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- Dois anos depois de o Evidências ter espoletado o assunto
- Autoridades locais denunciam reincidência e Governo promete sanções severas à empresa
Volvidos dois anos desde que o jornal Evidências denunciou um caso de exploração de mão-de-obra infantil numa fábrica de pipocas Sahaf, de capitais indianos e sírios, localizada no Bairro da Manga, Cidade da Beira, a situação volta a merecer atenção pública. Autoridades locais confirmam que a mesma unidade fabril continua a empregar crianças e adolescentes, estando ainda envolvida em alegados maus-tratos e actos de violência física, alguns dos quais teriam resultado em internamentos hospitalares.
Jossias Sixpense, Beira
Em 2023, o Evidências já havia denunciado a mesma fábrica por exploração de trabalho infantil e violência física contra adolescentes. À época, as vítimas acusaram igualmente a Inspecção Nacional das Actividades Económicas (INAE) e a Inspecção-Geral do Trabalho (IGT) de cumplicidade, alegando falta de acções concretas após as fiscalizações realizadas.
Na altura, os menores ouvidos revelaram que sempre que as entidades reguladoras visitavam a unidade fabril, as actividades eram temporariamente interrompidas, mas retomadas logo depois, sem aplicação de sanções. Alguns adolescentes afirmaram que os fiscais saíam do local com embalagens de pipocas, enquanto as irregularidades persistiam.
Na primeira semana de Janeiro de 2026, o Evidências voltou a receber novas denúncias sobre a mesma fábrica, de líderes comunitários da Manga, que apontam para práticas reiteradas de trabalho infantil, agressões físicas e condições laborais degradantes.
Durante o trabalho de apuração, a equipa foi impedida de ter acesso ao interior da fábrica, mas do exterior constatou a entrada disfarçada de várias crianças no recinto, com instruções para não entrarem em grupo, estratégia também aplicada no momento da saída.
No local, foi observado um jovem, aparentemente com cerca de 20 anos, encarregado de comprar pão, alimento que, segundo os trabalhadores, constitui praticamente a única refeição durante longas jornadas de trabalho.
Em declarações ao Evidências, várias crianças e adolescentes que trabalham ou trabalharam na unidade afirmaram ser vítimas de maus-tratos por parte do patronato, relatando jornadas prolongadas, ausência de descanso e agressões físicas como forma de punição.
Algumas das vítimas revelaram ainda a existência de uma abertura improvisada na parte traseira da fábrica, alegadamente usada para retirar as crianças do local sempre que há visitas das entidades fiscalizadoras. Segundo os relatos, esta prática visa ocultar a presença de menores durante inspecções-surpresa.
Um dos adolescentes de 17 anos, que decidiu abandonar a fábrica após sofrer agressões, confirmou ter sido vítima de violência física. Segundo o relato, após várias horas consecutivas de trabalho, foi agredido por descansar alguns minutos devido ao cansaço e à fome.
“Trabalhei lá durante dois anos, entrei com 15 anos. Um dia, o senhor Cali encontrou-me a descansar um pouco. Chamou-me e começou a bater-me. Fui parar ao hospital. Depois disso, nunca mais voltei. O secretário do bairro ficou a saber”, relatou a vítima.
De acordo com os relatos, os menores trabalham mais de 10 horas por dia, muitas vezes sem contratos formais, tendo como alimentação apenas um pão seco e um copo de sumo, consumidos durante o próprio trabalho, sem direito à pausa adequada.
Inspecções sem sanções
Como dito anteriormente, não é a primeira vez que o Evidências reporta este assunto e as denúncias de falta de acção efectiva, apesar de terem conhecimento das irregularidades, por parte da Inspecção Nacional das Actividades Económicas (INAE) e a Inspecção-Geral do Trabalho (IGT), persistem.
“Eles vêm fiscalizar, entram no escritório dos chefes e depois vão-se embora com pipocas. Nós continuamos a trabalhar. Eles sabem o que se passa aqui, mas nada fazem. Não temos intervalo para almoçar”, contou ao Evidências um colaborador daquela fábrica de apenas 15 anos.
Ao Evidências, autoridades comunitárias confirmaram a existência de uma abertura na parte traseira da fábrica, utilizada para retirar rapidamente as crianças sempre que surgem visitas de agentes reguladores.
O secretário do Bairro da Manga, António Chiquembo Paulo, relatou um episódio em que, durante uma visita de dirigentes locais, foi orientado a aguardar no portão enquanto os menores eram retirados por essa passagem improvisada.
“Quando entrámos, já não havia crianças. Mais tarde, em casa, perguntei a uma delas, que confirmou que tinham sido tiradas pelo buraco atrás”, afirmou.
Após as denúncias feitas pelos secretários do bairro e a colaboração destes na identificação dos agredidos residentes naquela unidade fabril, na manhã desta segunda-feira os secretários denunciaram estar a sofrer ameaças por parte do patronato da fábrica, alegadamente por terem “manchado” a imagem da empresa.
“Depois de termos feito a entrevista, na qual testemunhámos a violência física e o trabalho infantil nesta empresa, estamos a ser alvo de ameaças protagonizadas pelo Dhlakama, sob a alegação de termos manchado a empresa, quando, na verdade, as crianças contratadas e violentadas são OS nossos próprios filhos”, disse Delfina Martins, secretária de Dez (10) Casas.
Um “pequeno” trabalhador, que pediu anonimato por receio de represálias, corroborou a versão: “Quando eles chegam, mandam-nos sair por trás, onde tem milho. Abrem uma chapa para sairmos e só mandam voltar no dia seguinte”.
Apesar de tentativas do Evidências para ouvir os proprietários da fábrica, todos os contactos realizados não obtiveram respostas positivas.
Governador promete mão dura
Face à reincidência do caso e à alegada inoperância das entidades fiscalizadoras, o Evidências contactou o governador da Província de Sofala, Lourenço Ferreira Bulha, que assegurou que o Executivo Provincial irá actuar com rigor, caso as denúncias sejam confirmadas.
“Nós, como Governo Provincial, somos implacáveis com este tipo de práticas. A Lei do Trabalho não permite a contratação de menores de 18 anos. As empresas devem cumprir escrupulosamente a legislação. Sendo a empresa reincidente, isso reforça a necessidade de uma fiscalização mais profunda. Se os factos se confirmarem, haverá sanções severas”, afirmou o governador.



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