Share this
- FRELIMO pensa em renovação dos órgãos internos: debate promete ser acirrado
- Descobertas células fantasmas e informações inflacionadas sobre a base do partido
- Poderá haver uma vassourada nos órgãos da Frelimo no próximo Congresso
- Madalas não querem ceder lugar ao sangue novo e zanga já é visível nos bastidores
A FRELIMO está a viver um momento de grande debate interno, com a liderança do partido a promover uma proposta de mudança que pode ser histórica na composição dos seus órgãos. A antiga proporção de 60% de continuidade e 40% de renovação na composição de novos órgãos sociais e na distribuição de oportunidades poderá ficar no passado, ante uma proposta de 50% de renovação e 50% de continuidade, numa tentativa de equilibrar experiência e entrada de sangue novo. A iniciativa é liderada pelo secretário-geral Chakil Aboobakar, considerado o principal arquitecto desta estratégia, no quadro da preparação da Reunião Nacional de Quadros que terá lugar em Agosto, mas enfrenta resistência de membros mais antigos que temem perder espaço nas estruturas decisórias do partido.
Evidências
Fontes internas confirmam que a proposta está a gerar controvérsia, sobretudo na Comissão Política e no Comité Central, órgãos-chave que, até agora, têm concentrado a influência de dirigentes históricos. Caso a mudança seja efectivada, a expectativa é de uma verdadeira vassourada, com saída de antigos dirigentes e a entrada de novos quadros. A iniciativa não é bem acolhida entre os que ocupam cargos há décadas.
Apesar de a fundamentação principal ser de que a mudança visa revitalizar o partido, fontes internas esclarecem que o objectivo principal não é revitalizar, mas renovar os órgãos, retirando membros que se tornaram “pedras inamovíveis” e que, na prática, impedem a tomada de decisões e o dinamismo das estruturas, influenciando, inclusive na manutenção de dirigentes amorfos e improbos no Governo..
A renovação de 50/50 permitirá que membros antigos que permanecem há décadas em cargos decisórios cedam espaço, ao mesmo tempo em que a experiência de outros é preservada, garantindo um equilíbrio estratégico entre continuidade e inovação.
A resistência dos membros mais velhos é visível. Alguns dirigentes temem perder influência dentro da Comissão Política, que o Presidente da República e simultaneamente da Frelimo, Daniel Chapo, ainda não controla totalmente e que pode manter-se até ao Congresso de 2027, que muitos observadores consideram tardio, tendo em conta compromissos eleitorais de 2028 e 2029.
A se manter a composição actual das estruturas do partido até à segunda metade de 2027, o Presidente Chapo terá pouco tempo com poder de facto para olear a sua máquina executiva a ponto de construir um consenso positivo em torno da sua governação e os seus impactos até 2029.
A medida de renovação 50/50 pode representar um choque de interesses, pois altera a lógica tradicional de ocupação de cargos e força a entrada de lideranças jovens e comprometidas com decisões mais estratégicas.
O calendário interno rumo à reunião de quadros prevê reuniões de células, círculos e distritos para organizar a base e cadastrar membros activos, integrando também a assistência às províncias mais afectadas por desastres naturais. No entanto, a prioridade é a renovação dos órgãos internos, que deve reflectir a realidade do partido e garantir representatividade efectiva.
Muitos membros antigos, que resistem à mudança, são muitas vezes acusados de dificultar a implementação de decisões e de manter estruturas desactualizadas, comprometendo o funcionamento eficiente da FRELIMO. Atribui-se a este grupo, por exemplo, o facto de o Presidente da República não ter poder para, por exemplo, exonerar alguns governantes como aconteceu no ano passado com os casos do ministro Roberto Albino e a governadora Francisca Tomás.
Embora a medida provoque resistência e discussões acaloradas, dirigentes próximos a Chakil Aboobakar garantem que é uma decisão necessária para garantir o equilíbrio interno e preparar o partido para os desafios eleitorais futuros, incluindo eleições presidenciais, legislativas, provinciais e municipais.
A renovação dos órgãos internos, se implementada, permitirá maior dinamismo na tomada de decisões, mais representatividade da base real e um alinhamento mais directo entre a liderança do partido e o Presidente da República, reduzindo a influência de antigos dirigentes que resistem à mudança.
Há células fantasmas na Frelimo
O processo deverá ser discutido inicialmente no Comité Central de Março próximo, e posteriormente consolidado na Reunião Nacional de Quadros, prevista para Agosto. Esta reunião poderá ter o menor número de delegados de sempre, tendo como base as orientações que as províncias receberam para indicarem menos de 200 delegados cada.
Geralmente, os quadros nacionais da Frelimo reúnem-se num número entre três mil e e cinco mil delegados das 11 províncias do País. Tal medida de redução de delegados já está a ser interpretada internamente como uma tentativa de controlar o debate interno, limitando a influência de sectores que resistem à renovação e tentando assegurar que a discussão seja mais focada na implementação da nova directiva do que em disputas locais.
Suspeita-se que possam ser indicados delegados a dedo para evitar o debate interno.
O esforço de renovação também inclui a reavaliação de células, círculos. Em muitas províncias, os números anteriores de células e membros não correspondiam à realidade actual. Sem actualização há bastante tempo, descobriu-se que, afinal, algumas estão inactivas e sem nenhum membro efectivo, ou seja, havia células fantasmas e informações inflacionadas sobre a base do partido.
Neste momento decorre um processo de cadastro interno de quadros para aferir a efectividade de membros, tendo em conta que nos últimos anos houve uma série de abandono, sendo relatados casos em que todos, até os secretários das referidas células, abandonaram o partido.
A grande razia verifica-se sobretudo nas escolas e bairros emergentes, grupos que se têm mostrado mais resistentes à mobilização do partido nos últimos tempos. Igualmente, as crescentes crises na função pública e a ascensão de políticos como Venâncio Mondlane, com maior penetração entre grupos frustrados, podem ter contribuído para a inactivação de
células.



Facebook Comments