Governo encontrado em contrapé: Greve de professores força o cancelamento de exames nalgumas escolas

DESTAQUE SOCIEDADE
Share this
  • Professores prometeram e cumpriram
  • Executivo não quer assumir bancarrota e continua a prometer horas-extras que nunca chegam

O arranque dos exames finais da 10ª e 12ª classes um pouco por todo o País foi ofuscado, esta segunda-feira, por uma greve de professores que decidiram boicotar o processo de avaliações em protesto contra o não pagamento de horas-extras acumuladas desde 2022, apesar de sucessivos anúncios do Governo a garantir que os valores estão a ser processados, sobretudo nas vésperas do início do ano e no período de exames, simplesmente para enganá-los.

Evidências

Professores de várias escolas secundárias do País, com particular destaque para a Cidade e Província de Maputo boicotaram a realização do exame esta segunda-feira e prometem paralisar as actividades pelos restantes dias, em protesto contra a falta de pagamento das horas extraordinárias.

A greve chegou a provocar o cancelamento do exame de Língua Portuguesa nalgumas escolas, pois o Governo, habituado a promessas de greve não cumpridas por parte dos professores, fez-se de rogado e não preparou planos alternativos.

Na Escola Secundária 12 de Outubro, na Cidade de Maputo, por exemplo, os professores até estiveram no recinto escolar, de batina e com a sua identificação, mas trocaram a sala de aulas pelos corredores.

Naquela altura, os alunos da 10ª classe esperavam pacientemente a abertura dos envelopes dos enunciados para que pudessem fazer os exames, mas os professores nunca mais entravam na sala. Deu a hora oito e o desespero tomou conta da direcção da escola e das autoridades. Não havia condições para a realização da prova.

“Nunca fizemos greve aqui, sempre fomos exemplares no trabalho. Mas percebemos que estávamos a ser injustiçados. Por isso não vigiámos o exame”, disse um docente ao Evidências.

Segundo  os queixosos, o Estado continua a anunciar o pagamento de horas-extras sem apresentar evidências documentais, folhas de processamento ou ordens de transferência, numa postura que tem alimentado suspeitas de promessas usadas para conter o debate sobre a real capacidade financeira do País.

Para garantir que o exame de Biologia não fosse igualmente afectado, a Direcção da Educação da Cidade, em articulação com o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano, teve que ir ao Centro de Formação de Professores de Munhuana mobilizar formandos  para assegurarem o controlo do exame, mesmo não estando preparados. Enquanto isso, os professores continuavam no pátio.

À TV Sucesso, o director da educação na Cidade de Maputo, Hélio Mutander, classificou a greve como “irresponsável” e disse que “nenhum professor era insubstituível”.

Até ao momento, o Governo não se pronunciou oficialmente sobre o impacto da paralisação nos exames nem sobre a acusação de falta de transparência nos processamentos. Enquanto isso, docentes garantem que só regressam quando houver, não palavras, mas comprovantes de pagamento.

Greve de professores marca início de exames da 10ª classe na Escola de Boquisso, Matola

Já na Escola Secundária de Boquisso, a direcção da escola até conseguiu ter um plano alternativo de forma a garantir que o exame ocorresse, apesar do boicote dos professores. Fala-se de casos em que foram líderes comunitários chamados a controlar exames, enquanto os professores tocavam apitos e vuvuzelas, exigindo os  seus direitos no pátio.

“Estamos aqui porque desde 2022 nós não recebemos horas-extras”, denunciou um dos professores, sob o som de apitos e cânticos ecoando no pátio da escola.

O protesto surge como um ponto crítico numa sequência de insatisfações que se arrastam silenciosamente desde 2022/2023, anos em que, afirmam que não receberam sequer um centavo”.

Em 2024, a esperança de resolução pareceu próxima, mas não se confirmou: “No início de 2024, recebemos uma parte do valor, sem nenhuma explicação. Depois nunca mais tivemos resposta”, lamentaram.

A disparidade nos valores pagos aumentou a frustração. Segundo os grevistas, honorários acumulados poderiam alcançar cerca de 100 mil meticais por docente, dependendo da carga adicional de trabalho. Contudo, no início deste ano, já em 2025, alguns receberam apenas mil meticais, e outros ainda menos.

“Recebemos mil meticais depois de anos à espera. Alguns, com valores altos, poderiam receber 100 mil meticais. Não houve justificativa”, sublinhou outro docente.

A exclusão do processo de avaliações levou a direcção da escola a mobilizar substitutos para garantir a continuidade dos exames, mas os grevistas mantiveram-se firmes, percorrendo corredores e salas de aula.

“O nosso trabalho não está sendo remunerado. Estamos sendo desprezados, mas estamos aqui para reivindicar os nossos direitos”, afirmaram, entrando de sala em sala sob gritos de protesto.

O movimento também alterou rotinas escolares. Os professores anunciaram que, durante esta semana, cumprirão apenas o horário-base da função pública, mas sem entrar nas salas para controlar os exames.

“Vamos entrar de manhã, no período normal, das 7h30 até mais ou menos 15:30. Depois vamos para casa”, declararam.

Promo������o
Share this

Facebook Comments