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- Famílias desesperadas denunciam greve na morgue do HCM
- Município nega a greve e diz tratar-se de uma “avaria técnica nas câmaras” na madrugada
Uma multidão em silêncio pesado, rostos marcados pelo desespero e um cheiro intenso logo à entrada da morgue. No interior, o ambiente era insuportável: corpos espalhados, sem qualquer sinal de conservação, enquanto familiares, impotentes, eram impedidos de retirar os cadáveres para sepultamento. Foi este o cenário vivido na manhã desta segunda-feira, 19 de Janeiro, na morgue anexa ao Hospital Central de Maputo (HCM), onde uma interrupção dos serviços bloqueou a transladação de corpos, gerou aglomerações e momentos de tensão, num contexto já agravado pela falta de informação oficial, abriu espaço para a circulação de informação de que se tratava de uma greve dos funcionários do local por falta de pagamento do 13º salário. Horas depois, o Conselho Municipal de Maputo veio a público afirmar que a situação resultou de uma avaria no sistema de refrigeração da morgue. No entanto, a explicação não esclareceu por que motivo as famílias estavam impedidas de retirar os corpos, nem indicou prazos concretos para a normalização do serviço.
Luísa Muhambe
Os serviços da morgue anexos à maior unidade hospitalar do País sofreram uma interrupção, esta segunda-feira, que impossibilitou a transladação de corpos, deixando dezenas de famílias retidas e sem respostas claras. Muitas tinham funerais marcados para o mesmo dia, mas viram-se forçadas a adiar os enterros, num contexto de profunda angústia emocional.
O ambiente de tensão agravou-se à medida que as horas passavam, com familiares a questionarem a razão pela qual não lhes era permitido retirar os corpos, mesmo diante do evidente estado de decomposição.
Utentes e acompanhantes denunciaram falta de informação por parte das autoridades hospitalares e ausência de comunicação institucional. “Ninguém nos explica nada. Os corpos estão aqui a estragar-se e dizem-nos apenas para esperar”, lamentou um familiar, visivelmente abalado.
O forte odor, associado à falha no sistema de conservação, tornou o espaço praticamente ‘irrespirável’, levantando preocupações adicionais de saúde pública. Diante do vazio de informação, começaram a circular rumores de que a paralisação era motivada pela greve dos funcionários da morgue, supostamente em reivindicação do não pagamento do 13º salário.
Segundo os relatos, como medida de pressão, os sistemas de refrigeração das câmaras frigoríficas teriam sido desligados, provocando a aceleração do processo de decomposição de alguns corpos, agravando o mal-estar entre os familiares que aguardavam respostas das autoridades.
Face à gravidade da situação reportada nas primeiras horas do dia, as instituições responsáveis foram chamadas a esclarecer as causas da paralisação e o estado de conservação dos corpos. Enquanto os utentes associam o problema directamente à greve dos profissionais de saúde e funcionários públicos, a administração hospitalar demarcou as suas competências técnicas e operacionais.
Contactado pelo Evidências, o Hospital Central de Maputo esclareceu que existem duas estruturas distintas com funções diferentes no processo de gestão de óbitos. Enquanto o hospital gere uma morgue de trânsito para corpos provenientes das enfermarias, o município é o responsável pela custódia final e pela conservação prolongada dos cadáveres que aguardam sepultamento.
“Não ficamos com os corpos nas nossas instalações por muito tempo, uma vez que a morgue do HCM é estritamente transitória e os serviços de conservação definitiva não são da nossa responsabilidade. Tem um prazo de 24 horas para se evacuarem os corpos da morgue do Hospital para a morgue do Município, por isso só o Município pode dar esclarecimentos sobre este assunto,” detalhou a fonte oficial do Hospital Central.
Município diz que houve avaria de máquinas, mas não esclarece alguns porquês
Em resposta à situação, o Conselho Municipal de Maputo deu a sua versão dos factos, negando categoricamente que a paralisação tenha sido motivada por uma greve ou reivindicação laboral. De acordo com a edilidade, registou-se uma “avaria técnica nas câmaras da morgue anexa ao Hospital Central de Maputo durante a madrugada de 19 de Janeiro de 2026”, situação que condicionou o funcionamento do serviço nas primeiras horas da manhã.
O Município refere que foi accionada uma equipa técnica especializada para o diagnóstico e resolução célere do problema, visando a reposição plena da infra-estrutura.
Enquanto decorrem os trabalhos de reparação, o Conselho Municipal informou que os corpos serão provisoriamente transferidos para as morgues anexas ao Cemitério Municipal de Michafutene e do Hospital Geral José Macamo, de forma a garantir a continuidade do serviço e o respeito pelas famílias enlutadas. No entanto, o Município não esclarece por que razão os corpos não estavam a ser entregues às famílias que estavam amontoadas no recinto para os recolher e efectuar os devidos velórios.



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