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- Cidade de Maputo vive sua pior crise de abastecimento
- Cheias na África do Sul isolam farmas e comprometem abastecimento do sul de Moçambique
- Dependência da EN1 pode acelerar a inflação, alerta o economista Egas Daniel
- Vendedores classificam o cenário como o pior de que têm memória
- Transportadores retidos ao longo da EN1 denunciam falta de assistência
O agravamento das chuvas e das inundações na África do Sul, a par do que acontece em Moçambique, aliado à ruptura da Estrada Nacional Número Um (EN1) em vários pontos estratégicos, mergulhou a região sul do País numa crise logística e de abstecimento sem precedentes. A combinação destes dois factores, a interrupção do principal corredor rodoviário nacional e a paralisação parcial ou total das farmas sul-africanas que tradicionalmente abastecem o mercado moçambicano, está a provocar uma escassez generalizada de produtos alimentares nos principais mercados da cidade e província de Maputo, com destaque para o do Zimpeto, com impacto directo na segurança alimentar e no custo de vida em Maputo e arredores. Para especialistas, trata-se de uma crise que expõe fragilidades estruturais antigas e que poderá ter efeitos prolongados na economia nacional.
Edmilson Mate e Luísa Muhambe
O Mercado Grossista do Zimpeto, principal centro de distribuição de produtos alimentares para a capital e outros mercados do Sul do País, regista uma redução drástica da oferta, sobretudo de hortícolas, cereais, tubérculos, enquanto os principais talhos ressentem-se da escassez de carnes.
Muitos dos produtos que normalmente entram a partir da África do Sul deixaram de chegar ou chegam em quantidades limitadas, uma vez que várias farmas que abastecem as explorações agrícolas daquele País encontram-se inundadas ou com acessos condicionados.
A situação é agravada pelo corte da EN1, que impede igualmente a circulação regular de mercadorias provenientes de uma parte de Gaza e Inhambane e do Centro e Norte de Moçambique, tornando o sistema de abastecimento altamente vulnerável.
O Governo confirmou, através de monitorias recentes à situação de emergência, que a paralisação do fluxo de camiões provenientes das principais zonas de produção está a provocar uma subida acentuada e descontrolada dos preços nos mercados locais. A escassez de bens essenciais exerce forte pressão inflacionária sobre os consumidores, num contexto em que muitas famílias já enfrentam dificuldades agravadas pela época chuvosa.
Dados oficiais indicam que mais de 180 mil hectares de produção agrícola encontram-se inundados e que mais de 150 mil cabeças de gado foram perdidas em diferentes regiões do País. Com as machambas submersas e as vias de acesso interrompidas, o mercado da capital do País passou a depender quase exclusivamente de produtos importados ou de stocks remanescentes, frequentemente vendidos a preços especulativos.
Para as vendedoras dos mercados, o impacto das cheias deste ano supera o de crises anteriores. Com o início do ano lectivo iminente, a pressão económica torna-se ainda mais severa, uma vez que o rendimento das bancas, tradicionalmente utilizado para despesas escolares, praticamente desapareceu.
Cidália Munjovo, de 49 anos, vendedora no Mercado Central há 24 anos, descreve uma mudança profunda na dinâmica de vendas. Produtos como o coco que já não chega a Maputo, ido de Inhambane, por causa da interrupção da EN1, viu o seu preço disparar de 25 para 100 meticais a unidade.
“Tudo ficou debaixo de água na machamba. Quem consegue trazer alguma coisa aumenta logo o preço. Os clientes reclamam, mas acabam por comprar porque não se cozinha sem cebola ou coentro. Hoje, um molho de coentro custa 300 meticais. Em anos anteriores, mesmo com cheias, vendíamos mais porque havia procura. Agora não há dinheiro nenhum. Dependemos da banca para tudo, até para comprar o material escolar, mas as bancas estão vazias”, lamentou.
Assucena Mussagy, também vendedora no Mercado Central, fala de uma ruptura quase total na cadeia de abastecimento. Produtos antes considerados acessíveis, como coco e batata-doce, atingiram preços insuportáveis para a maioria da população.
