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- IPF vai produzir 30 mil toneladas de GLP/ano e reduzir importações em 50%
- Daniel Chapo diz que é um marco decisivo do fim de décadas de exportação em bruto
- Fábrica de Temane deve poupar até 25 milhões de dólares anuais em importações
- Mais de 1.685 empregos criados na construção e 120 permanentes na operação da fábrica
- Sasol diz que investiu mais 4 bilhões de dólares em 20 anos em Moçambique
Moçambique marcou, semana finda, um momento histórico na sua trajetória para se tornar um hub energético regional, com a inauguração da primeira Fábrica Integrada de Processamento de Hidrocarbonetos (IPF) em Temane, província de Inhambane. O empreendimento, que produzirá gás de cozinha (GLP) e petróleo leve (usado na produção de gás natural, a partir do gás natural explorado na região, no âmbito do Acordo de Partilha de Produção assinado em 2000, representa o início da transformação interna de recursos antes exportados em bruto, reforçando a soberania energética do País, gerando emprego e reduzindo a dependência de importações pela metade, o que permitirá ao Estado poupar até 25 milhões de dólares por ano. O momento foi descrito como um “marco histórico da soberania energética nacional” pelo Presidente da República, Daniel Chapo, que discursava na presença do presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, altas individualidades do Estado e representantes do sector industrial.
Reginaldo Tchambule, em Inhambane
No ano 2000, o Governo moçambicano assinou com a petroquímica sul-africana, Sasol, dois acordos, sendo o primeio denominado Acordo de Produção de Petróleo (PPA), ao abrigo da Lei 3/81 de 3 de Outubro e à luz do qual a Sasol, em parceria com o Estado moçambicano, produz e exporta gás natural desde 2004.
Já o segundo, denominado Acordo de Partilha de Produção (PSA), também rubricado no mesmo ano, ficou por quase 20 anos praticamente hibernado, até ao arranque, em 2021, das obras de construção da primiera Unidade Integrada de Processamento de Hidrocarbonetos (IPF), infra-estrutura recém-inaugurada e que marca o arranque da fase de processamento local de gás natural e derivados de petróleo, para suprir as necessidades da indústria nacional e consumo das famílias moçambicanas.
Este contrato inclui a Central Térmica de Temane (CTT) de 450 MW em contrução, cuja inauguração está prevista para 2027 e que vai duplicar a actual capacidade de produção de energia térmica para 900 MW, quase metade da enegia produzida pela Hidroeléctrica de Cahora Bassa (2.075 MW).
Refira que a unidade de processamento de gás, que resulta de um investimento de cerca de 760 milhões de dólares, vai reduzir a dependência de importação de gás de cozinha e futuramente de derivados de petróleo leve como gasolina, gasóleo e naftas.
Actualmente, o País gasta entre 45 a 50 milhões de dólares anualmente com a importação de gás de cozinha. Com a entrada em funcionamento da nova unidade, a primeira do género no País, que tem uma capacidade de produção de cerca de 30 mil toneladas de gás de cozinha por ano, estima-se que a necessidade de importação seja reduzida para mais de metade, representando uma significativa poupança de divisas e um fortalecimento da segurança energética nacional.
Construída pela Sasol Petroleum Temane, a infra-estrutura já registou um marco simbólico: o primeiro carregamento de GLP 100% moçambicano foi realizado a 07 de Outubro deste ano. Tratou-se da primeira leva de petróleo leve.
Um mês mais tarde, 04 de Novembro, foi então feito o primeiro carregamento de gás de cozinha, após um período longo de comissionamento liderado por uma equipa de engenheiros moçambicanos, incluindo jovens oriundos de Inhassoro e outros distritos da Província de Inhambane.
A unidade, que representa um investimento de capital intensivo, encontra-se pronta para operar plenamente e no seu primeiro mês atingiu uma cifra de 137 carregamentos de camiões com capacidade de 40 mil metros litros cada.
Em relação ao petróleo leve, a capacidade instalada é de cerca de quatro mil barris por dia. Actualmente, existe uma pequena unidade de processamento na Matola, onde unidades de fracionamento e uma pequena refinaria auxiliar permitem a transformação para diesel, gasolina e naftas usadas para equipamentos industriais.
“Passos concretos rumo à independência económica”
Na cerimónia, o Presidente da República, Daniel Chapo que cortou a fita com o seu homólogo sul-africano, destacou a importância estratégica do empreendimento e caracterizou-o como símbolo de um País que deixou de ver os seus recursos por fora e passou a transformá-los dentro de portas, com visão, ambição e sentido de soberania e independência nacional.
“Este empreendimento é mais do que uma obra física. É a expressão da nossa determinação em deixar de exportar matérias-primas e importarmos produtos mais caros já transformados. Hoje começamos a dar passos concretos rumo à nossa independência económica e soberania estratégica”, afirmou o Chefe de Estado.
