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- Adiar sucessão pode condenar o partido à nova derrota em 2029
- Ossufo Momade já anunciou que não vai se candidatar no Congresso de 2029
- Ala dissidente exige um Congresso extraordinário, mas escovas fincam pé
- Sucessor de Momade pode surgir tarde demais e RENAMO arrisca nova derrota
A RENAMO atravessa um dos seus momentos mais delicados desde a morte de Afonso Dhlakama. A imagem de um partido que já foi a grande alternativa política em Moçambique está a desfocar-se à medida que o relógio interno avança para um dilema quase cruel: embora o seu presidente, Ossufo Momade já tenha declarado que não se pretende recandidatar, o seu mandato termina apenas cinco meses antes das eleições de 2029, pois ordinariamente o novo Cogresso só poderá ser realizado no primeiro semestre daquele ano. Para muitos analistas e quadros do partido, essa janela estreita cria um problema estrutural: tempo insuficiente para lançar e consolidar um novo líder e candidato presidencial num momento em que a RENAMO já viu desmontar a sua posição tradicional como principal alternativa ao partido no poder.
Evidências
O epicentro desta tensão é o próprio calendário partidário. Reeleito em Maio de 2024 para um segundo mandato de cinco anos, Ossufo Momade garantiu a sua permanência à frente do partido até Maio de 2029, ou seja, apenas alguns meses antes das eleições gerais previstas para o mesmo ano. Para um partido que procura reinventar-se após a sua pior performance eleitoral de sempre em 2024, isso é um problema de proporções estratégicas.
Em Outubro de 2024, os moçambicanos assistiram a uma mudança tectónica no mapa político moçambicano. A RENAMO viu a sua influência diminuir drasticamente, caindo para terceiro lugar no escrutínio presidencial e parlamentar.
O partido que outrora ocupava a cenografia política como uma rocha constante passou a ser visto como espectador de si próprio, incapaz de construir uma narrativa que capture a imaginação de um eleitorado jovem e urbano cada vez mais disperso.
Ossufo Momade, conhecido pela sua apatia e momentos prolongados de ausência no cenário político nacional, enfrenta, neste momento, a par do seu partido um dos piores momentos em termos de popularidade. Em consequência disso, ganha cada vez mais relevo o movimento que contesta a sua liderança.
Embora já tenha declarado que não se pretende candidatar para mais um mandato, há uma grande opacidade em termos de timing, o que alimenta receios. À margem do último Conselho Nacional, realizado em 2025, em Nampula, declarou que não seria candidato e que queria deixar a liderança do Partido para os jovens.
“Tudo vai depender da decisão dos membros. Eu fui eleito. Vocês acompanharam nitidamente aquilo que aconteceu em Alto Molócuè. Eu tenho dito que no próximo Congresso eu não vou concorrer, vou deixar aos mais jovens para que possam continuar com este barco”, declarou na altura.
A lógica interna que perdura há décadas coloca automaticamente o presidente do partido como candidato presidencial. O receio é de que Ossufo Momade possa querer cumprir integralmente o seu mandato e que o novo candidato presidencial seja apenas encontrado faltando apenas cinco meses das eleições gerais, o que podia prejudicar ainda mais a Renamo.
Esta afirmação, embora clara, deixa espaço a interpretações: por um lado, sinaliza abertura à renovação e dá um horizonte de esperança à ala jovem do partido; por outro, acentua a tensão sobre quem realmente controlará a sucessão e se haverá tempo suficiente para preparar o sucessor antes das eleições de 2029.
Membros querem Congresso extraordinário
Esta perda de centralidade acende a disputa interna sobre quando e como escolher um novo líder. A partir de 2025, a pressão interna para antecipar a sucessão começou a ganhar forma. Quadros históricos, antigos combatentes e figuras mediáticas do partido começaram a questionar publicamente se a RENAMO deveria permanecer sob a liderança de Momade até 2029.
Neste contexto, a necessidade de um Congresso extraordinário tem sido levantada por sectores que não se conformam com a continuidade da liderança de Momade até ao final do mandato. Para esses críticos, só uma revisão urgente dos estatutos, e a consequente eleição de um novo presidente com tempo suficiente para construir uma plataforma política sólida poderá evitar que a RENAMO chegue ao ano eleitoral de 2029 ainda fracturada e tenha pouco tempo para “vender’ a imagem de um candidato forte a ponto de desafiar a hegemonia da FRELIMO e de outras forças emergentes, como o ANAMOLA.
Por outro lado, há sectores dentro do partido que defendem a manutenção de Momade como líder até ao fim do mandato. Para este grupo, antecipar a sucessão num Congresso extraordinário pode abrir espaço a disputas internas ainda mais profundas, diluindo as já limitadas energias do partido.
Nos últimos meses, as tensões entre Momade e um segmento crescente de membros da RENAMO transformaram‑se em confrontos políticos explícitos. Um dos símbolos mais visíveis dessa luta foi a suspensão do antigo deputado António Muchanga, um dos quadros mais conhecidos do partido, por alegadamente violar os estatutos ao criticar publicamente o presidente e apelar à sua saída. Esse episódio expôs fissuras profundas, com Muchanga e outros críticos afirmando que a liderança de Momade tem falhado em desenvolver um programa claro e eficaz para reposicionar a RENAMO no panorama nacional.
Paralelamente, outro veterano da RENAMO, Alfredo Magumisse, declarou publicamente que “não há condições” para que Momade continue a liderar o partido de forma eficaz, sugerindo que a sua permanência na presidência limita a capacidade da RENAMO de regenerar‑se politicamente.
Estas críticas têm vindo a alimentar uma narrativa interna de que a liderança não apenas resistiu a reformas necessárias, como também bloqueou uma renovação antecipada que poderia fortalecer o partido antes de 2029.
O contexto que alimenta estas preocupações é mais amplo e complexo. Nas eleições gerais de 2024, a RENAMO teve um desempenho considerado histórico em termos negativos, caindo para terceiro lugar no espectro partidário, depois de ser ultrapassada por outras forças emergentes no âmbito da oposição.



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