“Manhiça está cheia de água. Tudo o que vem de lá, como batata-doce, feijão-verde, pimenta, repolho, está submerso. Quem arrisca trazer vende muito caro. Um coco já custa 100 meticais e uma bacia de batata-doce chega aos 800. Estamos a chorar porque o produto está caro e não há negócio, não há dinheiro”, contou.
Há crise de carne na capital do País
No sector das carnes, a situação não é diferente. Xavier Mandlate, vendedor no mercado Janete há oito anos, explica que a carne nacional praticamente desapareceu das bancas devido ao corte da EN1.
“A carne nacional não entra porque a estrada está cortada. Estamos a vender carne sul-africana, mas até essa chega com dificuldade. O guisado, que é o mais procurado, não temos. Quando há carência, o preço sobe. Até o carapau, que sempre foi o peixe mais barato, aumentou. O que comprávamos a 200 meticais agora está a 250. O rendimento é quase zero, mas ficar em casa não é opção”, afirmou.
Enquanto persistirem as inundações, a interrupção da EN1 e a dependência do abastecimento externo, sobretudo da África do Sul, a crise tende a agravar-se, deixando milhares de famílias expostas à escassez, ao aumento dos preços e ao risco real de insegurança alimentar prolongada.
“A carne nacional não há, não tem como entrar porque a estrada está cortada. Vendemos agora bife sul-africano, mas o guisado, que é o mais procurado, não temos. O preço subiu muito porque quando há carência, a tendência é subir; não podemos vender sem ganhar nada. Até o carapau foi a primeira coisa a subir. O carapau que você comprava a 200 meticais, agora acha a 250. O rendimento ultimamente não é nada, só trabalhamos para manter, mas ficar em casa não é possível,” afirmou.
Transportadores e passageiros ao longo da EN1 em condições degradantes
Para além do impacto comercial, vive-se um verdadeiro drama humano nas rodovias. Centenas de transportadores interprovinciais de carga e passageiros encontram-se retidos com produtos a deteriorar-se e pessoas a viverem em condições deploráveis, muitas vezes com apenas a roupa do corpo e sem dinheiro para se manterem por muito tempo.
Relatos indicam que muitos cidadãos enfrentam escassez de mantimentos e condições precárias enquanto aguardam pela descida do nível das águas ou por intervenções de emergência para que possam conseguir chegar ao seu destino. No caso de Gaza, o Governo alocou, esta segunda-feira, a embarcação Kanyaka, que partiu do cais da 10 de Novembro para Chongoene, em Gaza, transportando 20 toneladas de produtos alimentares diversos e no regresso transportará cerca de 150 a 200 passageiros para Maputo.
Falando ao Evidências, o presidente da Associação do Transportadores Interprovinciais, Rui Lissave, confirmou que vários operadores, junto de seus passageiros retidos, encontram-se a viver em condições difíceis.
“Para os carros que têm passageiros não temos como compensar a questão da alimentação porque não é da nossa capacidade, as pessoas são muitas”, disse, tendo esclarecido que não existe um levantamento exacto do número de veículos retidos, pois há autocarros e camiões provenientes de Chimoio, Tete e Nampula espalhados por diversos pontos de difícil acesso.
A paralisação das actividades resultou num cenário dramático tanto para quem está na estrada quanto para quem aguarda nos terminais. No terminal da Junta, por exemplo, os passageiros são obrigados a pagar até para fazer simples necessidades biológicas.
“Muitas pessoas estão retidas no terminal da Junta, em Maputo, desde a passada sexta-feira. Alguns, com maiores recursos, optaram por voos para regressar a casa, mas a maioria permanece no local”, disse.
As empresas de transporte estão a operar em situação de prejuízo acumulado, com frotas paradas e custos fixos mantidos: “Mesmo com os carros parados, as empresas enfrentam a pressão de ter de garantir o pagamento dos salários dos trabalhadores,” apontou.
O presidente da Associação garantiu que as empresas de transporte têm tentado a prestar assistência directa aos seus motoristas retidos, garantindo valores para alimentação, apesar das dificuldades logísticas.
