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Por: Elcídio Bachita*
1.Introdução
O presente artigo, debruça-se sobre as projecções do desempenho da economia nacional ao longo dos próximos 9 anos. Com o pensamento, pretende-se por um lado fazer uma abordagem holística e sectorial da estrutura económica de Moçambique no período entre 2026-2034.
Por outro lado, o documento faz igualmente a avaliação da economia do País, particularmente no que concerne aos principais indicadores macroeconómicos, nomeadamente, o PIB e a Inflação durante o período em alusão bem o seu impacto na vida dos moçambicanos. Farei adicionalmente uma Análise SWOT da nossa economia.
Por fim, falarei sobre a estrutura sectorial da economia para o período em análise, entre outros aspectos de maior relevo.
1.1 Recentes desenvolvimentos económicos e perspectivas
Os recentes desenvolvimentos indicam que nos últimos 5 anos, a economia nacional sofreu várias vicissitudes e foi dilacerada pela pandemia da Covid-19 que em 2020 provocou a desaceleração do Produto Interno Bruto na ordem percentual de -1,3%, marcando a sua primeira recessão em quase 3 décadas.
Os efeitos devastadores da Covid-19 paralisaram o comércio doméstico e internacional o que se traduziu num despedimento massivo de trabalhadores no sector privado bem como no informal. Tal situação, agudizou os níveis de pobreza e deteriorou o poder de compra dos moçambicanos.
Os ciclones que, de forma recorrente, têm afectado o país, bem como a persistência do terrorismo em alguns distritos do norte da província de Cabo Delgado, no Niassa e no distrito de Memba, na província de Nampula, têm contribuído significativamente para o agravamento das condições de vida da população, empurrando milhares de moçambicanos para situações de pobreza extrema.
A estes factores acrescem os efeitos nefastos das manifestações violentas no período pós-eleitoral, cujas consequências socioeconómicas se revelaram particularmente severas, superando, em determinados domínios, os impactos observados durante a pandemia da COVID-19 e mesmo os efeitos prolongados do conflito armado que marcou o país entre 1976 e 1992.
A tensão pós-eleitoral contribuiu para uma desaceleração do crescimento da economia nacional em 4,9% no quarto trimestre de 2024, refletindo um contexto de elevada incerteza política e institucional.
Estes factores concorreram, de forma inequívoca, para o agravamento das condições socioeconómicas da população, traduzindo-se no aumento expressivo do número de pessoas em situação de pobreza nos últimos anos. De acordo com dados estatísticos disponíveis até 2022, cerca de 65% da população encontrava-se abaixo da linha de pobreza, evidenciando a vulnerabilidade estrutural da economia e os desafios persistentes em matéria de inclusão social e desenvolvimento sustentável.
Paralelamente, no início do ano de 2026, o país foi severamente afectado por cheias e inundações de elevada magnitude, cujos impactos se revelaram devastadores e de difícil quantificação para o tecido económico, empresarial e social. Esta conjuntura adversa poderá comprometer de forma significativa as perspectivas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ao longo do primeiro trimestre do corrente ano.
A destruição de campos de produção agrícola, os danos registados na EN1 e noutras importantes vias de comunicação, bem como a deterioração de infraestruturas públicas e privadas, configuram constrangimentos relevantes à normal dinâmica produtiva e logística. Acrescem-se ainda os avultados prejuízos sofridos pelas micro, pequenas e médias empresas (MPME’s), com potenciais repercussões ao nível do aumento do desemprego, da redução da base tributária e do agravamento dos riscos fiscais para o Estado.
2. Análise SWOT da economia moçambicana
2.1 Strengths (Forças)
Localização geográfica
A estratrégica localização geográfica de Moçambique junto à costa oriental africana, ao longo do Oceano Índico, coloca o País numa posição vantajosa pois serve como caminho marítimo que se afigura fundamental para o comércio internacional, facilitando o escoamento das exportações do países do interland para as várias partes do mundo e as suas respectivas importações. O Índico conecta o País a mercados asiáticos (Índia, China e Japão) que são parceiros económicos e comerciais bastante estratégicos e por interligá-lo a outros países africanos bem como do Médio Oriente.
Demografia
Cerca de 80% da população moçambica tem menos de 35 anos e metade desta tem menos de 16 anos. A população jovem confere maior vantagem comparativa ao nosso pois, sendo o Homem um importante factor de produção, confere uma grande privilégio ao País para alcançar patamares altos de desenvolvimento.
Potencial em recursos naturais
Moçambique dispõe de um elevado potencial em recursos naturais, configurando um ativo estratégico relevante para a diversificação da base produtiva da economia e para o fortalecimento da capacidade exportadora de commodities.
