Corrupção e medo estragulam o jornalismo investigativo em África, denuncia Fernando Lima

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A intolerância social, a fragilidade económica, a polarização política e a corrupção continuam a minar o desenvolvimento de um jornalismo investigativo robusto e independente em África. O alerta foi feito pelo jornalista Fernando Lima durante a Conferência Africana de Jornalismo Investigativo, recentemente realizada na Universidade de Wits, na vizinha África do Sul.

Suzana Chauzo*

Em entrevista concedida ao jornal sobre o estágio actual do jornalismo investigativo em Moçambique, num momento em que cresce o número de jornalistas assassinados, Fernando Lima avançou que a sociedade moçambicana não compreende totalmente a importância do jornalismo e das suas plataformas, ao contrário de países como a África do Sul, que possuem instituições fortes e uma compreensão global sobre a sua relevância. Trabalhos investigativos profundos, comuns na África do Sul, seriam fatais em Moçambique devido à falta de instituições semelhantes e de uma cultura de protecção à imprensa.

Segundo Lima, os jornalistas continuam sob ameaça em Moçambique, 25 anos depois da morte de Carlos Cardoso, por causa da falta de valorização social e institucional. A sociedade moçambicana é caracterizada como intolerante e em processo de maior polarização política, o que cria um ambiente hostil onde jornalistas que investigam temas sensíveis, como a corrupção, são vistos como alvos a serem eliminados.

Para Lima o que difere de países como a África do Sul, onde o jornalismo investigativo prospera devido à existência de instituições fortes e a uma compreensão generalizada da importância do jornalismo, enquanto em Moçambique há falta desses pilares de apoio e protecção. A intolerância e a corrupção sufocam os trabalhos de investigação jornalística, agravados por condições económicas precárias que levam à autocensura e a “trabalhos de encomenda”.

Acrescenta ainda que, apesar de haver esperança no empenho de novos jornalistas, o jornalismo investigativo de qualidade ainda é inexistente. Mesmo com o influxo de novos profissionais tentando fazer um bom trabalho, a maioria carece de formação adequada, o que conduz à ausência de práticas de jornalismo investigativo de qualidade e à influência de forças corruptas. É possível verificar uma clara distinção entre o jornalismo investigativo genuíno e os “trabalhos de encomenda”, usados para destruir reputações ou servir agendas políticas.

Na sua análise, o decano do jornalismo moçambicano acrescenta que existe necessidade de melhoria através de formação de qualidade, para que os jornalistas saibam discernir entre o bom e o mau jornalismo. O fortalecimento económico do sector, com salários dignos e melhores condições de trabalho, é essencial para que os jornalistas resistam às tentações da corrupção, permitindo que o legado de Carlos Cardoso permaneça como um farol de exigência e resiliência a ser seguido.

Respondendo à questão sobre o papel do Estado e das entidades nacionais e internacionais na liberdade de imprensa, o jornalista disse: “Existe uma contradição, pois o Estado, enquanto instituição legal, protege a liberdade de imprensa. No entanto, na prática, muitos servidores do Estado são hostis a essas liberdades, criando um ambiente de limitações e ameaças.”

Por sua vez, a comunidade internacional, incluindo organizações como Repórteres Sem Fronteiras, tem impacto limitado, pois as classificações de Moçambique nestes índices têm piorado consistentemente, indicando que as críticas internacionais são largamente ignoradas pelo governo.

Sobre o papel do MISA, Fernando Lima disse: “Avalio de forma positiva, mas com ressalvas, pois esta é considerada a voz mais autorizada na defesa da liberdade de imprensa no País. No entanto, a abertura indiscriminada de jornalistas permitiu a infiltração de membros com reputação duvidosa em algumas províncias, o que fragiliza a sua acção. A organização ainda pode fazer mais, se os jornalistas se apropriarem dela de forma mais efectiva.”

Questionado sobre o impacto do legado de Carlos Cardoso para as novas gerações, Lima respondeu: “O legado é valente para as novas gerações, pois pode assustá-las pelo alto padrão de exigência que estabeleceu, mas também inspirar, mostrando que é possível superá-lo, especialmente explorando novas áreas e narrativas que ele, como ser humano com suas limitações, não pôde cobrir.”

Respondendo à questão sobre qual seria a reacção de Carlos Cardoso caso voltasse hoje e entrasse numa redacção, declarou: “Se Carlos Cardoso visse o estado actual do jornalismo moçambicano, a sua reacção inicial seria de choque e desânimo com a degradação das redacções e das condições de trabalho. No entanto, dada a sua personalidade resiliente e transformadora, acredita-se que ele encontraria motivos para lutar e tentar reverter o quadro, inspirando outros a não desistirem.”

De referir que Fernando Lima foi orador principal durante a aula de sapiência sobre a vida de Carlos Cardoso, na Conferência Africana de Jornalismo Investigativo, realizada na WITS University, na África do Sul, cujo tema foi “Vinte anos depois da morte de Carlos Cardoso e a luta inacabada pela liberdade de imprensa em Moçambique”.

*Colaboração

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