Quanto à requalificação da estrada, Lissave defende que a N1 deveria ser construída com uma cota mais elevada, porque a estrada permanece num nível inferior ao necessário para permitir o escoamento das águas sem galgamento: “A estrada está mais embaixo do que deveria estar, o que causa sempre este tipo de dificuldade quando chove”, afirmou.
Apesar das perdas, Lissave garantiu que não haverá agravamento das tarifas de transporte para compensar os prejuízos. O presidente explicou que as tabelas são revistas apenas de cinco em cinco anos.
Economista alerta para pressão orçamental extrema sobre o Estado
Para o economista Egas Daniel, o país enfrenta um cenário de paralisia económica que coloca em risco as previsões de crescimento para o presente ano, afectando desde as grandes cadeias logísticas até à sobrevivência diária das famílias que dependem da economia informal. O impacto nas contas nacionais poderá tornar-se visível já no curto prazo, comprometendo a trajectória de recuperação económica que o país vinha a desenhar.
“As cheias constituem um choque negativo simultâneo, tanto do lado da oferta de bens e serviços como do rendimento das famílias. No curto prazo, estão a provocar interrupções na mobilidade laboral, perdas de dias de trabalho, danos em infra-estruturas — sobretudo de transportes — e uma redução significativa da actividade comercial. Por isso, o crescimento económico previsto para 2026, de pouco mais de 3%, embora positivo, corre o risco de ficar aquém do seu potencial, reflectindo uma recuperação interrompida em consequência destas cheias”, afirmou.
A interrupção da EN1, descrita pelo economista como o principal “vaso sanguíneo” do país, trouxe à superfície a fragilidade da dependência de um único eixo rodoviário. O corte desta via não só fragmenta temporariamente o mercado nacional, como também gera escassez localizada e eleva de forma acentuada os custos de transporte de alimentos e combustíveis.
“A EN1 funciona como o principal vaso sanguíneo de Moçambique, em que a Cidade de Maputo representa o coração e as restantes províncias os membros. O seu corte tem efeitos económicos relevantes ao fragmentar o mercado nacional, elevar os custos de transporte, atrasar o abastecimento alimentar e gerar escassez. Isto evidencia uma fragilidade estrutural: a elevada dependência de um único corredor rodoviário pode rapidamente precipitar um aumento da inflação homóloga, que até então se mantinha controlada, para níveis acima de 5%”, explicou.
As Pequenas e Médias Empresas (PME), que já operam num ambiente de negócios adverso e com margens financeiras reduzidas, surgem entre as mais afectadas. A interrupção das cadeias de fornecimento, aliada à quebra da procura diária, ameaça a viabilidade de muitos negócios. Para além do sector formal, o economista alerta para um risco real de perda de postos de trabalho, uma realidade que muitas vezes escapa às estatísticas oficiais, mas que compromete directamente o rendimento das famílias.
“As PME são particularmente vulneráveis, pois funcionam com margens financeiras baixas e elevada dependência da circulação diária de bens e pessoas. Num contexto em que o ambiente de negócios já é desfavorável, as cheias acabam por desferir um golpe adicional, afectando directamente a procura e interrompendo cadeias de fornecimento. Existe um risco real de perda de postos de trabalho; este fenómeno nem sempre surge de imediato nas estatísticas de desemprego, mas traduz-se numa deterioração efectiva das condições de vida”, alertou.
Para o Estado, o impacto é duplo: por um lado, a desaceleração da actividade económica reduz a arrecadação de receitas; por outro, as despesas associadas à resposta de emergência e à reconstrução pressionam um orçamento já limitado por uma dívida pública superior a 75% do Produto Interno Bruto (PIB). Como resposta estrutural de longo prazo, Egas Daniel defende a integração da resiliência climática na política económica, sugerindo que o país explore, com urgência, o transporte marítimo como alternativa para reduzir a exposição sistémica à EN1.
“As cheias impõem custos fiscais adicionais significativos num contexto em que a dívida pública se mantém acima de 75% do PIB e o espaço fiscal é reduzido. A principal lição económica é que a resiliência climática também é política económica. Moçambique precisa de diversificar os seus corredores logísticos e investir em infra-estruturas resilientes ao clima. É fundamental explorar outras modalidades de transporte, como o marítimo, que o país tem condições naturais para desenvolver”, concluiu.



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