A abundância desses recursos oferece amplas oportunidades para o desenvolvimento de sectores estruturantes, como a mineração, a agricultura e a energia, que podem funcionar como pilares do crescimento económico sustentável, da transformação estrutural da economia e da geração de rendimento ao longo da próxima década.
2.2 Weakness (Fraquezas)
Alta dependência em relação ao sector primário
A economia nacional é fortemente dependente da (agricultura e indústria extrativa) com um peso de 37.1% sobre o Produto Interno Bruto (PIB) em 2024. A agricultura emprega mais 75% da população moçambicana, especialmente a que vive nas zonas rurais. Contudo, é uma agricultura de subsistência e com baixa produtividade. Uma economia dependente da exploração de produtos primários (produtos agrícolas e matérias-primas como o gás, carvão, ouro, rubis, tantalites, entre outros) que não são processados internamente, tem poucas chances de registar um desenvolvimento económico harmonioso e sustentável.
Instabilidade macroeconómica e fraca capacidade financeira do Estado
Moçambique enfrenta desafios de instabilidade macroeconómica e uma capacidade financeira limitada do Governo para investir em infra-estruturas e serviços públicos.
Esses factores podem minar a confiança dos investidores, dificultar o acesso ao financiamento externo e interno, e comprometer a capacidade do Estado de fornecer serviços públicos essenciais tais como educação, saúde, acesso a água potável, dificultando a implementação de políticas de desenvolvimento de longo prazo .
Baixo nível de produção e produtividade
O baixo nível de produção e produtividade é uma fraqueza que limita o crescimento económico e a competitividade. Esta situação reduz a capacidade do País de gerar riqueza e empregos, afectando negativamente a qualidade de vida da população e a capacidade de competir nos mercados globais .
2.3 Opportunities (Oportunidades)
Terra arável
Moçambique possui 36 milhões de terra arável e fértil dos quais apenas 20% destes é que estão a ser explorados, possui paralelamente abundância de recursos hidrícos o que pode tornar o país auto-suficiente na produção de comida e acabar com a fome, tornando assim o País num grande exportador de commodities agrícolas.
Clima favorável para o Investimento Directo Estrangeiro
Apesar da tensão pós-eleitoral que abalou o país nos últimos 3 meses de 2024 e os primeiros 2 meses de 2025, Moçambique continua a ser um país estável sob ponto de vista económico e político. A sua localização geográfica com uma costa banhada pelo Oceano Índico bem como a existência de enormes quantidades de recursos naturais e os avanços visíveis no combate ao terrorismo tornam o País apetecível ao investimento directo estrangeiro.
Abundância de recursos hídricos
A abundância de recursos hídricos como rios e lagos oferece imensas vantagens para a prática da agricultura, pesca, cabotagem marítima e exploração de hidrocarbonetos, particularmente o gás natural e o petróleo, o que poderá impulsionar o desenvolvimento e criar mecanismos para a diversificação económica.
2.4 Threats (Ameaças)
Calamidades naturais
As calamidades naturais como cheias, inundações, ciclones e secas afectam adversamente o desempenho da economia nacional pois destroem culturas diversas, infra-estruras sociais e económicas como escolas, hospitais, fontanários de abastecimento de água, estradas, pontes, linhas-férreas, infraestrutura de fornecimento e transmissão de energia eléctrica. As suas consequências têm sido devastadoras pois além de provocar pressões inflacionários na economia, reduzem as perspectivas do crescimento do PIB, comprometem a arrecadação de receitas e aumentam a despesa pública, colocando pressão sobre as finanças públicas.
Influência dos choques económicos e decisões políticas internacionais
A influência dos choques económicos e decisões políticas internacionais como políticas tarifárias proteccionistas e ambições expansionistas de algumas das maiores potências económicas mundiais são uma ameaça à estabilidade económica e política do País, devido à sua capacidade de afectar negativamente a economia e as relações internacionais.
Esses eventos podem causar instabilidade nos mercados financeiros, reduzir o investimento estrangeiro, afectar as exportações e importações. Estes factores podem estremecer a estabilidade macroeconómica do País.
3. Estrutura sectorial da economia moçambicana e sua contribuição no PIB 2026-2034
A economia nacional apresenta baixa transformação estrutural, sendo fortemente dependente de mega-projectos ligados à exploração de recursos naturais, como o alumínio, o carvão mineral e o gás natural liquefeito. Contudo, esta dependência agrega pouco valor à economia, uma vez que a transformação das matérias-primas não ocorre, em grande medida, no território nacional.
Neste contexto, torna-se imperiosa a adopção de políticas e medidas estruturantes que promovam a industrialização e o processamento interno dos recursos naturais, com vista a reverter este cenário desfavorável para o país a médio e longo prazo, aumentando a geração de valor, o emprego e a diversificação da base produtiva.
A Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025-2044, apresenta planos estruturantes e arrojados para impulsionar o crescimento económico do país, dentre os quais podemos destacar o pilar número 2 que diz respeito a Transformação Estrutural da Economia que tem como pano de fundo reverter o actual cenário e estabelecer equilíbrio entre os 3 sectores da economia (primário, secundário e terciário) por forma a que os três contribuam de forma equitativa no desenvolvimento, apostando fortemente na industrialização e transformação das matérias-primas.
Contudo, essa transformação da economia deve ser suportada por um investimento massivo na educação, especialmente no ensino técnico e profissional, na ciência e na tecnologia que deveão catapultar os primeiros dois sectores e reduzir a dependência externa aproveitando o dividendo demográfico do país que conta com 80% da população jovem que necessita de se capacitar com vista a ser mais competiva e capaz de explorar as suas próprias riquezas.
Estrutura sectorial da economia em percentagem do PIB.
Tabela 1
Fonte: MPD-ENDE 2025-2044
A tabela mostra a distribuição esperada do PIB pelo sector e deverá se registar uma transição duma economia agrícola e de exploração de matérias-primas para uma economia industrial e virada para os serviços. A tabela indica uma redução da contribuição do sector primário (incluindo GNL) que passará de 40% no primeiro quinquénio (2025-2029) para 38% no segundo (2030-2034). No período em análise verificar-se-á uma evolução significativa do sector secundário de 13% no primeiro quinquénio para 16% no segundo. No período em alusão espera-se um abrandamento da indústria dos serviços de 47% para 46%, respectivamente.
4. Crescimento económico
A expectativa é que o Produto Interno Bruto (PIB) do país registe de 2,8% este ano e um crescimento médio anual de 4,58% de 2027-2029 e de 7% de 2030-2034. Este crescimento deverá ser impulsionado pelos sectores primário e terciário no primeiro quinquénio e sectores primário e secundário no segundo caso, respectivamente. A mecanização da agricultura , a capacitação dos produtores bem como o investimento em infraestruturas de transporte para ligar as zonas de produção aos mercados poderão aumentar a produção e o consumo mas também aumentar o volume de exportações agrícolas no período em alusão. A indústria transformadora deverá desempenhar um papel de maior relevo no crescimento do PIB.
Gráfico 1
Nos próximos 9 anos perspectiva-se que Moçambique seja uma economia de renda média com um PIB per capita de USD 951,71 no intervalo de 2026 a 2029 e de USD 1000.00 em 2030 a USD 1241.00 até 2034, como corolário da mitigação dos efeitos da Lei de Dimuição de Retornos na agricultura, onde o país passará a registar uma evolução progressiva em termos da mecanização da actividade agrícola por parte dos produtores, podendo os mesmos contar com o apoio governamental e dos parceiros de desenvolvimento.
O Programa Energia para Todos cujo o principal objectivo é garantir o acesso universal à energia até 2030 deverá jogar um papel fundamental nesse sentido. A universalização do acesso à energia poderá constituir um factor determinante para a modernização do setor produtivo, ao permitir que os produtores adotem sistemas de irrigação mais eficientes e tecnologicamente avançados. Tal dinâmica dependerá, contudo, de um reforço do investimento público em infraestruturas rurais, particularmente no que se refere à expansão do acesso à água, elemento essencial para o aumento da produtividade agrícola e para a promoção do desenvolvimento sustentável no meio rural.
O PIB per capita será igualmente impulsionado pelo investimento estatal no ensino técnico e profissional nos níveis básico, médio e superior, dotando os moçambicanos especialmento os jovens do saber fazer o que vai facitar a sua inserção no mercado de trabalho bem como permitir que os mesmos possam gerar os seus próprios empregos, contando com o suporte do Governo para aceder ao crédito, através do Fundo do Desenvolvimento Económico Local.
A melhoria dos indicadores na saúde também é um elemento a ser tomado em consideração para que o País se torne uma economia de renda média ao longo dos próximos anos. O PIB per capita é uma métrica bastante relevante para avaliar a saúde económica de qualquer nação, pois ele toma em consideração o rendimento por pessoa e não de um modo global tal como acontece com o PIB principalmente numa economia como a nossa que é dominada pela indústria extrativa.
5. Comportamento dos preços 2026-2034
Os mega-projectos na indústria mineira e de hidrocarbonetos no País embora estes sejam de capital intensivo vão absorver um número significativo da mão-de-obra nacional. A emergência de micro, pequenos e médios empresários vai propiciar uma maior circulação da moeda na economia o que poderá vir a impactar o nível geral de preços de bens e serviços (inflação). As calamidades naturais e a prevalência do terrorismo em alguns distritos de Cabo Delgado e Niassa assim como a volatilidade dos preços dos combustíveis no mercado internacional e os conflitos geopolíticos também são factores que poderão concorrer para a subida dos preços na economia nacional.
