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- Casco lançado ao mar dentro do cronograma do projecto
- Quando o Coral Norte entrar em funcionamento, o país será terceiro maior produtor em África
O projecto Coral Norte FLNG atingiu um dos marcos mais relevantes do seu ciclo de implementação com o lançamento ao mar, na manhã da passada sexta-feita, do casco da Plataforma Flutuante de liquefação de gás natural, uma etapa que confirma o avanço físico da obra dentro do cronograma estabelecido e reforça a meta de início da produção em 2028.
Reginaldo Tchambule, na Coreia do Sul
Moçambique ainda dormia, quando no continente asiático um marco importante da sua história era escrito. Eram cerca de 11 horas e 20 minutos em Geoje, Coreia do Sul, (04:20 de Maputo), quando o ministro dos Recurso Naturais e Energia, Estevão Pale, acompanhado pelos PCAs do Instituto Nacional de Petróleo (INP), Nazário Bangalane e da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), Ludovina Bernardo; o chefe das Operações da ENI, Guido Brusco e outros quadros da indústria, procederam ao lançamento do casco, nos estaleiros da Samsung Heavy Industries, simbolizando a conclusão da construção da estrutura principal da plataforma flutuante.
A fase marca o início da integração dos módulos dos sistemas de produção, processamento e liquefação do gás natural. Trata-se de uma fase crítica do projecto, que envolve a montagem de equipamentos de elevada complexidade tecnológica e a ligação dos diferentes sistemas que permitirão o funcionamento da fábrica flutuante em mar aberto.
Basicamente, os trabalhos concentram-se agora na integração dos módulos de processamento, na instalação dos sistemas de geração de energia, compressão, refrigeração e armazenamento de LNG, bem como na conclusão das actividades submarinas associadas aos poços de produção. Paralelamente, decorrem as fases de aquisição de equipamentos, testes de sistemas e preparação das operações de perfuração e ligação dos poços.
O acto e o avanço físico do projecto confirma que a obra avança dentro do cronograma, reforçando a meta de início da produção de gás natural liquefeito em 2028.
Falando em nome do Executivo, o ministro dos Recursos Minerais e Energia classificou o momento como “um marco de grande significado técnico, estratégico e institucional”, sublinhando que esta etapa é determinante no ciclo de implementação do projecto, por marcar a transição da construção estrutural para a montagem e interligação dos sistemas que irão permitir a operação da fábrica flutuante em águas ultraprofundas.
O ministro recordou que o Plano de Desenvolvimento do projecto foi aprovado pelo Governo em Abril de 2025, após um processo rigoroso de análise técnica e institucional.
“O Governo estava convicto de que, após a avaliação conduzida pelo INP e pela ENH, estavam assegurados todos os aspectos técnicos e operacionais para a materialização dos objectivos do projecto”, afirmou.
Coral Norte fará de Moçambique o terceiro maior produtor de GNL em África
Com uma capacidade de produção estimada em cerca de 3,6 milhões de toneladas de gás natural liquefeito por ano, o Coral Norte FLNG permitirá, em conjunto com o Coral Sul FLNG (com 3.4), elevar a produção nacional para cerca de 7 milhões de toneladas anuais. Este volume posicionará Moçambique como o terceiro maior exportador de LNG em África e entre os principais produtores a nível global.
“Este volume colocará o nosso país na 13.ª posição a nível global e como o terceiro maior exportador de gás natural liquefeito em África”, destacou o ministro.
O governante sublinhou ainda os impactos macroeconómicos do projecto, afirmando que a sua materialização “vai traduzir-se em receitas fiscais e outros ganhos do Governo, reforçando a capacidade interna de financiamento das despesas públicas”. Acrescentou que os recursos iriam contribuir para “a estabilização e o equilíbrio da balança de pagamentos nacional e para o financiamento de programas de educação, saúde e infra-estruturas públicas”.
Para além do impacto energético, na vertente social, o projecto terá reflexos significativos na economia nacional. Estão previstas receitas fiscais avultadas para o Estado, o reforço da balança de pagamentos e a criação de mais de 1.500 empregos directos e indirectos durante as fases de instalação e operação. O projecto prevê ainda a alocação de cerca de 800 milhões de dólares para conteúdo local nos primeiros anos, beneficiando empresas e quadros moçambicanos.
