relatou as dificuldades enfrentadas após ter perdido o direito à bolsa de estudos devido a reprovações, situação que, segundo explicou, não se deveu à falta de empenho, mas a circunstâncias adversas.

“A primeira reprovação foi em 2019, durante a pandemia da Covid-19. Não estávamos bem mentalmente, estávamos confinados, e o aproveitamento não foi o mesmo dos outros anos”, explicou.

A estudante contou ainda que a segunda reprovação coincidiu com o período em que os pagamentos das bolsas sofreram atrasos.

“Na Argélia, nós não podemos trabalhar, só estudar. Quando fiquei sem bolsa, não tive apoio da minha família, que também não tinha condições de me custear. Isso acabou por afectar os meus estudos”, disse.

Segundo a jovem, apesar de ter seguido os canais institucionais, incluindo cartas enviadas à embaixada e ao Instituto de Bolsas de Estudo, nunca obteve uma resposta oficial.

“Passei pela embaixada, mandei cartas, até pedi a um amigo em Maputo para entregar pessoalmente a minha carta ao Instituto de Bolsas, mas nunca tive resposta. Outros colegas, em cursos de cinco anos, com duas reprovações, tiveram bolsa. Eu, em Medicina, não tive. Senti discriminação”, desabafou, comovendo o Presidente da República.

Com voz embargada, a estudante admitiu que a situação a levou a um estado de depressão: “Eu não sabia o que era depressão, mas percebi que tive. Foi muito traumatizante. Consegui terminar o curso, mas acumulei dívidas. Por isso peço que a minha situação seja reconsiderada e que outros colegas não passem pelo mesmo.”

Daniel Chapo tranquiliza estudantes e promete auditoria às contas do IBE

Os estudantes pediram ao Presidente Chapo maior dinamismo na resolução dos problemas e uma revisão dos casos em que bolsas foram cortadas de forma irregular.

“Gostaríamos que fosse feito um levantamento de dados para saber se realmente recebemos tudo a que tínhamos direito. Esses valores podem ainda ajudar a concretizar projectos e aliviar a vida dos estudantes que continuam na Argélia”, concluiu Alfredo Macuaco.

Chapo escutava atentamente, por vezes interrompendo para pedir mais detalhes. Quando tomou a palavra, reconheceu as falhas apontadas, garantiu soluções e acolheu a proposta dos estudantes e anunciou que será feita uma auditoria às contas e processos do Instituto de Bolsas. A medida visa esclarecer irregularidades e corrigir falhas de gestão que, segundo os estudantes, transformaram a vida académica num autêntico martírio.

“Temos colegas que perderam um semestre, outros um ano, por causa da demora na comunicação. Vamos trabalhar para flexibilizar este processo e garantir que ninguém seja prejudicado”, assegurou o Chefe de Estado, acrescentando que o Ministério da Educação e a embaixada vão reforçar os mecanismos de contacto com as universidades argelinas.

Outro tema abordado foi o futuro profissional dos estudantes quando regressarem a Moçambique. Chapo admitiu que a inserção no mercado de trabalho continua a ser um desafio, mas deixou claro que o país precisa urgentemente de jovens formados em áreas estratégicas, como engenharia, energia e exploração de recursos naturais.

“Regressar ao país é um direito adquirido. Oportunidades de trabalho serão sempre um desafio, mas não queremos que ninguém fique de fora. Vamos ter de continuar a trabalhar para que cada estudante tenha um espaço”, declarou.

Durante o encontro, o Chefe de Estado destacou a necessidade de apostar em áreas estratégicas, como engenharia e exploração de recursos naturais, ligando-as às descobertas recentes no sector do gás.

“Há cursos que o país já está a precisar, infelizmente ainda temos poucas pessoas nessas áreas. Jovens moçambicanos já estão a trabalhar fora, em projectos de gás. Outros terão de se preparar, porque o País precisa desse conhecimento”, sublinhou.

O Presidente apelou ainda ao espírito de sacrifício e resiliência dos estudantes no estrangeiro, tendo assegurado que uma das razões da sua visita era discutir alguns aspectos que têm a ver com a vida dos bolsistas, incluindo algumas questões levantadas.

“Estudar fora exige muito esforço. Não é fácil viver num país que não é o nosso, mas é uma experiência que vos fortalece. O importante é manter o foco e dar o vosso melhor”, disse.

Aos cinco estudantes que se encontram em situação académica pendente pelo facto de chegados à Argélia terem descoberto que os cursos para os quais concorreram e foram aprovados em Moçambique foram trocados, Chapo prometeu uma atenção particular, assegurando que o Governo vai levantar dados e procurar soluções caso a caso.

O encontro terminou num tom de confiança, com o Presidente a reforçar a importância da comunidade estudantil no estrangeiro como parte do processo de desenvolvimento nacional e como ponte de ligação entre Moçambique e o mundo.

Salvador Moamba: Um exemplo de que a educação é uma chave que abre portas

Não foi só de problemas que foi marcado o encontro entre o Presidente da República e a comunidade moçambicana. Salvador Moamba, outrora estudante bolseiro e hoje a trabalhar numa das mais importantes empresas de hidrocarbonetos daquele país, falou um pouco do seu percurso na academia.

Visivelmente emocionado, Moamba descreveu ao Chefe do Estado o seu percurso académico como uma “jornada de coragem e determinação”.

“Longe de casa encontrei não apenas novos conhecimentos, mas também uma nova cultura, novas formas de pensar e um ambiente académico que exigiu resiliência, disciplina e capacidade de adaptação”, afirmou.

Actualmente a trabalhar numa multinacional de referência no sector de hidrocarbonetos, destacou que o seu percurso é também fruto de um investimento colectivo.

“O que partilho não é apenas pessoal, mas representa o investimento do nosso belo Moçambique na educação e a confiança da minha família”, sublinhou.

Para os estudantes presentes, deixou uma mensagem de incentivo: “Com dedicação e coragem é possível alcançar metas que parecem distantes e transformar sonhos em realidade”.

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