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Arão Valoi
Os acontecimentos recentes em várias regiões do País expõem, de forma crua e desconfortável, um fenómeno que já não pode ser ignorado: o esgotamento do modelo de governação do Partido Frelimo e a consequente erosão da empatia entre governantes e governados. As constantes vaias dirigidas a dirigentes municipais em Boane e na Matola e em outros pontos do País, a tentativa politicamente desastrosa de organizar uma marcha de saudação e exaltação governativa por ocasião da passagem do primeiro ano de governação do Presidente Daniel Chapo em plena tragédia das cheias em Gaza, bem como as reacções públicas à morte de figuras históricas e actuais ligadas ao partido no poder, são manifestações de uma crise profunda de legitimidade política, ética e simbólica. Não se trata de episódios isolados nem de simples excessos emocionais fomentados pelas redes sociais. O que está em curso é o colapso progressivo do contrato social, alimentado por anos de decisões erradas, corrupção persistente, falta de transparência e uma desconexão cada vez mais evidente entre o Estado-partido e o cidadão comum.
Em Boane, a Presidente do Conselho Municipal e o seu elenco foram vaiados quando visitavam zonas severamente afectadas pelas inundações. Na Matola, membros do Partido Frelimo enfrentaram igual hostilidade ao tentarem contactar comunidades alagadas. Estes acontecimentos não podem ser lidos apenas como actos de incivilidade ou intolerância política. Eles traduzem a rejeição de uma governação que surge apenas em momentos de crise, munida de discursos protocolares, fotos para a posterioridade, mas desprovida de respostas concretas. A política do gesto — visitas, fotografias e declarações vazias — perdeu eficácia num contexto em que o sofrimento é imediato, real e devastador.
Quando o povo perde casas, bens, colheitas e vidas, a presença simbólica sem soluções torna-se ofensiva. As vaias são, neste sentido, menos um ataque pessoal e mais um grito colectivo de frustração acumulada.
Ainda mais grave foi a intenção de organizar, em Gaza, uma marcha de “saudação” ao primeiro mandato de governação do Presidente Chapo num momento em que a província se encontra a ser fustigada por cheias severas. Trata-se de um erro político grosseiro, revelador de uma elite governativa incapaz de ler o contexto social e emocional do País. Celebrar o poder em meio à dor colectiva não é apenas um contrassenso político; é uma afronta moral que aprofunda a distância entre governantes e governados.
O caso das cheias é, aliás, sintomático de uma governação falhada. Apesar da existência de informação meteorológica antecipada, não houve comunicação eficaz às populações que residem em zonas de risco. Não se mobilizaram, de forma atempada, meios adequados para salvamento e evacuação. Pessoas ficaram isoladas em tectos de casas, aguardando socorro que não chegou a tempo. A logística de apoio revelou-se claramente insuficiente. Mais de 500 mil pessoas foram afectadas e mais de 62 mil casas inundadas. Estes números não são abstracções estatísticas: representam vidas interrompidas, traumas profundos e uma pobreza ainda mais agravada. O Estado falhou na prevenção, falhou na resposta e continua a falhar na assistência. Este fracasso não é meramente técnico; é político e estrutural, resultado de uma cultura de governação reativa, centralizada, opaca e pouco responsável perante o cidadão.
A morte de Luísa Diogo, antiga Primeira-Ministra e Ministra do Plano e Finanças, no dia 16 de janeiro de 2026, deveria ter sido um momento de reflexão serena sobre o seu percurso e o seu lugar na história recente do País. No entanto, o que se seguiu — a circulação de imagens e caricaturas desejando a morte de outras figuras históricas do Partido Frelimo — revelou um nível alarmante de degradação do espaço público e do debate político. Desejar a morte de pessoas, mesmo enquanto símbolos de um sistema contestado, é moralmente inaceitável e socialmente perigoso. Normaliza o ódio como linguagem política e desumaniza a vida pública. Ainda assim, limitar a análise à condenação moral seria intelectualmente insuficiente. É preciso compreender as causas profundas deste fenómeno.
Quando uma população se sente sistematicamente ignorada, explorada e traída, a empatia esvai-se. Os políticos deixam de ser percebidos como pessoas e passam a ser vistos como encarnações de um sistema opressor. A morte deixa de ser luto e transforma-se, perversamente, em catarse colectiva. Este processo explica, ainda que não justifique, o ambiente de hostilidade extrema que hoje marca o espaço público moçambicano.
A morte do empresário e político Pedro Mboene, arrastado pelas águas enquanto participava em acções de salvamento em Xinavane/Incoluane, representa uma tragédia dentro da tragédia. Um homem que colocou os seus próprios meios ao serviço das populações acabou por se tornar vítima das cheias. Ainda assim, foi vilipendiado por alguns sectores apenas por pertencer ao Partido Frelimo. Este episódio expõe uma fractura moral profunda: a incapacidade colectiva de distinguir o indivíduo do sistema político. Quando a filiação partidária se sobrepõe à humanidade, a sociedade entra numa zona ética perigosa, onde a justiça emocional substitui o juízo moral.
Todos estes episódios apontam para um problema central: a perda de legitimidade social do partido no poder. Governa-se formalmente, mas sem aceitação popular. Exerce-se autoridade legal, mas sem autoridade moral. Esta situação torna a governação não apenas ineficaz, mas estruturalmente frágil. Decisões tomadas em momentos errados, comunicação insensível, corrupção persistente e ausência de soluções estruturais vão condenando a governação a um ciclo de rejeição e descrédito. O povo clama por ajuda, mas desconfia — e muitas vezes rejeita — aqueles que, por dever constitucional e político, deveriam socorrê-lo.
A crítica severa à governação da Frelimo é, portanto, legítima e necessária. O cansaço governativo é real e manifesta-se nas ruas, nas comunidades e nas plataformas digitais. No entanto, esta crítica deve ser acompanhada de responsabilidade cívica. A desumanização do outro, o ódio indiscriminado e a celebração da morte não constroem alternativas políticas nem fortalecem a democracia. Pelo contrário, empobrecem o debate público e corroem os fundamentos éticos da convivência social.
Moçambique encontra-se num ponto de inflexão. Ou a governação se reinventa, recuperando a empatia, a transparência e a centralidade do cidadão, ou continuará a aprofundar a ruptura com o povo. Em paralelo, a sociedade precisa de transformar a sua indignação em acção consciente, ética e politicamente construtiva. Sem essa dupla transformação, o País corre o risco de normalizar a tragédia — natural, política e moral — como parte do seu quotidiano. E esse será, talvez, o mais profundo e duradouro fracasso colectivo.



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