O Chefe do Estado sublinhou igualmente o papel histórico da África do Sul no apoio às lutas de libertação da região austral, reforçando a honra da presença do líder sul-africano no evento, tratado por Chapo como “irmão mais velho”.
“A sua presença hoje não é apenas diplomacia. É a reafirmação viva de uma história de luta, de solidariedade e de uma visão de liberdade e desenvolvimento que construímos juntos”, disse, arrancando aplausos da plateia.
80% dos empregos gerados foram ocupados por mão-de-obra local
Daniel Chapo frisou também o impacto social da obra. Mais de 1.685 empregos foram criados durante a fase de construção do empreendimento, sendo que 120 postos de trabalho permanecerão activos na etapa de operação permanente. O líder garantiu que, desse volume, mais de 80% da força laboral contratada é local, oriunda de distritos como Inhassoro, Govuro, Vilankulo, Massinga e outras regiões da Província de Inhambane e do país.
“Cada projecto estratégico deve deixar benefícios tangíveis para as comunidades”, defende, destacando que além da geração de empregos, o presidente enumerou benefícios sociais já implementados, com destaque para a construção de uma vila residencial com cerca de 45 casas, a requalificação de uma escola primária local com 12 salas de aula, bloco administrativo, campo desportivo e residências para professores, além da assinatura de novos acordos quinquenais de desenvolvimento comunitário para a região.
No encerramento da intervenção, Daniel Chapo reafirmou o compromisso de continuidade da cooperação com a África do Sul e com a região da SADC, bloco que o Presidente referiu repetidamente como prioridade de integração económica e social.
“Vamos continuar unidos e a trabalhar lado a lado para desenvolver Moçambique, desenvolver a África do Sul e fortalecer a região da SADC. Estamos a preparar o País para os próximos 50 anos”, concluiu.
Ramaphosa diz que é uma infra-estrutra crítica para os dois países e para a região
Por seu turno, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, elogiou o Governo de Moçambique e a petrolífera Sasol pela construção da nova Unidade de Processamento Integrado de Gás inaugurada no Distrito de Inhassorro, Província de Inhambane, classificando a visita oficial ao País como “significativa” e de grande simbolismo para a cooperação bilateral e regional.
“Estou aqui desde ontem, e a nossa visita a Moçambique tem sido bastante significativa. O lançamento oficial desta infra-estrutura de processamento integrado é resultado de um esforço colaborativo e de longas relações entre os nossos dois países”, afirmou Ramaphosa, em declaração proferida minutos após a cerimónia de corte da fita.
O chefe de Estado sul-africano felicitou o Governo de Moçambique e a Sasol pelas obras realizadas no âmbito do Acordo de Partilha de Produção (PSA), destacando a importância do complexo para a segurança e diversificação energética da região austral.
“Este empreendimento reforça a nossa segurança energética. Parabéns ao Governo de Moçambique e à Sasol pela realização desta infra-estrutura, que é crítica para o desenvolvimento social e económico”, sublinhou o presidente sul-africano.
Estevão Pale destaca resiliência para materialização da planta “num contexto exigente”
No seu breve discurso antes de entregar a palavra ao Presidente da República, o Ministro dos Recursos Minerais e Energia, Estevão Pale, enquadrou o empreendimento como uma vitória mediante desafios conjunturais e outras adversidades.
“Esta infra-estrutura que acabamos de inaugurar nasce de uma visão clara do Governo de Moçambique de transformar os seus recursos naturais em produtos que respondem às necessidades dos moçambicanos. É um sonho de mais de 10 anos que hoje se materializa”, afirmou Pale.
O Ministro sublinhou que a construção da unidade ocorreu num “contexto exigente”, enumerando como desafios superados a “volatilidade dos preços internacionais de energia, pressão inflacionária dos combustíveis, limitação dos financiamentos globais, exigências crescentes da segurança energética e a crescente procura de GPL”, além dos “desafios logísticos no período pós-pandemia”.
Para Pale, o projecto concretizado vai ao encontro das orientações presidenciais para “aumentar a produção nacional, promover a industrialização e fortalecer a segurança energética”.
Concluiu classificando a fábrica como mais do que uma planta industrial, mas sim “o vislumbre da resiliência, visão estratégica e capacidade de execução de projectos em contextos difíceis”.
ENH anuncia poupança entre 20 e 25 milhões de dólares por ano
Segundo a presidente do Conselho de Administração da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), Ludovina Bernardo, mais do que histórica a inauguração da unidade de processamento, representa um passo estratégico para a redução das importações e fortalecer a soberania sobre os recursos naturais do País e poupar entre 20 e 25 milhões por ano.
“Hoje é um dia histórico para Moçambique e para o Governo. Estamos a entregar aos moçambicanos a primeira fábrica construída no País para produzir gás de cozinha, um marco que reduz importações e reforça o orgulho do cidadão”, afirmou o PCA.
