Moçambique repete tragédia cíclica das cheias: entre alertas e inacção, população paga o preço

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  • Mais de 123 mil afectados e 11 óbitos por inundações no Sul e Centro do País
  • “É preciso aprender a conviver com a água e reorganizar o território” – Carlos Serra

Mais de duas décadas depois das devastadoras cheias de 2000, que afectaram centenas de milhares de moçambicanos, o País volta a assistir, com assombro, à repetição de um cenário que deveria ser evitável. As intensas chuvas dos últimos dias afectaram mais de 123 mil pessoas nas regiões Sul e Centro, deixando milhares sem abrigo, destruindo casas, escolas e infra-estruturas básicas, e expondo, novamente, a fragilidade do ordenamento do território, o fraco investimento em barragens e da capacidade de prevenção do Governo. Até ao fecho desta edição, quando relatos apontavam para o aparecimento de corpos a flutuarem um pouco por todas zonas afectadas, o balanço oficial apontava para 11 óbitos. O drama humano, no entanto, não é novidade. A cada ciclo de cheias, surgem relatórios, promessas de reassentamento e obras de drenagem, mas a tragédia repete-se com regularidade.

Edmilson Mate e Elísio Nuvunga

As chuvas intensas que continuam a cair nos últimos dias reavivaram a memória das devastadoras cheias de 2000. Com a geografia, sobretudo da zona Sul do País, completamente alterada depois de as barragens sob pressão terem se visto obrigadas a abrir as comportas, na sequência de descarregamentos das suas congéneres dos países à montante, as principais bacias hidrográficas transbordaram e inundaram distritos inteiros.

Na Província de Gaza, os distritos de Chókwè, Guijá, Massingir e Xai-xai estão entre os mais afectados, com centenas de casas submersas, escolas e unidades sanitárias a funcionar de forma condicionada, deixando milhares de famílias sem abrigo e com acesso limitado a serviços básicos.

A situação é dramática e o balanço oficial aponta para cerca de 500.000 pessoas afectadas, cerca de 4000 casas parcialmente inundadas nas regiões Sul e Centro do país, com um saldo de 11 mortes e dezenas de desaparecidos, incluindo um político sul-africano que estava de visita ao País, que se fazia acompanhar por outras quatro pessoas, o que obrigou aquele país vizinho a mobilizar dois helicópteros para buscas.

A situação é particularmente grave na Província de Gaza, onde o transbordo do rio Limpopo tornou intransitável o troço Xai-Xai-Chicumbane, na estrada nacional N1. Vários outros troços rodoviários na mesma província encontram-se igualmente cortados, isolando comunidades e dificultando os socorros.

Em resposta à calamidade, o Governo, com apoio de parceiros nacionais e internacionais, activou um dispositivo de emergência. Para assistência às populações desalojadas, foram criados 60 centros de acomodação temporária.

No total, estão a ser assistidas mais de 55.500 pessoas deslocadas. Os dados indicam que 330.390 pessoas foram afectadas na Província de Gaza e 264.291 na Província e Cidade de Maputo.

As operações de busca, resgate e assistência contam com 14 embarcações, seis helicópteros e quatro aeronaves. Para garantir a ligação de Xai-Xai à capital, a LAM introduziu dois voos diários com capacidade para 77 passageiros, número que poderá ser ajustado conforme a procura.

O Governo reiterou, esta segunda-feira, um “apelo à solidariedade de todos”, convidando a que mais apoios sejam canalizados através das vias apropriadas para juntar aos esforços em curso.

Foi ainda renovado o apelo dirigido às populações, especialmente as das zonas de risco, para que “atentem aos alertas e observem as orientações das entidades competentes”, com o objectivo de evitar mais perdas de vidas humanas e danos materiais.

Um rastro de destruição que se repete

Actualmente, a Cidade de Maputo encontra-se temporariamente isolada das restantes províncias, na sequência da subida do nível das águas do rio Incomáti, no troço Incoluana – 3 de Fevereiro. A EN1 é a única via terrestre que liga o País de Norte a Sul, obrigando a circulação de pessoas e bens a realizar-se exclusivamente por via aérea, com impactos directos no abastecimento de produtos essenciais. Na região metropolitana, vários bairros da Matola e da Cidade de Maputo continuam alagados, com ruas transformadas em canais improvisados e residências inundadas.

