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- Esqueceram a greve e dívidas das horas-extras para salvar uma vida
Num momento marcado por tensões laborais no sector da saúde, com médicos a reclamarem o pagamento de horas extraordinárias em atraso e a anunciarem paralisações, uma equipa médica do Hospital Central da Beira protagonizou um feito considerado notável na medicina moçambicana. Trata-se da remoção de um tumor de aproximadamente sete quilogramas na região traseira do pescoço de um paciente.
Jossias Sixpense, Beira
A intervenção cirúrgica, realizada na última terça-feira, mobilizou uma equipa multidisciplinar composta por 11 médicos cirurgiões e outros profissionais de saúde, num procedimento que durou cerca de cinco horas e exigiu elevado rigor técnico, coordenação e experiência clínica.
O paciente, identificado como Costa Jaime, convivia com a massa tumoral desde 2022. O tumor teve origem num quisto que, ao longo dos anos, foi crescendo progressivamente até atingir dimensões consideradas extremamente debilitantes. Durante mais de três anos, o paciente carregou o peso da formação, que limitava os seus movimentos, comprometia o seu bem-estar e afectava seriamente a sua qualidade de vida.
De acordo com informações da unidade hospitalar, a operação decorreu dentro do previsto e o tumor foi removido com sucesso, sem registo de complicações imediatas. Após a cirurgia, o paciente apresentou sinais positivos de recuperação. Visivelmente emocionado, Costa Jaime descreveu o momento como uma mudança radical na sua vida.
“Sinto-me um novo homem”, afirmou, referindo-se ao alívio sentido após a remoção da massa que carregou durante anos.
Especialistas de saúde consideram que intervenções desta natureza demonstram não apenas a capacidade técnica das equipas médicas nacionais, mas também o esforço contínuo do sistema de saúde em responder a casos clínicos de elevada complexidade, mesmo em contextos de limitações estruturais.
Contudo, o feito médico ocorre num momento particularmente sensível para o sector da saúde na cidade da Beira. Médicos residentes do Hospital Central da Beira anunciaram recentemente a suspensão do trabalho extraordinário por tempo indeterminado, exigindo o pagamento de horas extras em atraso há mais de dois anos e meio.
A decisão consta de uma carta dirigida à direcção da unidade sanitária, à qual o Evidências teve acesso. O documento é subscrito por cerca de 60 médicos, que denunciam a falta de pagamento dos serviços prestados em urgências, rondas de fim-de-semana e feriados. Segundo os profissionais, a dívida acumulada ultrapassa já os 30 meses, situação que classificam como insustentável.
Ainda assim, episódios como a complexa cirurgia realizada esta semana mostram que, apesar das dificuldades e das tensões com o sector, muitos profissionais de saúde continuam a garantir intervenções que devolvem esperança e qualidade de vida aos pacientes.



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