O tractor como meio de transporte público

OPINIÃO
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Alexandre Chiure

O governo, em particular o Ministério dos Transportes e Logística, está em julgamento público desde que procedeu, há uma semana, ao lançamento dos primeiros dez tractores com reboque adaptado para passageiros, de um total de 100 por adquirir e distribuir pelo país, a operarem como transporte público nas zonas rurais.

Longe de os moçambicanos acolherem a iniciativa de braços abertos como uma alternativa acertada para os problemas de transporte no campo, em particular nos locais considerados de difícil acesso, devido à degradação acentuada das vias, ela está a ser recebida como que com pedras, paus e machados nas mãos.

A quantidade das críticas, que tiram o brilho ao projecto, sobrepõe-se aos elogios vindos de pessoas ligadas directa ou indirectamente ao regime, em particular do governo de Cabo Delgado, o primeiro a receber dois tractores. No total, são quatro províncias contempladas nesta primeira fase, incluindo Manica, Zambézia e Nampula.

Estrategicamente, os lambe-botas viraram as costas para o Ministério dos Transportes e Logística. Há uma tentativa de isolar o ministro João Mathombe e atribuir-lhe toda a responsabilidade pela situação em salvaguarda da imagem do Presidente da República que aparece, na história, como menino bonito.

A verdade é que o projecto sobre os tractores é do conhecimento de todo o governo. Como prova disso, estes era para terem sido entregues, oficialmente, por Daniel Chapo, no âmbito dos 100 dias de governação, o que não aconteceu por razões desconhecidas.

Aliás, o assunto não é de hoje. Tudo foi desenhado pelo antigo governo. Se as coisas tivessem saído bem, o governo do dia estaria a colher os louros e nem sequer saberíamos que foi dos tempos de Filipe Nyusi. Agora que as coisas não correram de acordo com o esperado, há quem tenta saltar do barco em navegação.

Afinal porque é que o projecto sobre os tractores está a ser alvo de críticas? Porque é que os moçambicanos, no lugar de satisfação, sentem-se menosprezados e consideram que a introdução destes meios circulantes no transporte público é um retrocesso? É que se a ideia tivesse partido do sector privado, não seria problema nenhum e podia, de alguma forma, ser aplaudida. Do governo, os moçambicanos esperam por algo melhor.

Os outros países estão a construir linhas para a circulação do metro. Cá entre nós, o governo oferece ao seu povo tractores para o transporte público. Quer dizer que 50 anos depois da independência, continua a sonhar pequeno. Este é que é o ponto.

No tempo colonial e um pouco depois da independência nacional, os autocarros de Oliveiras Transportes e Turismo chegavam até ao interior da província de Gaza, a partir da terminal de Chibuto. Havia carreiras, os “zonas”, que iam a Macuácua, em Manjacaze, e noutros sítios.

A própria empresa encarregava-se de fazer a manutenção de estradas em terra batida para permitir uma melhor circulação dos seus autocarros, para além da fiscalização para verificar o cumprimento dos horários e a velocidade com que os autocarros circulavam no sentido de evitar os acidentes de viação. Não eram tractores que faziam a ligação com o campo, não senhor. Eram machimbombos confortáveis.

Temos que deixar o hábito de fazer coisas só porque as vimos numa casa vizinha. Elas, vezes sem conta, não são aplicáveis em Moçambique ou porque não temos estrutura para tal ou pura e simplesmente porque não combinam com a nossa realidade. Se queremos adoptar o tractor como um meio adequado para o campo, então tal facto deve constar das políticas públicas para o sector dos transportes. Se queremos construir um metro, tem que fazer parte das projecções de desenvolvimento do país para médio e longo prazos.

Para começar, a iniciativa sobre os tractores não foi socializada. O executivo não se deu o tempo de ouvir as bases, nomeadamente distritos e províncias, no sentido de colher a sua sensibilização a respeito do assunto. Decidiu-se a nível central e pronto. É por isso que o projecto é visto com alguma estranheza e não com o sentido de pertença.

Segundo: Era preciso fazer consultas para perceber se a alocação dos tractores como transporte público faz parte das prioridades das comunidades ou não. Nesse exercício, talvez se teria chegado à conclusão de que o tractor seria mais útil aplicando-o nas actividades agrícolas do que no transporte público.

Se o governo diz que nas zonas rurais, o melhor é usar o tractor para o transporte de passageiros porque as estradas não estão em condições de transitabilidade, porque é que não aposta na aquisição de máquinas para a construção e manutenção das mesmas como prioridade?  Quando se fala de boa estrada não nos referimos essencialmente a uma via asfaltada. Pode ser uma terra batida. Com as vias de acesso em condições, o sector privado pode colocar os seus machimbombos em circulação.

Para mim, é um desperdício empatar os tractores no transporte público quando dão falta na agricultura. O país está em condições de poder produzir o suficiente para alimentar os pouco mais de 30 milhões de moçambicanos, mas nada acontece. Temos 36 milhões de hectares aráveis, água abundante e mão-de-obra barata, mas não somos auto-suficientes em quase nada.

O Egipto tem apenas o rio Nilo, mas produz arroz em quantidade suficiente para as suas necessidades alimentares. Nós temos rios e lagoas que nunca mais acabam e somos dependentes da importação. O que é que nos falta para brilhar? A organização e a ambição em chegar longe.

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