Até ao fecho desta edição havia vários relatos de pessoas que se encontravam penduradas nas árvores e tectos das casas à espera de algum resgate há já mais de três dias. Chókwe, onde o helicóptero do Presidente da República viu-se obrigado a interromper viagem para socorrer mais de 10 cidadãos, incluindo crianças que estavam no topo de uma mini-bus já totalmente submersa; e Chilembene, havia ainda pessoas por resgatar.

Na Manhiça, onde o transbordo do rio Incomáti deixou inúmeras culturas submersas, surgiram informações de alguns corpos encontrados a flutuar. A interrupção rodoviária com o posto administrativo de 3 de Fevereiro ficou também interrompida na zona de Maochahomo. As autoridades provinciais, distritais e municipais estavam no terreno a coordenar acções de resgate e salvamento.

“Perdi quase tudo o que tinha conseguido com muito sacrifício”

A nossa equipa de reportagem visitou o centro de reassentamento da Capelinha, no distrito de KaMavota, onde 37 famílias tentam adaptar-se a uma vida de aperto, após perderem quase tudo para as inundações. Entre tendas improvisadas e luta pela sobrevivência, encontramos Adelina Cuna, de 60 anos, que vive com os seus dois filhos e dois netos numa tenda minúscula, depois que a sua casa foi completamente engolida pelas águas no bairro das Mahotas. O semblante cansado e a voz embargada revelam o peso do trauma que permanece mesmo depois do perigo imediato ter passado.

“Perdi quase tudo. A minha casa se foi com as águas e tudo aquilo que eu tinha comprado com muito sacrifício desapareceu. Já não tenho casa para viver, e aqui as condições não são as melhores. Viver com muitas pessoas no mesmo espaço é difícil, cada um tem a sua maneira de ser”, confessa Adelina, enquanto observa os netos a brincarem.

A esperança, porém, não desaparece. Questionada sobre os próximos passos, Adelina revela o sonho de recomeçar, desta vez em uma zona segura: “Agora vou lutar para construir uma nova casa para os meus netos. Aqui é difícil. Viver numa tenda não é o mesmo que numa casa. Quando chove, a água entra, e tenho de dormir com as crianças nesse espaço apertado. Quero que eles tenham um lar de verdade, onde possam crescer sem medo”, desabafa.

Numa outra tenda, onde uma família também tenta reconstruir as suas vidas no mesmo centro de reassentamento, conversámos com Arnaldo Massingue, de 67 anos, que vive com a sua esposa e três netos. Arnaldo relata como perdeu tudo.

“A minha casa ficou totalmente alagada. Tudo ficou na água. A grande preocupação era só salvar as nossas vidas. Saí de lá sem nada, apenas com a roupa que vestia. Não tive escolha senão vir para cá, para este centro de reassentamento, que também não é fácil, mas dá para aguentar”, conta.

Arnaldo descreve a rotina apertada e o drama da falta de privacidade, convivendo com dezenas de pessoas em tendas improvisadas.

“Aqui dormimos todos juntos, eu, a minha esposa e os meus netos, num espaço muito pequeno. Não há privacidade, não há conforto. E, mesmo assim, tentamos manter a esperança de algo melhor. O apoio que recebemos ajuda um pouco, mas não é suficiente para substituir uma casa de verdade”, lamenta.

Apesar das inundações, há quem insista em permanecer em zonas de risco

Evidências percorreu alguns bairros da cidade onde os moradores vivem praticamente dentro de água. A maioria manifesta vontade de sair das zonas de risco, mas alega falta de recursos financeiros e defende que a solução passa pela colocação de anilhas e valas de drenagem para permitir o escoamento das águas.

No bairro das Mahotas, zona do cemitério Mwaxitsene, Argentina Mondlane, chefe de quarteirão, relata que a água continua a subir diariamente, centímetro a centímetro, invadindo as casas daquele bairro, o que torna a permanência nas residências cada vez mais arriscada. Questionada sobre a possibilidade de sair da zona, responde com visível hesitação. Segundo ela, o reassentamento não resolve completamente o problema.

