Membros e falsos membros de partidos políticos

OPINIÃO
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Alexandre Chiure

Quando Venâncio Mondlane anunciou a abertura do processo de candidaturas a membros, o seu partido divulgou números surpreendentes. Algo inédito na política moçambicana. Disse, em jeito de balanço e para provar a popularidade de Anamola, que, em sete dias, foram inscritos 15 mil membros e, em dez dias, 64 mil.

É verdade que o VM7 granjeia muitas simpatias do público. É um político carismático, com uma boa retórica e que arrasta consigo multidões. Foi a cara das manifestações pós-eleitorais, cujos participantes exigiam justiça eleitoral. A criação do Anamola veio a espevitar o interesse pela política no país por parte dos cidadãos.

Estava claro que entre os inscritos, uns eram fiéis seguidores de VM7. Fizeram-no por convicção política e pela crença de que o Anamola é uma alternativa para a governação do País; e o seu presidente, o salvador, o Messias cá do sítio, enviado por Deus para salvar os moçambicanos da injustiça, das desigualdades sociais, da pobreza e de outros males que apoquentam a sua vida.

Mas, também, está mais do que evidente que os outros, não poucos, se filiaram como falsos membros e com uma missão específica. Esses fulanos têm habilidades de, em tão pouco tempo, conquistar a confiança dos comandos internos do partido e ascender a lugares estratégicos que lhes permitem ter acesso a toda a informação sobre a vida do partido, numa autêntica espionagem política.

Esses indivíduos, depois de cumprida a missão, apresentam ao partido e à imprensa cartas de renúncia, evocando motivos diversos. No caso concreto das recentes “renúncias”, as causas são a arrogância, falta de diálogo, excesso de orgulho por parte da liderança, etc. O objectivo é claro: Tentar criar um ambiente de desordem, desestabilizar o partido e descredibilizá-lo perante o público. Essa táctica é bem conhecida entre os moçambicanos.

Na reunião nacional que o Anamola realizou, há dias, na Cidade da Beira, apareceram uns fulanos que se diziam abandonados pelo partido, depois de promessas de que estaria garantido alojamento e alimentação. Na verdade, num dos cantos do convite que circulou de mão em mão, entre os seguidores de Venâncio Mondlane, vinha escrito que as despesas eram por conta de cada convidado.

Nas eleições passadas, acompanhamos casos de membros que saíram da CAD, que suportava VM7; e da Renamo para Frelimo. Da Renamo para o Podemos. Deste, que veio a suportar Venâncio Mondlane, para o partido no poder. Ainda iremos acompanhar tantas outras notícias de género, principalmente em 2028, nas autárquicas, e 2029, nas legislativas e presidenciais para baralhar as coisas e confundir as pessoas. Estamos, apenas, no começo.

Entendo. Desta vez a campanha das deserções iniciou cedo. É uma estratégia. Começar, quanto antes, a desgastar a imagem do adversário. Vender a ideia de que o Anamola é um partido sem credibilidade e que, por conseguinte, não deve merecer o apoio e o carinho do público. Formação política que, ao que tudo indica, será o principal adversário da Frelimo nos próximos pleitos eleitorais, por isso se revela um alvo a abater.

A Renamo, um partido histórico, está moribunda e sem sinais de revitalização. De algum tempo a esta parte, desistiu de sonhar em governar o País. Por essa razão, não representa nenhuma ameaça à Frelimo, a qual se encontra no poder há 50 anos. O Podemos perdeu a sua base de apoio assim que o VM7 saiu do partido, para além de ser visto como satélite do partido no poder.

O MDM é aquilo que é: um partido sem unhas e garras. A Nova Democracia, de Salomão Muchanga, tem, ainda, muito caminho por percorrer. Os restantes partidos políticos é para esquecer.

O que mais me preocupa é o envolvimento de alguma imprensa nestes jogos políticos sobejamente conhecidos. Antes de escrever este artigo, li, em três publicações, textos jornalísticos que falam de uma suposta crise no seio de Anamola que se traduz na saída de “vários membros fundadores”. Percorri os textos até ao fim e não encontrei os nomes desses tais fundadores que abandonaram o partido de VM7.

O último artigo que pude ler só aponta o nome do tal de João Bau, natural do Distrito de Quissanga, em que solicita, em carta, a renúncia ao coordenador político provincial de Anamola em Cabo Delgado. Mesmo em relação a este fulano, há algo estranho. A sua carta leva o carimbo do Anamola. Não pode. Não se trata de uma comunicação institucional, mas pessoal.

Quando é uma carta que um membro escreve para o seu partido ou instituição, basta apenas a assinatura do requerente para a sua autenticidade e nunca o carimbo. A outra coisa estranha ainda é o facto de que as cartas de renúncia que têm estado a circular nas redes sociais serem iguais, com a diferença, somente, dos nomes. Até dá a entender que os autores copiaram um ao outro ou obedeceram a uma minuta. O crime não é perfeito.

No caso da notícia sobre João Bau, o texto fala de um suposto “movimento contínuo e sucessivo” de saída de membros de Anamola. Nessa velocidade, significa que, por estas alturas, não ficou ninguém no partido de VM7, naquela província. Todos se foram embora, o que não corresponde à verdade.

Estamos perante a prática de um  mau jornalismo, com o consumo notícias cheias de imprecisões, o que consubstancia violação do que está plasmado nos manuais de jornalismo. Esses recomendam que o jornalista escreva com rigor, isenção e imparcialidade. Os dados devem ser consistentes e as histórias, credíveis. Dizer “vários membros” em todo o texto sem apontar nomes, não está a dizer nada.

A notícia perde relevância quando fala de “membros-fundadores” que abandonaram o Anamola e não indica os seus respectivos nomes. Quem é que vai acreditar numa notícia dessas? Que jornalismo é esse que estão a praticar? Desde quando a saída de um membro significa, taxativamente, a crise política de um partido? Sejamos razoáveis.

A filiação a uma formação política é um acto voluntário. Se, por alguma razão, a pessoa não se sentir bem, está livre de sair. Eu, por duas ou três vezes, saí de uma publicação para a outra e isso não significou crise. Mulweli Rebelo, filho de Jorge Rebelo, abandonou, há dias, a Frelimo. Formalizou a sua desvinculação através de uma carta que viralizou nas redes sociais. Isso significa crise? Claro que não. Por alguma razão, zangou-se ou acha que o partido se desviou daquilo que são os princípios, valores e objectivos que nortearam a sua fundação.

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