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John Kanumbo
Chegamos ao fim de mais um ano e, como sempre, alguém diz: — Graças a Deus.
Dizemos isso com uma naturalidade quase infantil, que acredita no Pai Natal. Sem perguntas. Sem vergonha. Sem pensamento. E como se fosse óbvio que existe uma entidade invisível, omnipresente e selectiva, ocupada a resolver pequenos favores individuais, a acompanhar as nossas pequenas vitórias — o salário que caiu, a multa que não chegou, a doença que passou, o acidente que não foi connosco — enquanto, ao mesmo tempo, ignora mães a gritar em maternidades sem incubadoras, crianças soterradas por bombas, corpos anónimos a boiar no Mediterrâneo e pessoas sem comidas nos campos de reassentamentos da guerra.
Não sei tudo. Mas sei de uma coisa: se eu fosse Deus, este mundo não seria este pântano ou esgoto moral disfarçado de ordem divina onde tudo se esconde atrás da frase graças a Deus. Essa expressão tornou-se uma bengala emocional. Um biombo linguístico. Não porque seja religiosa, mas porque é conveniente. Funciona como anestesia ética. Uma absolvição automática. Uma forma elegante de não pensar. Serve para encobrir falhas humanas, crimes disfarçados, privilégios herdados e tragédias ignoradas.
O padre que abusa de uma criança e agradece por não ter sido descoberto. O político que desvia fundos da saúde e, ao escapar da auditoria, fecha o gabinete e diz: graças a Deus. O empresário que explora até ao limite e chama o lucro bênção. O corrupto que embolsa o envelope e louva o céu. O estudante que passa graças ao favor ou enamorou com docente ou pagou e diz foi “milagre”, diz graças a Deus. O ditador que se mantém no poder pela bala e pelo medo e agradece pela “estabilidade” O oportunista que sobe pisando nos outros e chama isso milagre. O presidente do Estado que fala só mentiras depois de descer no púlpito agradece: graças a Deus.
Em todas as classes, em todas as instituições, em igrejas, mercados, parlamentos, camas alheias e corredores de hospital, dizem graças a Deus funciona como auto-absolvição instantânea. Quase todos dizem: graças a Deus. Nunca dizem: graças à mentira, graças ao medo, graças à injustiça.
Comi? Graças a Deus. Dormi? Graças a Deus. O outro morreu e não fui eu? Graças a Deus. Mas quando alguém sofre, quando alguém perde, quando alguém morre sem socorro — aí Deus já não é chamado. A frase evapora.
Até na miséria ela aparece. A prostituta que sobrevive a mais uma noite diz graças a Deus. O bêbado que não foi atropelado diz graças a Deus. A mulher que sobreviveu a um aborto clandestino diz graças a Deus. O bandido que não foi apanhado diz graças a Deus. Comi uma virgem e menos de idade diz graças a Deus. Trai, não foi descoberto, diz graças a Deus.
Trânsito? Não te fez parar, parou outro: graças a Deus. Não foste apanhado pela polícia? Graças a Deus. O namorado deu-te dinheiro? Graças a Deus. O patrão comprou um carro e não te despediu? Graças a Deus. O amigo deixou de beber por vontade própria? Graças a Deus. Teve um caso e não chegou a polícia? Graças a Deus. Mandaste aquela mensagem e correu bem? Graças a Deus. Esforçaste-te e deu certo? Graças a Deus. Não conseguiste nada? Ficas frustrado. E não há graças a Deus que te salve. Recebeu envelope cheio de bajulação? Graças a Deus. Usou poder ou força para se impor? Graças a Deus. Subiu à custa dos outros, passou por cima da ética? Graças a Deus. O amigo enganou-te e saiu impune? Graças a Deus. O chefe favoreceu-se e não a ti? Graças a Deus.
E assim a vida transforma-se numa sequência de “graças a Deus” por pequenas sortes e coincidências, enquanto ninguém questiona esforço, mérito, ética ou injustiça.
Como se sobrevivência fosse bênção. Como se sorte fosse justiça. Como se Deus fosse cúmplice do acaso. Ou seja, como se Deus jogasse dados. E ninguém pergunta: por que um e não o outro? Por que este vive e aquele morre? Por que este escapa e aquele apodrece?
Se eu fosse Deus — e digo isso com toda a ironia filosófica que o fim de ano permite — não criaria um mundo onde a salvação é aleatória e a miséria é regra.
Essa linguagem de “graças a Deus” não surgiu por acaso. Foi ensinada. Foi martelada durante séculos. Desde o cristianismo institucionalizado, sobretudo a partir do século IV, quando religião e poder político se fundem, constrói-se uma teologia da aceitação. Tudo o que é bom vem de Deus. Tudo o que é mau é culpa tua, é provação, castigo ou mistério teu.
Na Idade Média, o camponês faminto agradecia pela sobrevivência. O escravo agradecia por não morrer naquele dia. O colonizado agradecia pela migalha. “Obedeça, pois Deus sabe o que faz.” “Suporte, pois sua recompensa virá depois.” “Cale, agradeça e espere.”
A linguagem foi colonizada antes dos corpos. Hoje, repetimos isso como reflexo sem pensar. “Se Deus quiser.” “Vai com Deus.” “Deus sabe.” Frases que transferem toda a responsabilidade — e toda a culpa — retiram culpa, retiram acção. O invisível leva o crédito. O visível paga o preço.
E depois chega o Natal, Jesus, luzes, presentes. Repetimos a infantilização: um adulto de trinta, quarenta, cinquenta anos a mentir a uma criança sobre um velho gordo que entra pela chaminé. E chama a isso magia. Depois cresce e troca o Pai Natal por Deus. O mecanismo é o mesmo: esperar milagres, acreditar que um ser invisível resolve injustiças, que tudo vai melhorar sozinho. Entre embrulhos coloridos e ceias fartas, milhões continuam sem pão, sem cuidados, sem abrigo. E a expressão surge novamente, ritualística, automática: embora a realidade insista em desmentir isso todos os dias.
— Graças a Deus por mais um ano.
O Pai Natal ensina a obedecer. Deus ensina a aceitar. Ambos funcionam enquanto a pergunta não surge. E o padre ainda motiva a ti a pagar o dízimo, e a oferecer caridade aos pobres, isso é promoção da desigualdade total.
E chegamos ao fim do ano assim. Fazemos retrospectivas, brindes, discursos, fogos de artifício… e dizemos: — Graças a Deus por mais um ano. Mas graças a quê, exactamente? Graças ao esforço humano que manteve hospitais de pé. Graças a trabalhadores exaustos. Graças a professores mal pagos. Graças a mulheres que seguraram tudo sozinhas. Graças a cientistas, agricultores, garis, enfermeiros. Ou graças à desigualdade que poupou uns e matou outros?
Dizer graças a Deus diante da injustiça é como passar perfume num cadáver: o cheiro muda, mas a morte permanece e a podridão fica. E o mais cruel é que fomos treinados a fazer isso com gratidão.
Talvez seja hora de reaprender a linguagem. Talvez seja hora de devolver a gratidão ao humano. Talvez seja hora de dizer:
— graças ao esforço.
— graças à solidariedade.
— graças à luta.
— graças à consciência.
Ou simplesmente calar, quando não há o que agradecer. Neste fim de ano, não direi graças a Deus. Direi: graças a nós — se ainda tivermos coragem de pensar, questionar e agir.
Porque a única graça que realmente importa não vem do céu. Vem da consciência. E a linguagem, como a história, pode libertar — ou manter ajoelhado.



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