“Durante a fase de instalação e operacionalização, o projecto prevê a geração de mais de 1.500 empregos directos e indirectos, bem como o fortalecimento do conteúdo local”, disse, avançando que de forma inovadora, visando maximizar os ganhos para o Estado, o projecto prevê igualmente a disponibilização de 25% do gás para o mercado interno, destinados à industrialização do país, com foco em sectores como a produção de fertilizantes, petroquímicos, combustíveis e a geração de energia eléctrica.
De acordo com o cronograma apresentado, a unidade flutuante deverá estar pronta para seguir para Moçambique no primeiro trimestre de 2028. Até Dezembro de 2025, o projecto registava progressos significativos ao nível da engenharia, construção do casco, aquisição de equipamentos e preparação das actividades de perfuração. Para o ministro, estes avanços “demonstram a robustez da parceria estabelecida entre o Governo e os investidores”.
Num contexto internacional marcado por incertezas geopolíticas e pela transição energética, o avanço físico do Coral Norte FLNG reforça, segundo o ministro, a imagem de Moçambique como “um fornecedor fiável de energia, um parceiro previsível e um destino seguro para investimentos estruturantes”.
Experiência do Coral Sul facilita avanço do Coral Norte
A experiência acumulada com o Coral Sul-FLNG, a primeira plataforma de exploração de gás em águas ultra-profundas do mundo, colocado em operação em 2022, na Bacia de Rovuma, tem sido determinante para acelerar e tornar mais eficiente o desenvolvimento do projecto Coral Norte, actualmente em construção. A convicção foi expressa pelo chefe das Operações Globais da Eni, Guido Brusco.
“Hoje é um prazer e um privilégio estar com todos vocês para celebrar um dos marcos mais significativos do projecto Coral Norte”, afirmou Brusco, sublinhando que o novo empreendimento “assenta na distinta experiência da Eni” e irá consolidar ainda mais “o papel de Moçambique entre os principais países produtores de GNL em África”.
Ao longo da sua intervenção, o responsável da Eni fez várias referências ao Coral Sul, descrito como a base sólida sobre a qual o Coral Norte está a ser construído. É que, a experiência colhida no projecto anterior está a ser determinante para melhorar a estrutura da plataforma actualmente em construção para ser mais eficiente e com desempenho optimizado, reduzindo os custos.
“Em Moçambique, a Eni, juntamente com os seus parceiros, já havia alcançado um feito histórico com o Coral Sul, a primeira infra-estrutura FLNG de grande escala localizada em águas ultraprofundas a nível global”, recordou, reforçando que tudo está em total conformidade com o cronograma do projecto que deverá iniciar operações em 2028.
Desde o início da produção, em 2022, o Coral Sul já entregou mais de 135 carregamentos de GNL, um desempenho que, segundo Brusco, demonstra “resultados operacionais notáveis” e posiciona o Coral Sul como “uma referência para a indústria global de FLNG”.
Coral Norte terá capacidade de produção 5% superior à do Coral Sul
Embora assente num conceito validado, Brusco fez questão de frisar que o Coral Norte “é muito mais do que uma simples cópia”. Segundo explicou, a adopção do modelo do Coral Sul permitiu “reduzir significativamente as despesas de capital, acelerar os prazos do projecto e tornar a execução global mais eficiente”.
Ao mesmo tempo, o novo projecto beneficia da incorporação de “mais de 1.000 lições aprendidas”, resultando num aumento de mais de 5% da capacidade de produção. Com uma capacidade de liquefação de 3,6 milhões de toneladas por ano, o Coral Norte será a segunda FLNG de grande escala em águas ultra-profundas no mundo.
A facilidade de execução, sustentada pela experiência do Coral Sul, reflecte-se também na segurança, com um marco de mais de seis milhões de horas de trabalho sem acidentes.
Governo não afasta possibilidade de exploração directa do gás pelo Estado no futuro
Embora sem avançar datas concretas, o Governo moçambicano não afasta a possibilidade de, no futuro, o país vir a explorar directamente o seu gás, numa estratégia que visa reforçar o controlo nacional sobre os recursos energéticos e maximizar os benefícios económicos e sociais para o Estado.
Segundo o ministro dos Recursos Minerais e Energia, Estevão Pale, a utilização industrial do condensado exige um investimento massivo, que, nas actuais circunstâncias, o país ainda não reúne condições financeiras e técnicas para suportar.
Ainda assim, a visão governamental aponta para o médio e longo prazos, com a ambição de transformar estes recursos num verdadeiro vector de desenvolvimento industrial e de fortalecimento da economia nacional.
