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Arão Valoi
Há epidemias silenciosas que não precisam de vírus nem de microrganismos para devastar uma nação. Bastam a permissividade do Estado, a ganância dos comerciantes e o abandono absoluto das estruturas de protecção social. O “Xivotxongo”, essa amaldiçoada bebida alcoólica barata que se espalha como praga nos bairros suburbanos e zonas rurais de Moçambique, não é apenas uma tragédia de saúde pública: é o espelho cruel de um País onde a vida humana já não tem valor, onde a juventude é deixada à própria sorte e onde a dignidade do povo é vendida ao preço de uma garrafa de miséria.
Não sei, ao certo, a origem do termo “Xivotxongo”. Sei apenas o que representa: bebidas espirituosas de fabrico duvidoso, de baixo custo e alto teor alcoólico, distribuídas à margem de qualquer controlo sanitário, económico ou moral. Vendidas abertamente em mercados informais, barracas improvisadas, carrinhas de caixa aberta ou até em frente às escolas, estas bebidas são consumidas por crianças, adolescentes, adultos e idosos, num ritual suicidário colectivo que parece não incomodar aqueles que se proclamam guardiões da Nação.
A pergunta que se impõe — com urgência e fúria — é simples: como é possível que o Estado permita, com a mais fria indiferença, a proliferação deste veneno entre os seus cidadãos? Onde está o Ministério da Saúde, que se vangloria de campanhas contra o tabaco, mas ignora o álcool que destrói mentalidades e famílias inteiras? Onde estão as autoridades municipais e distritais que fecham os olhos enquanto bairros inteiros mergulham num delírio etílico quotidiano? Onde está a Polícia da República de Moçambique (PRM), a Polícia Municipal (onde se aplica) que estão sempre prontas para reprimir vendedores ambulantes de tomates, mas incapazes de interditar os vendedores de morte líquida?
O “Xivotxongo” é o sintoma de um Estado falhado. Um Estado que já não cumpre a sua função primordial: proteger a vida. Estamos perante um colapso ético e institucional que se expressa na normalização da barbárie. O consumo, em larga escala, destas bebidas está directamente ligado ao aumento de casos de violência doméstica, agressões nas escolas, abandono escolar, surtos de doenças mentais, aumento da delinquência juvenil, e até violações sexuais cometidas até por menores, tal como os recentes episódios testemunhados em algumas escolas na Província de Maputo. Trata-se de uma regressão civilizacional induzida, catalisada pela ausência de regulação e de políticas públicas eficazes.
Mas não nos enganemos. A continuidade deste flagelo não se deve apenas à negligência. Em muitos casos, ela é alimentada por conivência criminosa e corrupção institucionalizada. Os produtores e/ou distribuidores deste álcool adulterado não operam nas sombras. Estão à vista de todos. E a sua impunidade é garantida por redes de protecção alimentadas pelo silêncio das autoridades e cumplicidade de toda a sociedade. Há quem enriqueça com a miséria alheia — e o mais revoltante é que o Estado, em vez de intervir, parece inclinar-se como cúmplice diante do lucro sujo.
Quantas vezes ouvimos dirigentes exaltarem a juventude como “força motriz da nação”? Que força é essa, senhores governantes, se não conseguem garantir sequer a sobriedade física e mental dos jovens? Que tipo de País se constrói quando as crianças já experimentam álcool aos 12 anos e aos 15 já estão dependentes de substâncias vendidas ao preço de oferta? A juventude está a ser intoxicada, desumanizada, incapacitada. E a resposta do Estado é o silêncio. Um silêncio cúmplice. Um silêncio mortal. Será isto propositado?
Não nos iludamos com campanhas esporádicas ou iniciativas cosméticas de “educação sobre álcool”. O problema do “Xivotxongo” não se resolve com cartazes ou seminários financiados por doadores. Exige acção musculada, legislação rigorosa, fiscalização implacável, responsabilização criminal. Exige coragem política. E, infelizmente, essa é uma moeda escassa nos corredores do poder no nosso belo Moçambique.
O mais paradoxal é que vivemos numa era em que o Estado se apresenta como promotor do “desenvolvimento sustentável”, defensor dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), parceiro internacional na luta contra a pobreza. Como se pode falar de desenvolvimento quando não há investimento sério na juventude? Como se pode erradicar a pobreza se os pobres são mantidos entorpecidos por bebidas que os impedem de sonhar, planear, trabalhar e resistir?
Pior ainda, estamos a assistir à normalização do absurdo. Professores que lidam com alunos alcoolizados, pais que já não conseguem impor autoridade porque os filhos estão permanentemente embriagados, clínicas sem meios para tratar distúrbios mentais provocados pelo consumo de álcool adulterado, mulheres que ficam sem maridos porque estes estão incapacitados de exercer as suas responsabilidades sociais devido ao permanente estado de embriaguez. Um País em coma etílico, sem políticas de emergência, sem rumo, sem futuro.
E neste cenário de apatia institucional, o “Xivotxongo” assume-se como o símbolo da rendição. Rendição do Estado, da sociedade e das consciências. Porque não basta culpar os vendedores, nem apenas os consumidores. O problema é estrutural. É político. É sistémico. E a sua manutenção revela o grau de falência do pacto social que deveria unir governo e povo. É preciso, com urgência, um grito de revolta nacional. O povo não pode continuar refém de um modelo de governação que sacrifica vidas em nome da indiferença. Não podemos aceitar que crianças com futuro promissor sejam transformadas em sombras ambulantes, incapazes de raciocinar ou resistir, por culpa de um sistema que se recusa a intervir.
O “Xivotxongo” tem de ser banido. E com urgência. Mas mais do que isso: é preciso desmontar a teia de interesses que sustenta o seu fabrico, distribuição e comercialização. É preciso responsabilizar os decisores que permitem esta epidemia silenciosa. É preciso restaurar a autoridade moral do Estado — se é que ainda existe algo que mereça esse nome.
Chega de desculpas. Chega de covardia institucional. Chega de discursos ocos e de políticas decorativas. O povo moçambicano exige acção. Exige protecção. Exige dignidade. Porque cada dia de inacção custa vidas. E cada vida perdida para o “Xivotxongo” é um crime que mancha as mãos de quem, por obrigação constitucional e ética, deveria ter impedido que isso acontecesse.
Se o Governo não for capaz de enfrentar o “Xivotxongo” com seriedade, coragem e firmeza, então talvez esteja na hora de o povo enfrentar o próprio Governo — não com violência, mas com a força organizada da indignação, da cidadania e da memória. Porque uma Nação que permite que os seus filhos se destruam num copo de álcool barato, é uma Nação que já não sabe amar-se a si própria.
Chega de “Xivotxongo”!



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