“Se tivessem colocado anilhas grandes aqui, nessas casas, não estaria tudo cheio de água. E muitas vezes o governo não gosta de ver as pessoas a tentarem resolver os próprios problemas. Mesmo quando colocaram uma bomba aqui, éramos nós que comprávamos o combustível”, acrescenta.

Noutra residência, onde a água continua a ganhar espaço, Adérito Magaia conta que tem planos de abandonar a zona, mas reconhece que esses planos dependem de dinheiro, algo que, neste momento, não tem.

“Plano de sair daqui sempre tive, mas isso envolve dinheiro. Tenho vontade de sair porque não sou peixe para viver na água, mas como não tenho condições, continuo aqui à espera que a água recue”, desabafa.

Autoridades municipais destacam drenagens e reassentamentos como soluções

João Munguambe, vereador de Infra-estruturas e Salubridade, explicou as medidas que o município está a tomar para mitigar as inundações em alguns pontos da Cidade de Maputo, reiterando que drenagens e reassentamentos são as soluções mais viáveis para os bairros inundáveis:

“Estamos a fazer manutenção neste momento dos sistemas de drenagem. Nos locais onde não existe sistema de drenagem, a ideia é construir valas. Noutros pontos, onde não há valas, por vezes enviamos um camião para absorver as águas acumuladas”, afirmou.

O vereador esclareceu que não há uma prioridade fixa entre os bairros; o trabalho é feito de acordo com a possibilidade de dar resposta ao problema:

“Não estamos a estabelecer prioridade como tal. Vamos a todas as zonas, desde que existam condições para agir. Se não houver condições de resposta imediata, priorizamos pela capacidade de executar algo útil e, quando necessário, podemos retirar as populações para locais seguros”, disse.

Sobre as áreas mais afectadas, Munguambe destacou que muitas das inundações ocorrem em zonas naturalmente baixas, consideradas impróprias para construção. O vereador abordou ainda a questão do comportamento de alguns moradores, que, apesar dos sucessivos alertas para não construir em zonas de risco, e noutros casos mesmo depois de reassentados, insistem em permanecer nesses locais, ignorando os alertas:

“Se tens um terreno onde fica claro que é uma zona baixa, o próprio espaço já indica o risco; não adianta construir. A maior parte das pessoas afectadas está nessas áreas. Muitas vezes, as pessoas que ficam inundadas são as mesmas que, quando alertadas, acham que o Município não se preocupa com elas. E depois de reassentadas, algumas voltam às zonas de risco ou até vendem os terrenos”, acrescentou.

Para Munguambe, a prevenção das inundações que, de forma cíclica, têm fustigado a cidade de Maputo depende de duas frentes principais: a construção de valas de drenagem e a proibição de construções em zonas baixas:

“A solução para evitar as inundações passa por não construir em zonas baixas e garantir a construção de sistemas de drenagem eficientes”, concluiu.

“É preciso aprender a conviver com a água e reorganizar o território”

O ambientalista Carlos Serra analisou a actual situação das cheias em Maputo e noutras regiões do País, destacando que estes fenómenos se tornam cada vez mais frequentes e intensos devido a mudanças climáticas, aquecimento global e ocupação desordenada do território.

“São fenómenos que começam a fazer parte do nosso dia-a-dia. A sua intensidade, regularidade e magnitude têm vindo a agravar-se. Além dos factores globais, a ocupação de zonas baixas, margens de rios e áreas húmidas, muitas vezes de forma não planeada, contribui para aumentar os impactos”, afirmou Serra.

Sobre medidas imediatas, Serra destacou a importância de salvar vidas, reassentar famílias em locais seguros e organizar ajuda humanitária, mas também de pensar em soluções de longo prazo.

“Mais importante do que reagir é prevenir. É preciso reorganizar o espaço territorial, identificar áreas de risco e zonas ecológicas, e fortalecer os bairros com capacidade técnica e autoridade para agir preventivamente”, disse.

Serra também defendeu o conceito de “cidade esponja”, aplicado com sucesso em outros países, que propõe usar elementos naturais, rios, lagos, terras húmidas e vegetação urbana, para absorver e gerir a água, tornando as cidades mais resilientes e saudáveis:

“A água não precisa de ser enviada para o mar. Pode ser armazenada e utilizada na época de seca. Se estivermos preparados, esta água pode até ser uma bênção para o futuro”, sublinhou.

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