Rumo a uma sociedade perigosa

EDITORIAL
Share this
  • … compreender as causas da criminalidade não significa normalizar as consequências.

Cada época tem os seus desafios. E adiar a resolução de problemas que se revelam urgentes, no domínio da administração pública, pode tornar-se penoso a longo prazo. Novos problemas não esperam que os antigos sejam resolvidos para surgir; pelo contrário, acumulam-se, sobrepõem-se e, muitas vezes, nem sequer têm correlação entre si. O único ponto de intersecção é o sujeito da acção, o cidadão e o Estado. Vemo-lo no plano individual: quando negligenciamos a manutenção periódica de uma viatura, o custo da reparação, mais tarde, deixa de ser a solução de um problema isolado e passa a ser a soma de vários danos acumulados.

A vida colectiva não é diferente. Os problemas sociais não servem de desculpa para o subdesenvolvimento, mas a sua persistência torna-se consequência factual da ineficácia administrativa. Esta reflexão impõe-se perante a crescente anarquia que desafia qualquer autoridade na cidade de Maputo. Assistimos, aqui e ali, a reacções pontuais quando episódios escapam às câmaras dos smartphones, como se sucedeu na Costa do Sol, onde a edilidade se posicionou de forma imediata. Contudo, se a anarquia se extinguisse ali, poderíamos respirar de alívio. O que se verifica, porém, é a sua expansão silenciosa.

Do Zimpeto, Costa do Sol, Matendene ou Xiquelene às paragens mais populosas, multiplicam-se relatos de assaltos, furtos e agressões. As paragens e mercados informais transformam-se, ao cair da noite, em espaços de vulnerabilidade extrema. O simples acto de estacionar um carro tornou-se também um risco, há viaturas desmontadas em plena luz do dia, peças arrancadas e revendidas numa cadeia informal que todos conhecem, mas poucos ousam enfrentar. O fenómeno, que começou de forma discreta na Avenida 24 de Julho, espalhou-se até às zonas mais nobres da cidade, criando um sentimento generalizado de insegurança.

A criminalidade tem vítima fatais. A morte recente de Gervásio Zacarias, um jovem de 23 anos, esfaqueado durante o roubo do seu telefone, é um símbolo doloroso deste descontrolo. Quando um telefone vale mais do que uma vida, estamos perante a evidência de uma crise profunda, económica, social e ética. A fome, a falta de oportunidades e a incapacidade de o mercado de trabalho absorver a massa jovem constituem terreno fértil para o desespero. Contudo, compreender as causas não significa normalizar as consequências. A vitimização social não pode servir de justificação para o crime.

Há uma sensação crescente de que a autoridade se tornou reactiva, actuando apenas quando pressionada pela exposição pública. Enquanto isso, o crime organiza-se, aprende, reproduz-se. As manifestações que, em determinado momento, reforçaram a ideia de que “o poder reside em todos” acabaram por alimentar uma distorção perigosa, a normalização da desordem como forma de afirmação. O roubo, o assalto, o esfaqueamento e até o homicídio deixam de chocar com a intensidade que deveriam.

Se nada for feito de forma estrutural, a criminalidade deixará de ser um problema circunscrito a bairros específicos. A escola do crime, quando consolidada, não escolhe classe social. Torna-se ameaça pública transversal, atingindo também as elites que hoje se sentem distantes da realidade das periferias.

Cabo Delgado está logo ali como lembrança de que problemas sociais ignorados podem transformar-se em crises de grandes proporções. Ontem era a fome, hoje é a mesma fome que serve de fertilizante para o terrorismo. Maputo não pode trilhar caminho semelhante na sua própria escala urbana.

Governar é antecipar riscos e agir antes que se tornem incontroláveis. A segurança nas ruas não é negociável, é um imperativo do Estado. Reconhecer falhas de governação é necessário, mas mais urgente ainda é restaurar a autoridade legítima, criar oportunidades reais para a juventude e combater, com firmeza e inteligência, o avanço da criminalidade e da prostituição que ameaçam transformar Maputo numa sociedade cada vez mais perigosa.

Promo������o
Share this

Facebook Comments