Governo confirma cenário catastrófico em Gaza e admite risco iminente de fome

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  • 88% de Chókwè se encontra submerso, revela a administrador do distrito

Tal como o Evidências alertou na semana passada, a Província de Gaza, historicamente reconhecida como um dos motores agrícolas do país, enfrenta actualmente uma das mais graves crises humanitárias e económicas da sua história recente. As cheias que assolam o sul do país desde Janeiro último provocaram uma destruição sem precedentes no distrito de Chókwè, afectando cerca de 88% do seu território. Este cenário de devastação coloca em risco imediato o sustento de milhares de famílias e faz soar os alertas do Governo para uma crise alimentar iminente. O distrito, base da produção de arroz e cereais para o consumo nacional, viu 2.258 quilómetros quadrados de terra ficarem submersos, transformando campos de cultivo em extensas áreas de água estagnada.

Luísa Muhambe

A magnitude do evento superou as previsões mais pessimistas das autoridades. O administrador distrital de Chókwè, Narciso Nhamuco, destacou a natureza atípica deste fenómeno, em comparação com os registos históricos de 2000 e 2013.

“Estas cheias tiveram uma característica especial: chegaram a pontos que, em eventos anteriores, eram considerados seguros. É uma tragédia nova que não se compara com outras”, revelou.

O impacto humano é avassalador. Cerca de 170 mil pessoas foram directamente afectadas, sendo que mais de 55 mil encontram-se actualmente em centros de acolhimento improvisados. No sector agrícola, os números confirmam o colapso da actual campanha, com a perda total de 45.750 hectares de culturas.

“Estamos a falar de uma área que foi completamente comprometida. É aqui o grande celeiro de produção de arroz”, disse o governante.

A destruição do sistema de regadio de Chókwè, o maior do país, constitui a perda técnica mais grave. A paralisação desta infra-estrutura compromete tanto a produção agrícola como a drenagem do distrito.

“É o elemento mais fundamental. Circunda a cidade e o distrito e é a base da nossa subsistência. Sem ele, piorará também a situação de drenagem”, alertou.

O Governo admitiu ainda a urgência no fornecimento de sementes e insumos básicos à população afectada, para evitar uma dependência total da assistência alimentar.

“Sem isso, perderemos o auto-sustento”, advertiu o administrador.

Degradação da rede rodoviária agudiza o drama

A crise em Gaza e no resto do país é dramaticamente agravada pelo colapso da rede viária. Na noite deste sábado, 07 de Fevereiro, a circulação na Estrada Nacional Número 1 (N1), o único eixo que liga o sul ao norte do país, foi novamente interrompida na Cidade de Xai-Xai.

A abertura de uma cratera com cerca de sete metros, causada pela força das águas do Rio Nguluzane, cortou a comunicação terrestre, impedindo o fluxo de socorro, passageiros e bens essenciais. A Administração Nacional de Estradas (ANE) confirmou que a estabilidade do pavimento foi totalmente comprometida, forçando a suspensão imediata de todo o tráfego.

“O empreiteiro encontra-se no terreno a trabalhar com vista à reposição da transitabilidade e, assim que as condições estiverem reunidas, será anunciada a reabertura do tráfego”, lê-se na nota.

Este troço em Xai-Xai tornou-se símbolo da fragilidade das infra-estruturas nacionais. Havia sido reaberto provisoriamente apenas dois dias antes, a 06 de Fevereiro, após semanas de isolamento. Contudo, a infra-escavação provocada pelas cheias constantes anulou as reparações de emergência.

Desde o início da época chuvosa, em Outubro, cerca de 3.783 quilómetros de estradas e 14 pontes foram danificados em todo o território nacional, dificultando severamente a chegada de apoio humanitário a zonas críticas como Chókwè.

A economia local e nacional sofre impactos directos deste bloqueio. O sector social também está profundamente afectado. A educação enfrenta um cenário crítico, com 323 escolas danificadas em todo o país, sendo 84 apenas em Chókwè.

O administrador explicou que o isolamento das vias impede até a localização de funcionários públicos.

“Estamos a fazer o levantamento para localizar os professores, porque nem todos estão nos centros próximos das suas escolas, e muitas foram também afectadas”, revelou Narciso Nhamuco.

De acordo com dados do INGD, o balanço acumulado desde Outubro é trágico: 191 mortos e mais de 845 mil pessoas afectadas. A destruição agrícola nacional já atinge 440.906 hectares, com a perda irreparável de mais de 412 mil cabeças de gado.

Perante este cenário de alerta vermelho, o Governo reconhece que a assistência de emergência deve ser acompanhada por uma reconstrução viária urgente. Sem estradas, a recuperação agrícola torna-se impossível. Como advertiu Nhamuco, a sobrevivência das populações depende da capacidade de voltar a produzir e transportar.

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