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As inundações que afectam várias regiões de Moçambique estão a aprofundar a fragilidade da economia nacional e a agravar a já crónica escassez de divisas, alertam economistas. Para além da destruição de infra-estruturas e da quebra da produção agrícola, o fenómeno climático está a pressionar as projecções de crescimento, a segurança alimentar e o poder de compra das famílias, num cenário que poderá comprometer seriamente as perspectivas económicas para 2026.
Elísio Nuvunga
O Banco Mundial reviu em baixa a previsão de crescimento do País para 2,8%, menos 0,7 pontos percentuais em relação às projecções anteriores. Segundo o analista económico Dereck Mulatinho, “as inundações funcionam como um travão imediato, sobretudo pela destruição de capital fixo, como estradas e pontes, e pela paralisação da actividade produtiva no Sul e no Centro do País, agravada pela interrupção da circulação de mercadorias”.
Entre os sectores mais penalizados está a agricultura, considerada o “coração” da economia nacional. Dados preliminares indicam perdas superiores a 186 mil hectares de culturas e cerca de 150 mil cabeças de gado, um cenário que Mulatinho classifica como “desastroso”. O impacto estende-se aos sectores da logística e do comércio, com o isolamento temporário de Maputo do resto do país a provocar escassez de bens e subida acentuada de preços. Em locais como Magude, o combustível chegou a ser vendido no mercado informal a cerca de 200 meticais por litro.
Educação e saúde também sofrem com as cheias, com centenas de salas de aula e unidades sanitárias danificadas. A reconstrução exigirá recursos financeiros significativos, num contexto de severas limitações orçamentais.
Apesar das projecções oficiais de crescimento, as cheias de 2026 reforçam, segundo os economistas Dereck Mulatinho e Elcídio Bachita, a necessidade de acção coordenada entre o Governo, o sector privado e a sociedade civil, visando proteger a produção, garantir a segurança alimentar e preservar o poder de compra das famílias mais vulneráveis.
Ambos os economistas alertam para os desafios macroeconómicos, causados pela destruição de infra-estrutura e quebra de produção, que poderão aumentar a dependência de importações e sufocar os empresários, num contexto de escassez de divisas.
“As inundações agravam a crise de divisas porque aumentam a necessidade de importar alimentos e materiais de construção, ao mesmo tempo que reduzem a capacidade de exportação. O optimismo que marcou 2024 deu lugar a uma lógica de gestão de danos. Tudo dependerá da rapidez e eficácia das medidas de mitigação”, observa Mulatinho, alertando que novas revisões em baixa não podem ser descartadas.
O economista aponta ainda para os impactos sobre a segurança alimentar, num contexto em que estimativas indicam que cerca de 3,5 milhões de pessoas poderão enfrentar insegurança alimentar aguda em 2026.
No Sul, por exemplo, o preço do milho poderá atingir até 50% acima da média dos últimos cinco anos, tendência que se estende a outros produtos alimentares. Para mitigar os efeitos, Mulatinho defende medidas urgentes.
“A disponibilização de sementes para a segunda época agrícola e uma estratégia de reconstrução resiliente são fundamentais. Só para a reabilitação de infra-estruturas, o País poderá necessitar de mais de 600 milhões de dólares”, sublinhou.
Na esfera monetária, o Banco de Moçambique reduziu recentemente a taxa MIMO para 9,25%, numa tentativa de aliviar a pressão sobre o sistema financeiro, embora os efeitos dependam da resposta da banca comercial. Entretanto, o impacto social é particularmente severo no sector informal, onde a maioria dos operadores não dispõe de reservas financeiras.
“Com mercados inundados e cadeias de abastecimento interrompidas, o pequeno comerciante perde o stock e o cliente perde o acesso aos bens, o que pode agravar o desemprego urbano”, alerta Mulatinho.
Redução da oferta e os problemas logísticos geram pressões inflacionárias
Já na perspectiva de Elcídio Bachita, “as inundações terão repercussões negativas no tecido social e económico”. A destruição de campos agrícolas, sobretudo no Sul, compromete a rentabilidade dos camponeses, eleva os preços de alimentos e corrói o poder de compra das famílias mais vulneráveis.
“Os efeitos das inundações serão particularmente prejudiciais para os camponeses e agricultores, bem como para o sector privado, podendo traduzir-se em perdas significativas de rendimento e de capital produtivo”, acrescenta.
Bachita chama atenção para o sector informal, dependente de agricultura, comércio local e serviços, que sofre com a interrupção da EN1, reduzindo renda e acesso a clientes. Por isso que não tem dúvidas de que as inundações representam um risco significativo para a segurança alimentar da maior parte dos moçambicanos e para a estabilidade dos preços dos alimentos a curto prazo”. A redução da oferta e os problemas logísticos podem gerar pressões inflacionárias persistentes.
Quanto às soluções, Bachita defende apoio direto às famílias vulneráveis, linhas de crédito para micro e pequenas empresas, redução de encargos sobre produtores afectados e importações temporárias de alimentos para estabilizar preços. “O Governo tem capacidade de resposta, e o apoio externo complementa o desenvolvimento estrutural do país, sendo um instrumento estratégico e não um substituto da autonomia nacional”, reforça.
As políticas públicas prioritárias devem incluir reconstrução de infra-estruturas, apoio a camponeses e criadores de gado, sistemas de alerta precoce, drenagem urbana e controlo de doenças transmissíveis. Para o sector privado, Bachita recomenda “reforçar a resiliência económica, investindo em criatividade, inovação e sustentabilidade, apoiando comunidades e estabelecendo parcerias público-privadas”.
Bachita reforça que a “situação das cheias evidencia um cenário desafiador, agravado pelo problema crónico de divisas, que limita importações, dificulta o ambiente de negócios e sufoca os empresários”.



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