André Ventura & Venâncio Mondlane: Os Irmãos Siameses do Populismo

OPINIÃO
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John Kanumbo

A política contemporânea tem o hábito de nos surpreender e, muitas vezes, de nos envergonhar. Em Portugal, André Ventura tornou-se o símbolo de um populismo que se quer absoluto, teatral e omnipresente. Ele não se contenta com um cargo, uma função ou uma responsabilidade: quer ser tudo, e que todos saibam disso. Presidente da República, Primeiro-Ministro, Ministro dos Ministérios, Comandante das Corporações de bombeiros, CEO das empresas do PSI20, Presidente da Liga de Clubes, da Federação de Futebol e até Director da AIMA. Se houvesse espaço para mais, Ventura estaria lá ocupando o Festival da Canção, presidindo o Benfica, ou comandando os torresmos nacionais. O homem dos sete ofícios? Não, o homem dos setenta.

Do outro lado do Atlântico, em Moçambique, surge um fenómeno equivalente: Venâncio Mondlane. Mas Mondlane vai mais longe na teatralidade, porque o contexto o obriga. Em um país com uma democracia frágil e um Partido-Estado hegemónico, Mondlane não se limita: quer tudo, como Ventura, mas também quer ser a voz de todos, o chefe de todos, o dono das ruas, dos jovens, das igrejas, das manifestações, dos partidos e, essencialmente, dos deputados. Qualquer palavra dele não admite dúvida, qualquer acção que se oponha à sua narrativa é imediatamente desqualificada ou criminalizada. É um populismo absoluto, messiânico, centralizador. É a personificação da política como espetáculo e domínio total.

José Pimentel Teixeira e Elísio Macamo ajudam-nos a entender este fenómeno. Ambos, com olhares distintos, mas convergentes, apontam que o populismo não é, essencialmente, uma questão ideológica. Não se trata de Esquerda ou Direita, Comunismo ou Liberalismo. Trata-se de método: substituição do argumento pela emoção, da política pela moral, da razão pela teatralidade. Ventura e Mondlane são espelhos um do outro irmãos siameses, unidos pelo talento para seduzir, pelo culto da personalidade, pelo messianismo, pela concentração absoluta do poder.

Macamo sublinha a pessoalização como elemento central do populismo. O líder populista não governa: ele encarna o povo, manipula emoções e transforma qualquer contestação em ataque moral. Ventura, em Portugal, aplica isso em democracia vulnerável, num país onde instituições ainda funcionam mas são permeáveis ao espectáculo e à retórica. Mondlane, em Moçambique, sobrevive em democracia frágil, onde o Partido-Estado que cooptou quase todos os canais da oposição, eliminou conselheiros, e reduziu a participação política a um teatro cuidadosamente encenado. O que Ventura faz com barulho e media, Mondlane faz com sobrevivência-persistência, e tiros-ameaça — ambos, no entanto, concentram em si a totalidade do protagonismo político.

A intolerância é a consequência directa. No Portugal do Chega, a divergência é rapidamente criminalizada ou desqualificada. Qualquer crítica é interpretada como traição, qualquer debate racional é substituído por insultos ou rotulações. Em Moçambique, nasceu a mesma lógica se aplica: questionar Mondlane é ser moralmente suspeito; discordar é perigoso. Ambos convergem na lógica do populismo extremo: o controlo absoluto da narrativa, o domínio da moral sobre a política, a centralização das atenções. A ponte entre Lisboa e Maputo é clara: o populismo absoluto engendra intolerância e polarização, em qualquer latitude.

José Pimentel Teixeira lembra-nos ainda de que o populismo serve à legitimação de privilégios e à concentração de poder. Ventura e Mondlane, cada um no seu contexto, manipulam o imaginário popular, transformando-se em salvadores, em líderes providenciais que, pelo poder da emoção, criam uma ilusão de indispensabilidade. Não é por acaso que ambos se apresentam como “todos os cargos, todas as funções, todas as responsabilidades”. O efeito é pedagógico e destrutivo ao mesmo tempo: a população aprende a respeitar a narrativa e a temer a contestação.

A lição crítica aqui é essencial: o populismo não se combate apenas com argumentos, mas com análise e consciência. E é aqui onde precisamos de reconhecer quando o poder é teatral, quando o líder se torna messiânico, quando a democracia é reduzida a espectáculo e quando a emoção se sobrepõe à razão. Ventura e Mondlane são exemplos perfeitos: um no contexto europeu, outro no africano; um nascido colono, outro pós-(in)dependência; um protegido pelo ruído mediático, outro pela fragilidade institucional. Mas ambos utilizam os mesmos artifícios: teatralidade, centralização das atenções, culto da personalidade e manipulação emocional.

E é aqui que a ponte entre Macamo e José Pimentel Teixeira se torna decisiva: eles não nos dizem o que pensar, mas como pensar. E faço a questão de como identificar o populismo siamês, como perceber quando líderes querem ser tudo, controlar tudo e inviabilizar o debate racional, e como não ser engolido pelo espectáculo político. Entre Lisboa e Maputo, entre Ventura e Mondlane, a lição é universal: a política transformada em palco, a liderança transformada em espectáculo, a emoção transformada em instrumento de poder, não ensina, não debate, apenas domina e seduz.

Por fim, é impossível não destacar o perigo da intolerância institucionalizada que acompanha esse populismo extremo. Seja no Chega, seja no Moçambique do novo ANAMOLA, o efeito é o mesmo: cidadãos tornam-se plateia; qualquer crítica, ameaça; a democracia, mera fachada; e o líder, absoluto e incontestável. Ventura e Mondlane são irmãos siameses da mesma lógica política: diferentes contextos, mesmas estratégias, mesmas consequências. É hora de aprender talvez com Macamo ou José ou seja lá qualquer a desmontar o mito, a analisar o método, a reconhecer o espectáculo e não mais cair na armadilha da emoção manipulada.

No fim, a política é universal e o populismo também. Ventura e Mondlane são o alerta: onde quer que haja emoção no lugar da razão, espectáculo no lugar de debate, concentração no lugar de distribuição das falas, existe o risco de que tudo se torne teatro e ninguém mais ensine ou aprenda nada. E no final serem presidente e passarem a usar Estado pior ainda. E essa é a lição que Portugal e Moçambique precisam de ouvir.

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