Dados do PESOE 2026indicam que a inflação média anual poderá ser de 3,7% este ano. Assim, pode se vaticinar uma subida moderada dos preços de bens e serviços durante o ano de 2026 podendo ir 5% devido a persistência de conflitos no Médio Oriente (Israel e Palestina) e na Europa do Leste (Rússia e Ucrânia), guerras comerciais EUA, Europa, China e Índia, tensão Irão-Israel-EUA e, segundo a ENDE 2025-2044 a inflação média anual será de 2,9% de 2027 a 2029 e 2,6% de 2030 a 2034, respectivamente.
Gráfico 2
6. Política fiscal e os seus desafios
A política fiscal de Moçambique está em processo de consolidação contínua. Os instrumentos que compõem a Política Fiscal são: A Dívida Pública, a Despesa Pública e a Tributação. O foco do Governo deve incidir na gestão criteriosa dos recursos públicos para promover a estabilidade e crescimento económico, financiar políticas públicas e garantir a sustentabilidade da dívida pública. A política fiscal do país é caracterizada por uma baixa arrecadação de receitas fiscais o que tem comprometido a materialização de alguns projectos de desenvolvimento, especialmente no tocante aos sectores sociais e económicos tais como a agricultura, educação e saúde, provisão de água, construção e reabilitação de vias de acesso, ferrovias, entre outros. O elevado encargo com as despesas de funcionamente que actualmente consomem perto de 90 % do orçamento alocado faz com que o Governo fique com poucos recursos para investir em projectos sociais e económicos estruturantes.
O outro elemento que caracteriza a política fiscal moçambicana tem a ver com a elevada dívida pública (interna e externa) que actualmente se situa nos 76% do PIB o que não permite que o Estado poupe recursos para investimento. O uso de divisas em moeda externa para a amortizacoa da dívida pública pelo Governo pode ser um dos catalisadores da escassez de divisas em moeda externa na economia, aliada a um baixo nível de exportações e desequilíbrios na balança comercial, sem descurar o comportamento nada abonatório por parte dos bancos comerciais que de forma deliberada açambarcam e congelam as divisas exacerbando a situação da sua exiguidade na economia. Para garantir a sustentabilidade fiscal, o governo deve levar a cabo acções mais arrojadas de combate à fuga ao fisco, reduzir a informalidade da economia, equilibrar as despesas de financiamento com as de investimento, reduzir o nível de isenções aos mega-projectos e implementar medidas com vista a assegurar a sustentabilidade da dívida pública. O Governo deve igualmente recorrer à contratação de empréstimos concessionais no mercado financeiro internacional com taxas de juro bonificadas com longos período de graça e de maturidade por forma a não pressionar as finanças públicas.
7. Desafios para o País
Precariedade de infraestruturas
A inexistência e a degradação acentuada das vias de acesso e energia deficitária, têm sido um dos maiores entraves para o desenvolvimento harmonioso da economia e de atracção de investimento . A ausência de uma estrada alternativa à N1 bem como a inexistência de uma linha- férrea que ligue o Sul do País ao Norte tem sido um dos principais calcanhares de Aquiles para o comércio doméstico, facto que tem contribuído para a instabilidade de preços de bens e serviços no país.
Explosão demográfica
O crescimento exponencial da população moçambicana na ordem de 2,5% ao ano é um desafio para as autoridades pois o mesmo não é acompanhado pelo rítimo de desenvolvimento económico. Actualmente Moçambique tem uma população de 34 milhões de habitantes e, até 2044 o País terá uma população de cerca de 50 milhões de habitantes.
Este crescimento tem sido responsável pelo aumento do número da população pobre em Moçambique.
Baixa qualidade da mão-de-obra
A baixa qualificação da mão-de-obra nacional e o acesso limitado à tecnologia são desafios que precisam ser superados para aproveitar o potencial da população jovem e economicamente activa.
Acesso ao crédito
As altas taxas de juro praticadas pelos bancos comercias também são um obstáculo para o desenvolvimento particularmente das PMEs pois concorrem para o aumento dos custos de produção o que também limita a capacidade produtitiva do sector privado provocando o encarecimento dos bens e serviços.
*Elcidio Bachita é um economista moçambicano, Licenciado em Economia pela Universidade de Pune, na Índia e Mestre em Administração de Empresas (MBA) pela Universidade de Suffolk, no Reino Unido



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