A líder da estatal revelou que quase todo o gás de cozinha consumido em Moçambique é actualmente importado. Com a nova unidade, a previsão inicial de produção é de 30 mil toneladas anuais, devendo reduzir entre 50% e 75% as importações, dependendo da performance operacional da fábrica.
A poupança estimada pode alcançar entre 20 e 25 milhões de dólares por ano, com um impacto directo na balança de pagamentos.
“Este empreendimento está a inverter um ciclo histórico. É o gás a ser monetizado e industrializado aqui mesmo, no País, para servir a economia e o cidadão”, referiu Ludovina Bernardo.
Cadeia de distribuição abre portas a jovens e PME’s
O Governo, através da ENH, delegou à empresa pública Petromoc a gestão da componente comercial do gás processado. Quatro empresas foram contratadas para a fase inicial de distribuição, com entrega às comunidades através de distribuidores e revendedores locais.
“Pedimos que os revendedores que hoje comercializam gás importado abram espaço para novos operadores, sobretudo jovens, micro, pequenas e médias empresas. Este projecto tem de gerar emprego, renda para as famílias e conteúdo local real. Queremos que a oportunidade seja ampliada para mais pessoas e empresas nacionais”, defendeu.
A expectativa é que o aumento da capacidade produtiva e o surgimento de novas plantas em outras regiões criem um efeito multiplicador na economia familiar e empresarial.
Numa altura em que a expectatitiva, sobretudo dos residentes em Inhambane, era de ter unidades de enchimento locais, tendo em vista a redução do preço, a responsável garantiu que haverá esforços institucionais para equilibrar o preço do gás ao consumidor final.
“A preocupação do cidadão comum é legítima. Tudo será feito para assegurar um preço relativamente justo, alinhado ao custo da produção e ao benefício social que se quer gerar”, assegurou.
INP prevê replicação do modelo de unidades de processamento noutros projectos de gás
Numa breve entrevista ao Evidências, o presidente do Conselho de Administração do Instituto Nacional de Petróleos (INP), Nazário Bangalane, disse que Moçambique assume agora um “papel extraordinário” no sector energético com a capacidade de transformar o seu gás natural em GLP (gás de cozinha) no território nacional.
“O País produz gás há muito tempo. Uma parte tem sido usada em Moçambique, e outra na África do Sul, na forma de gás, mas hoje, além de produzir e consumir gás, estamos a produzir GLP a partir deste mesmo gás. Isto representa um papel extraordinário para o nosso País”, explicou Bangalane.
Questionado sobre a possibilidade de replicar este modelo noutros projectos futuros, o PCA do INP foi peremptório: “Com certeza, porque para além das reservas que já temos agora, contamos descobrir mais reservas, tanto aqui em Inhambane como na Bacia do Rovuma e outros pontos do País”, sublinhou
Bangalane revelou ainda que o Instituto Nacional de Petróleos continua com programas de investigação e prospecção para descobrir novas reservas de gás natural, abrindo caminho para a implementação de projectos semelhantes no futuro.
“Qualquer subproduto que vem gás natural representa um importante ganho para a economia do País. Não há razão para os investidores não apoiarem esta iniciativa que é soberana do nosso Estado”, projectou.
Sasol diz que desembolsou mais de 4 mil milhões de dólares em Moçambique em duas décadas
Por sua vez, a gigante energética sul-africana Sasol reivindicou ter já investido mais de quatro mil milhões de dólares nos últimos 20 anos de presença em Moçambique, consolidando-se como um dos maiores investidores privados no País.
Para além da infra-estrutura recém-inaugurada, a Sasol enfatiza o seu impacto alargado. Muriel Dube, Presidente do Conselho de Administração do Grupo Sasol, destacou que a empresa se tem mantido consistentemente entre os três maiores contribuintes fiscais do País nos últimos cinco anos.
Paralelamente, descreveu um amplo leque de investimentos sociais que, segundo a empresa, visam catalisar o desenvolvimento sustentável.
“Nos últimos 20 anos, investimos mais de quatro mi milhões de dólares no País e estamos orgulhosos do impacto positivo criado”, afirmou Dube. Esse impacto, defende, materializa-se não só em impostos, mas também em programas de capacitação e em investimentos comunitários diretos.
Só nas 37 comunidades dos distritos de Inhassoro e Govuro, vizinhas do novo projecto, a Sasol aplicou cerca de 20 milhões de dólares em acordos de desenvolvimento local desde 2020, com mais 35 milhões de dólares em outras iniciativas sociais. O compromisso foi recentemente reforçado com um segundo acordo, no valor de 43 milhões de dólares, que expandirá a actuação para 70 comunidades até 2030.
Num sector faminto por mão-de-obra qualificada, a petrolífera também investiu no treino de profissionais moçambicanos, desde operadores e técnicos até jovens engenheiros. “Isto é essencial para a capacidade do País expandir as suas operações de óleo e gás”, sublinhou a presidente da Sasol, apresentando a formação como um vector de soberania energética.



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