“A estratégia passa por um processo gradual de capacitação institucional e técnica. À medida que Moçambique for consolidando experiência, através da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), e desenvolvendo competências internas, o país poderá iniciar-se na operação de pequenos reservatórios, acumulando experiência operacional”, assegurou o ministro.
Com o tempo, o objectivo é avançar para projectos de maior dimensão, alcançando níveis mais elevados de autonomia e sofisticação tecnológica.
“O foco, neste momento, é fortalecer a nossa capacidade interna. Há um tempo próprio para que tudo isto se materialize”, sublinha Pale, uma abordagem inspirada em experiências já seguidas por vários países produtores de hidrocarbonetos.
Paralelamente, o Governo defende a introdução de normas específicas para os operadores do sector, de modo a garantir que técnicos moçambicanos trabalhem em estreita articulação com especialistas estrangeiros. Esta convivência técnica é vista como essencial para acelerar a transferência de conhecimento e tecnologia, criando uma base sólida para a próxima fase de desenvolvimento do sector energético.
Refira-se o Governo é beneficiário exclusivo de todo condensado resultante da exploração de gás na bacia do Rovuma, contudo, enquanto Moçambique ainda não dispõe de capacidade instalada para processamento interno daquele subproduto, a sua colocação no mercado internacional surge como uma solução estratégica para a geração de receitas adicionais no curto prazo. A venda permite ao Estado arrecadar fundos importantes, ao mesmo tempo que se cria espaço financeiro para preparar etapas futuras de maior valor acrescentado.
O mesmo destino terão, por enquanto, os 25% de petróleo e gás produzido, que por força do artigo 2 do Decreto n.º 9/2025 de 11 de Abril, a Concessionária deve disponibilizar para o mercado doméstico. Trata-se de uma inovação em relação ao contrato do Coral Sul que apenas previa condensado para o mercado doméstico.
Segundo apurou o Evidências, o gás será entregue directamente à Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) que, neste momento, já se encontra a preparar-se para encontrar compradores, ao mesmo tempo que busca dinamizar o uso industrial de gás no país, por forma a capitalizar o uso desta cota prevista por lei.
Talento nacional integra engenharia de classe mundial do Coral Norte na Coreia do Sul
À primeira vista, o Coral Norte, à semelhança do Coral Sul, impressiona pelas suas dimensões colossais e pela complexidade da engenharia envolvida. A unidade mede 404 metros de comprimento, cerca de 65 metros de largura e 38 metros de altura, ultrapassando a Torre Eiffel em altura. O seu comprimento é equivalente a quatro campos de futebol que serão erguidos em pleno mar de Cabo Delgado, numa das maiores infra-estruturas flutuantes alguma vez vistos. Como ele, somente o seu predecessor, o Coral Sul, que alcançou o marco de ser a maior plataforma flutuante de exploração de gás em águas ultraprofundas. Por detrás desta obra de grande envergadura estão também mãos moçambicanas.
Um exemplo é Elcides Chaicomo, jovem engenheiro moçambicano que se encontra na Coreia do Sul, onde integra a equipa responsável pela construção da unidade. A sua participação reflecte a inserção de quadros nacionais em projectos de elevada exigência técnica e simboliza a crescente contribuição do capital humano moçambicano nos grandes empreendimentos energéticos do país.
Coordenador de Integração da Infra-estrutura, Chaicomo foi-lhe confiada a missão de garantir que todos os equipamentos e a própria infra-estrutura estejam em conformidade técnica, visando assegurar que todas as lições apreendidas durante a concepção e operacionalização do Coral Sul sejam implementadas neste projecto.
“O meu papel é garantir que os equipamentos que vêm de várias partes do mundo cheguem em conformidade técnica e nos padrões exigidos. Uma das responsabilidades que tenho é assegurar que todas as lições apreendidas no Coral Sul sejam implementadas aqui no Coral Norte”, revela.
Natural de Angoche, na província de Nampula, Chaicomo está ligado à empresa desde 2013, tendo beneficiado de uma bolsa de formação, o que lhe permitiu adquirir mais conhecimentos sobre o funcionamento desta indústria.
“A experiência tem sido boa. Estou a trabalhar com uma equipa internacional, composta por pessoas provenientes de vários países, e todos nós estamos a contribuir para garantir que tudo ocorra em conformidade”, sublinhou, acrescentando que está envolvido desde o processo de aprovação do Coral Norte e espera continuar a trabalhar até à fase de comissionamento da infra-estrutura e do seu reboque para Moçambique.



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