Share this
John Kanumbo
Li um livro de Lima Barreto, esse brasileiro do início do século XX, e a frase dele não me larga: “O Brasil não tem povo, apenas público. “Fechei o livro e pensei: meu santo Diabo, ele estava a falar de Moçambique. Porque aqui também não temos povo. Temos público. Temos simpatizantes, militantes, fiéis de igrejas e membros de partidos que se ajoelham, agradecem e esperam o milagre da próxima eleição. O político moçambicano agradece a Deus, ao pastor e ao povo — mas, no fundo, agradece mesmo é por ter um público obediente, domesticado, fiel. Um público que não grita, não cobra, só aplaude. E se você ousa dizer que o povo virou público, pronto — é inimigo. É “contra o País”, “contra o progresso”, “contra a unidade nacional”. Lima Barreto escreveu isso há mais de cem anos. E Moçambique, um século depois, parece ter assinado por baixo.
Epistemologia das palavras: o que é povo e o que é público. Na raiz da palavra, “povo” vem do latim populus, que é conjunto de cidadãos que partilham uma mesma identidade política, histórica e moral. E na origem filosófica e política, povo é o conjunto de cidadãos conscientes do seu pertencimento à polis — palavra grega que dá origem a política. O povo é o sujeito do Estado — é dele que nasce o poder. O povo, portanto, é agente de decisão, sujeito histórico, criador de sentido. Já o público, na sua etimologia latina publicus, designa o conjunto de espectadores, aqueles que apenas assistem. Ou seja, público designa o espaço de visibilidade, de observação, mas não necessariamente de decisão. O público vê. O povo age. O público não cria o acontecimento — ele o consome.
E é aqui que mora o abismo moçambicano: usamos a palavra povo como senha moral, mas tratamos as pessoas como público descartável. Nas cerimónias, dizem “em nome do povo”, “decisão do povo”, “vontade popular” — mas o povo nunca é consultado. No plano jurídico, a Constituição fala em “soberania popular” — o povo é a fonte do poder, não o seu objecto. Mas, na prática, o que vemos é a inversão da norma: o povo virou adereço simbólico. A soberania foi transformada em slogan, usada como senha de legitimidade. “Em nome do povo” virou fórmula mágica para justificar decisões que o povo nunca tomou.
Kant, com o seu imperativo categórico, ficaria envergonhado. “Age de tal modo que tua ação possa valer como lei universal”, escreveu ele. Mas em Moçambique, parece que a regra é outra: “Age conforme te convém, e diz que foi pelo povo. ”Usar o nome do povo para benefício político é um crime ético. É roubar o último bem simbólico do cidadão: a sua dignidade. No plano antropológico africano, o povo é Ubuntu: é o “eu sou porque nós somos”. É partilha, é destino comum. Mas a política moderna moçambicana divorciou-se desse espírito. Transformou o povo em vitrine, e a comunidade em público passivo. A ontologia africana do ser colectivo foi trocada pela lógica partidária do “meu grupo primeiro”.
Moçambique vive um teatro político permanente. Um país onde o povo é citado, mas nunca ouvido. Onde os comunicados oficiais falam em “decisão popular”, mas quem decide são “grupos”, “membros”, “simpatizantes” — treinados para aplaudir o que já vem pronto. O verdadeiro povo está fora da foto: nas filas do hospital, nas paragens de chapa, nas feiras, nas escolas sem livros, nas casas sem luz.
Nos últimos dias, assistimos a um novo tipo de colonização simbólica: a da bandeira e viagens. Alguns querem trocá-la à força, como se símbolo nacional fosse pano de vaidade. Desejam trocar símbolo nacional como quem muda de perfil nas redes sociais. Dizem que “é tempo de nova bandeira sem arma”, como se fosse o pano e com arma é o problema, e não a sujeira que a cobre. Querem reescrever a história à força, esquecendo que símbolo sem alma é tinta sem parede. Outros viajam sem parar, em comitivas que mais parecem expedições de Vasco da Gama e Cristóvão Colombo, descobrindo continentes com dinheiro público e discursos reciclados. Moçambique transformou o Governo em agência de viagens. Viaja-se para falar do povo — mas sem o povo. Assinam-se acordos que o povo nunca lê. É turismo político pago pela miséria. Enquanto o público espera, o poder viaja. Viaja de Maputo a Bruxelas, de Lisboa a Pequim, do Brasil à Tanzânia, de Dubai a Washington. É a diplomacia do turismo de Estado. Os relatórios falam em “missões de sucesso”, mas sucesso para quem? É uma espécie de regresso aos tempos dos navegadores. A maior injustiça é usar a palavra “povo” como escudo. Em Moçambique, tudo é “decisão do povo”, “vontade do povo”, “vitória do povo” — mas o povo nunca foi ouvido. Quem decide são “membros”, “simpatizantes”, “comissões centrais” e “coordenadores” que obedecem a ordens de cima.
O moçambicano é ser de fé. Cresceu acreditando que “Deus proverá”, que “é preciso ter calma”, que “as coisas vão melhorar”. Essa fé, que poderia ser força, virou anestesia. A religião, muitas vezes, funciona como calmante social. O político agradece ao pastor por manter o rebanho quieto; e o pastor agradece ao político por manter as ofertas a fluir. É o pacto perfeito: o político governa corpos, o religioso governa consciências. E o povo? Continua público.
Ser público é existir apenas enquanto espectador. O público observa, mas não interfere. O povo, ontologicamente, é presença — age, constrói, transforma. Em Moçambique, os cidadãos foram treinados para serem espectadores da própria história. O trabalhador da feira levanta às quatro, vende banana e tomate, e volta para casa com 200 meticais. O chapeiro dirige o dia inteiro, conhece cada buraco da estrada, paga cada suborno, e continua sem estrada. A mãe do bairro, que lava roupa, cria filhos e ainda sorri — ela é o pilar da nação invisível. Eles sustentam o País, mas não o governam. São o público da peça chamada República de Moçambique.
Quer entender a diferença entre povo e público? Olha para uma empresa privada. Os trabalhadores chegam cedo, produzem, recebem salário e vão embora. Sustentam o negócio, mas não decidem nada. O dono, esse sim, sente o risco, o lucro, o poder de decidir. Na política, é igual. O trabalhador, o feirante, o professor — são o público. O político, o dirigente, o empresário ligado ao poder — esse é o “povo” que manda. O resto é plateia. Plateia que bate palma, mesmo sem entender a peça. Kant diria: “Age de modo que tua acção possa ser exemplo para todos. “Mas aqui o exemplo é o contrário. Se um político mente e é aplaudido, outros aprendem a mentir melhor. Se alguém usa o nome do povo para enriquecer, outros passam a usar o povo como escada. E assim, o vício moral vira norma social. A mentira vira instrumento de poder. E o nome do povo — senha para o domínio. Mas há um limite. Um dia, o público vai cansar-se.



Facebook Comments