“Stop noise” a frase que explica Afungi, o Estado e o gás

OPINIÃO
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John Kanumbo

Chega das especulações. É assim que se quer apresentar Afungi neste início de 2026, um lugar onde o gás voltou, onde o investimento regressou e onde o debate público foi imediatamente delimitado. “Stop noise”, disse Patrick Pouyanné, CEO da TotalEnergies, como se duas palavras pudessem encerrar anos de violência, deslocamentos, medo e incerteza. Mas Afungi não se reduz a um slogan corporativo; é o território de Moçambique que respira as marcas da guerra e da esperança, e é aí onde o silêncio do poder se torna eloquente.

Daniel Chapo, minutos antes, disse que “antes da activação da força maior, os insurgentes haviam ocupado algumas vilas, incluindo Mocímboa da Praia. Neste momento, nenhuma vila está ocupada.” e que a força maior havia sido levantada. Frases simples, quase didácticas: antes, vilas tomadas; agora, vilas livres. Antes, suspensão; agora, retoma. A segurança foi apresentada como um dado adquirido, um resultado fechado. Nada sobre o trauma persistente, sobre as famílias que ainda vivem em deslocamento, sobre Palma, Mocímboa da Praia, Muidumbe, Macomia, Quissanga, que carregam cicatrizes visíveis e invisíveis. A segurança foi vendida como uma variável resolvida, quando, na realidade, é processo, experiência e vigilância contínua.

Quando questionado sobre garantias de que o projecto não voltará a ser suspenso, Chapo não falou de probabilidades nem de riscos futuros. Preferiu insistir na presença física em Afungi como prova suficiente. A sua mensagem implícita foi clara: se o Chefe do Estado está aqui, então o país está seguro. Esta lógica simbólica foi imediatamente reforçada por Patrick Pouyanné, que tratou a insistência da imprensa como ruído desnecessário. A presença substituiu o argumento, e a imagem substituiu o debate.

Por que o CEO do TotalEnergies precisou de dizer “stop noise”? A expressão inglesa significa chega de especulações, surgiu no momento exacto em que a narrativa oficial começava a ser testada. As perguntas não eram agressivas; eram previsíveis: E se a segurança falhar? Há garantias de que a força maior não volta? Pouyanné respondeu não com dados, mas com autoridade. “Stop noise” foi a resposta de quem não está ali para negociar versões, mas para impor um quadro de leitura: o risco já foi avaliado, a decisão já foi tomada, o tempo da dúvida acabou. Esta fala nasce de uma posição de força. A TotalEnergies não regressa a Moçambique por optimismo; regressa porque controla variáveis-chave segurança, financiamento, garantias soberanas e apoio político.

O que a TotalEnergies disse com “stop noise” é ainda mais explícito de que o investimento volta, a narrativa oficial é suficiente e o espaço para questionamento diminui. A mensagem é clara: quem controla o capital controla também a forma como se lê a realidade. Aqui, perguntas sobre riscos, dúvidas sobre a sustentabilidade social, questionamentos sobre reassentamentos são  tratados como um problema a eliminar. O poder económico impõe a sua definição de ordem, e o poder político valida. Afungi é agora palco onde essas forças se encontram e se complementam.

O discurso presidencial reforça esta lógica. Ao destacar que o projecto emprega cinco mil trabalhadores, que 80% são moçambicanos e que 40% vêm de Cabo Delgado, Chapo transforma números em argumento moral. Questionar o projecto passa a ser, implicitamente, questionar empregos, rendimentos e esperança. Quando se fala do reassentamento das 550 famílias, da construção de vilas modernas com serviços básicos, e da promessa de que Afungi será modelo para todo o país, percebe-se a dimensão simbólica da fala: não é apenas gás, é legitimidade, é Estado, é ordem sobre o caos passado. Temos essa experiência em Quitunda onde até hoje nada deu certo, as famílias estão perdidas e sem assistências básicas como vinham Anadarko e próprio TotalEnergies prometendo.

Mas é precisamente perceber o que não foi dito também define limites: não se falou de desigualdades entre Afungi e o resto da província, de reassentamentos incompletos, de tensões locais. Não se falou porque isso entraria em conflito com a narrativa do desenvolvimento controlado, com o “stop noise”. Aqui a filosofia política se impõe: o poder estabelece a verdade que interessa, e o silêncio imposto é tanto forma de autoridade como instrumento de gestão social.

Afungi ensina que a segurança visível e organizada não substitui a experiência vivida de quem sentiu o medo, a perda e o abandono. O gás voltou, os contratos estão assinados, as receitas prometidas, mas a prova do desenvolvimento não está nas cerimónias nem nas palavras dos líderes. Está na vida das pessoas, na justiça económica e social, na liberdade de questionar sem ser chamado de “ruído”. E é aí onde entra  a minha lógica a relatar apenas eventos e passa a decifrar significados: a voz que pede silêncio é também a voz que define o futuro.

O que escutamos em Afungi é uma lição clara: quando poder político e poder económico se tornam indistinguíveis, quando discursos institucionais e corporativos alinham-se em perfeição, o espaço público encolhe. O “stop noise” não é apenas uma ordem; é um código de leitura da realidade, uma filosofia prática do capital e da política. A pergunta que se impõe, então, é simples: quem decide o que é ruído, e quem pode falar no lugar de Afungi, Mocímboa da Praia, Macomia, Muidumbe, Quissanga e demais distritos?

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