Moçambique aos 50: Hora de Reformar o País e a Nós Mesmos

OPINIÃO
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Nilza Dacal

A 25 de Junho de 2025, Moçambique celebra 50 anos de independência. Meio século se passou desde que, com coragem e sacrifício, homens e mulheres jovens, sob a liderança de figuras como Eduardo Mondlane e Samora Machel, libertaram o país do jugo colonial português. Foi uma vitória política, militar e moral, que marcou o nascimento da nossa soberania e a promessa de um destino moldado pelas nossas próprias mãos.

Contudo, após cinco décadas, essa soberania enfrenta desafios internos que comprometem o sonho de uma nação justa, inclusiva e próspera. A independência foi uma conquista essencial, mas insuficiente. A verdadeira libertação não se resume à autonomia política, ela se mede pela capacidade de garantir dignidade, justiça e oportunidades para todos os moçambicanos.

Desde os Acordos de Paz de Roma, em 1992, a democracia consolidou o voto como expressão da vontade popular. Votar é um pilar fundamental, mas, por si só, não transforma realidades. A alternância política não basta para superar a exclusão, a má governação, o clientelismo e as desigualdades. Moçambique, aos 50 anos, carece não apenas de vontade política, mas de uma visão estratégica de longo prazo, comprometida com o bem colectivo e imune às tentações do imediatismo e do poder efémero.

Neste marco histórico, proponho um pacto nacional de desenvolvimento: um plano estratégico, participativo e transversal, com metas claras, mensuráveis e obrigatórias. Esse plano deve nascer da escuta activa de todos os sectores da sociedade – jovens, camponeses, académicos, empresários, trabalhadores informais, líderes comunitários e, sobretudo, as vozes das províncias historicamente marginalizadas. Deve reflectir as aspirações genuínas do povo, priorizando o interesse colectivo acima das ambições das elites.

Nações como China, Singapura, Botswana e Vietname demonstram que o progresso sustentável resulta de lideranças unidas por objectivos comuns, capazes de transcender divisões partidárias e manter uma visão estratégica de longo prazo. A China destaca-se pela execução consistente de planos nacionais, como os Planos Quinquenais, que garantem continuidade nas políticas de desenvolvimento económico e social, independentemente de transições políticas. Em Moçambique, no entanto, a descontinuidade predomina: sucessivos governos redefinem prioridades, interrompem políticas públicas e descartam iniciativas anteriores, desperdiçando recursos, tempo e, sobretudo, a confiança do povo. A solução reside na adopção de um plano nacional de longo prazo, juridicamente vinculativo, fundamentado em legislação robusta e sustentado por mecanismos independentes de monitoria e avaliação. Esse plano deve assegurar coerência e continuidade, protegendo a visão de futuro contra mudanças políticas ou lideranças menos comprometidas.

O plano nacional de desenvolvimento deve priorizar investimentos sustentáveis em áreas estratégicas para construir um Moçambique mais justo, próspero e resiliente. A educação de qualidade, acessível a todos, deve ser a base do progresso, capacitando cidadãos para impulsionar o desenvolvimento humano e económico. A saúde universal é essencial, garantindo o bem-estar da população e elevando a produtividade nacional. A inclusão de mulheres e jovens deve ser uma prioridade, com políticas que combatam desigualdades estruturais e promovam equidade de oportunidades. O fortalecimento das instituições judiciais é crucial para assegurar justiça, transparência e confiança no Estado de Direito. A governação baseada nos princípios da ética e boa governação deve ser o alicerce de todas as acções, promovendo a integridade, a accountability e a participação cidadã na tomada de decisões. Por fim, a gestão responsável dos recursos naturais deve ser o motor de um crescimento económico sustentável, preservando o meio ambiente para as gerações futuras e maximizando os benefícios para o povo moçambicano.

Reformar as instituições do Estado é necessário, mas será sempre insuficiente se não for acompanhada por uma profunda transformação da cultura cívica. A corrupção, por mais estrutural que pareça, alimenta-se de uma mentalidade que tolera o abuso de poder, o favoritismo e a impunidade como práticas normais. Romper com essa cultura exige mais do que leis, exige consciência, coragem e um compromisso colectivo com a integridade. Cada moçambicano precisa olhar para si e fazer uma reflexão séria: qual é o meu papel na construção de uma nação íntegra? Estou disposto a recusar vantagens injustas, a questionar comportamentos que corroem a confiança pública, a agir com responsabilidade mesmo quando ninguém está a ver? A verdadeira mudança começa no interior de cada indivíduo, na escolha consciente de viver com ética, todos os dias.

Essa é, sem dúvida, a reforma mais difícil, porque não depende de decretos, mas de transformação pessoal. No entanto, é também a mais essencial para construirmos um Moçambique justo, resiliente e próspero. O maior desafio da nossa geração já não é apenas reformar o Estado: é reformar a mentalidade. É despertar uma cidadania lúcida, activa e comprometida, que recuse o silêncio cúmplice, que denuncie as injustiças, e que participe, com determinação, na construção diária de um país melhor. Se a independência política foi conquistada pelos heróis da libertação, a emancipação ética e social depende, agora, de nós. De cada gesto, de cada escolha, de cada cidadão que decide fazer da integridade o seu modo de estar. Porque o futuro de Moçambique será tão digno quanto a consciência do seu povo.

Comemorar o jubileu de ouro da independência de Moçambique vai muito além de relembrar datas ou exaltar heróis. É um momento de introspecção nacional, de reacender os valores que alimentaram a luta pela liberdade, coragem, unidade, justiça e sentido de missão e traduzi-los em acções tangíveis que moldem um futuro digno para todos. É transformar a política num verdadeiro exercício de serviço público, rompendo de forma definitiva com o ciclo de promessas não cumpridas e decisões orientadas por interesses pessoais. Acima de tudo, é reconhecer que o destino de Moçambique não repousa exclusivamente nas mãos dos líderes eleitos, mas sim na responsabilidade partilhada de um povo inteiro. Cada cidadão, em cada gesto quotidiano, tem um papel insubstituível na construção de uma nação mais justa, inclusiva e resiliente.

Se quisermos que os próximos 50 anos superem os desafios e limitações do passado, é imperativo agir agora com lucidez, coragem e determinação. Precisamos de reacender a chama da transformação, não com discursos apenas, mas com práticas concretas, compromissos firmes e uma ética de responsabilidade comum. A independência foi conquistada com sacrifício. A paz, consolidada com perseverança. O desenvolvimento, por sua vez, será a vitória da maturidade colectiva, da renúncia à dependência de soluções externas e da escolha consciente de construir, juntos, um Moçambique renovado, íntegro e verdadeiramente nosso.

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