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- Por suposta inaptidão, perseguições e incapacidade crónica de proactividade política
- Muchanga diz que “Ossufo Momade vai ficar nu” por ignorar a vontade popular
- Magumisse defende que o actual líder deve reconhecer a sua ineficácia e aceitar uma transição
A crise interna no maior partido da oposição atingiu um ponto de ruptura com declarações explosivas que colocam Ossufo Momade sob a mais forte pressão desde que assumiu a liderança da Renamo. Figuras de peso como António Muchanga e Alfredo Magumisse juntaram-se oficialmente aos desmobilizados e passaram a exigir a renúncia imediata do presidente do partido. O tom subiu de forma inédita, com Muchanga a prometer expor politicamente Ossufo Momade, afirmando que “quando chegar o momento, eu participarei para despir Ossufo Momade. Ossufo vai ficar nu. Sem biquíni, sem cueca, sem calção, porque o fato–macaco já teremos tirado”. Para os dissidentes, a permanência de Momade representa o aprofundamento do “afundamento” político da Renamo e o risco de irrelevância definitiva.
Evidências
O descontentamento, que vinha a crescer desde os resultados eleitorais de 2024, explodiu durante a 1.ª Conferência Nacional dos Desmobilizados e membros influentes da Comissão de Gestão do partido, realizada em Maputo. O encontro serviu não apenas para contestar a liderança, mas também para formalizar uma estrutura paralela que pretende forçar a convocação de um congresso extraordinário e redesenhar o futuro da perdiz.
No centro das acusações estão a má governação, a prática de tribalismo, perseguições internas a vozes dissonantes e uma incapacidade crónica de proactividade política perante os desafios do país.
O grupo de guerrilheiros que já vem contestando a liderança de Ossufo Momade contou nesta sexta-feira e sábado com um reforço de peso. António Muchanga e Alfredo Magumisse, que Ossufo Momade já chegou a acusar formalmente de serem os patrocinadores do movimento dissidente, deram as caras e assumiram protagonismo, dirigindo críticas direccionada ao presidente do seu partido
Muchanga acusa Ossufo Momade de ignorar o povo e promete o “despir”
António Muchanga elevou o nível do confronto ao afirmar que a liderança da Renamo ignorou deliberadamente os sinais vindos da base eleitoral desde 2023, quando, segundo ele, o próprio povo já rejeitava Ossufo Momade como candidato viável.
“O povo é que nos mandata. O povo, quando em 2023 estávamos a fazer campanha, dizia-nos: vamos dar-vos o voto, mas em 2024 não queremos Ossufo Momade, porque não vale para o povo moçambicano. E nós não quisemos ouvir. Fechámos os olhos. Eu fui muito insultado em 2024 porque apoiei Ossufo”, declarou.
Muchanga afirmou ainda que venceu eleições, mas foi prejudicado por decisões da direcção central, que, segundo ele, travaram mobilizações e manifestações que deveriam ter continuado.
“Eu fui muito apoiado em 2023. Ganhei eleições e fui roubado. Organizámos manifestações, mas a direcção do partido mandou-nos interromper, alegando que voltaríamos no ano seguinte, em 2024. Até hoje estou à espera da orientação do partido para continuar com as manifestações. Mas agora as eleições exigem pessoas com velocidade. Não possuindo velocidade, o nosso candidato às presidenciais acabou por nos prejudicar. Nós já tínhamos alertado que ele poderia continuar como presidente do partido, mas tinha de se encontrar outro candidato. Não se entendeu com Venâncio, não sei por quê. Nunca quiseram nos dizer a razão. Mas agora o povo já está a ver o que está a acontecer. Há muita coisa que eu poderia dizer, mas não vou dizer aqui, conforme prometi”, acrescentou.
Num dos momentos mais duros da sua intervenção, Muchanga prometeu um confronto político directo com Ossufo Momade, usando uma linguagem simbólica para ilustrar o que considera ser o desmascaramento da actual liderança.
“Quando chegar o momento, eu participarei para despir Ossufo Momade. Ossufo vai ficar nu. Sem biquíni, sem cueca, sem calção, porque o fato-macaco já teremos tirado. Quando chegar este momento, Ossufo não terá como: terá que escolher entre cobra mamba, espinhosa e parede. Terá que furar a parede pela cabeça”, garantiu.
Magumisse propõe transição suave para presidência honorária
Se Muchanga apostou numa crítica frontal, Alfredo Magumisse apresentou uma proposta que visa uma saída menos traumática, embora igualmente definitiva, para Ossufo Momade. O dirigente defende que o actual líder deve reconhecer a sua ineficácia e aceitar uma transição para o papel de conselheiro ou presidente honorário.
A posição baseia-se no que classifica como uma derrota eleitoral histórica, com a Renamo a passar de 60 para apenas 28 assentos parlamentares, tornando a manutenção do actual modelo de liderança politicamente insustentável.
“A democracia significa respeitar aquilo que a maioria diz. O partido sofreu uma derrota jamais vista. O presidente Ossufo tem de abrir espaço. Não é com violência, mas com um debate amplo. Ele deve conduzir a transição para que surja um novo líder capaz de trazer ar fresco ao partido”, defendeu.
O drama interno é também alimentado pela pressão dos desmobilizados, antigos combatentes que afirmam sentir-se abandonados e mal representados pela actual direcção nacional. Abdul Machava, porta-voz do grupo, foi enfático ao afirmar que a luta para afastar Ossufo Momade é justa e necessária para a salvação da Renamo.
“Estamos numa luta justa. O objectivo é encontrar um mecanismo para afastar Ossufo Momade, porque ele já tem de sair. Aquilo que for decidido aqui será seguido por todos”, declarou.



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