Daniel Chapo: um ano que mexeu com o tabuleiro do poder

DESTAQUE POLÍTICA
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  • As nossas Figuras de Destaque do Ano
  • Tio Salim: Uma governação mais próxima do povo e luta pela segurança e desenvolvimento
  • Dino Foi: Quando a evidência substitui a retórica e a obra deixada justifica o consenso
  • António Grispos: As reformas que podem relançar a economia e estimular a produção

Longe de procurar unanimidades, a escolha das Figuras do Ano do Evidências procura sinais de movimento num País muitas vezes preso a práticas que corroem o tecido social. Em 2025, quatro nomes destacaram-se, não por resolverem todos os problemas de Moçambique, mas por mexerem com rotinas de poder, gestão e responsabilidade pública, cada um a partir do seu lugar. No centro, esteve o Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, cuja governação introduziu rupturas reais num sistema habituado à inércia. Para além de resgatar a imagem do País e a confiança internacional, Chapo reprogramou prioridades, tocou em tabus e em interesses de cartéis, lançando as bases para a normalização do Estado. No plano descentralizado, Eduardo Abdula, governador de Nampula, emergiu como uma das figuras mais relevantes do ano ao impor uma agenda de proximidade com o povo, controlo administrativo e presença efectiva do Estado, mesmo quando o terrorismo e a insurgência dos vulgos Naparamas tentaram reclamar território. No eixo económico, o secretário de Estado do Comércio, António Grispos, ganhou centralidade ao assumir decisões controversas e enfrentar interesses instalados num sector sensível, como no caso do Feijão Bóer, em que conseguiu pôr fim a uma guerra de cartéis que deflagrava há anos, só com um simples gesto de eliminar as famosas cotas. Fora do Governo, mas com impacto directo na sociedade, o filantrópo Dino Foi destacou-se por transformar acção solidária em intervenção estruturada. Através da Fundação Tzu Chi, continuou a impactar a vida das comunidades um pouco por todo o País, com destaque para  Sofala, onde as acções de apoio à reconstrução pós-Idai continuam a deixar uma marca indelével. A título de menção honrosa, não podemos deixar de destacar Tomás Matola, PCA da HCB, que conseguiu manter indicadores positivos da hidroeléctrica, num contexto caracterizado pela seca que está a perturbar a produção de energia.

Evidências

O ano de 2025 começou sob um clima profundamente desafiante para Moçambique, marcado por tensões sociais, fragilidades económicas e um ambiente político carregado de desconfiança. A tomada de posse de Daniel Chapo, a 15 de Janeiro, ocorreu ainda na ressaca de manifestações violentas, com um saldo de destruição assinalável, que deixaram marcas visíveis nas principais cidades do País e expuseram um mal-estar social acumulado ao longo dos últimos anos.

O novo governo herdou um Estado fragilizado, tanto do ponto de vista financeiro como institucional. As expectativas de mudança colidiram rapidamente com uma realidade dura: dívidas elevadas, cofres públicos praticamente vazios e um aparelho do Estado com capacidade limitada de resposta às urgências sociais, num contexto em que o País não recebe injecções directas do apoio directo dos parceiros programáticos ao Orçamento do Estado.

No plano político, o Executivo iniciou funções num contexto de legitimidade contestada por sectores da sociedade, com uma oposição desconfiada e uma opinião pública polarizada. As manifestações que antecederam a posse não foram apenas episódios de violência isolada, mas sim a expressão de frustrações profundas ligadas ao custo de vida, ao desemprego, à exclusão económica e à percepção generalizada de injustiça e corrupção.

Economicamente, o País entrou em 2025 com crescimento anémico, forte pressão inflacionária sobre bens essenciais e um tecido empresarial enfraquecido. A ausência de apoio orçamental externo reduziu drasticamente a margem de manobra do novo governo, obrigando-o a escolhas difíceis logo nos primeiros meses: cortar despesas, rever prioridades e tentar restaurar a credibilidade junto dos parceiros internacionais, sem agravar ainda mais a tensão social.

Um ano entre a vitrina internacional, o choque com interesses e a dura prova do quotidiano

Daniel Francisco Chapo é a Figura de Destaque Ano do Evidências não por ter resolvido os problemas estruturais de Moçambique em menos de doze meses, mas por ter alterado o modo como o poder voltou a funcionar. Quando tomou posse, em Janeiro de 2025, prometeu “um Governo que trabalha”. A frase não parecia especialmente ambiciosa num País cansado de proclamações grandiosas. Onze meses depois, porém, percebe-se que não se tratou apenas de retórica prudente. A sua governação introduziu choques reais num sistema habituado à inércia, alguns visíveis, outros ainda em disputa, que mexeram com o tabuleiro do poder.

A crise da LAM é talvez o exemplo mais palpável dessa inflexão. Em Maio de 2025, a companhia aérea nacional operava com apenas dois aviões funcionais e uma sucessão de cancelamentos que já não causava indignação, apenas resignação. Hoje, a LAM soma cinco aeronaves operacionais, incluindo dois Dash-8 entregues em Novembro e mais um aparelho recebido recentemente. O Ministério dos Transportes confirma que há mais de quinze anos a companhia não registava uma expansão real de frota.

A auditoria externa ainda decorre, mas a orientação política foi dada sem ambiguidades. Profissionalizar a gestão, reduzir perdas e abrir caminho a modelos híbridos tornou-se instrução directa do Presidente. É a primeira vez, desde o colapso financeiro de 2013, que um Governo assume frontalmente o estado crítico da empresa e aceita o risco político de uma reforma estrutural. Não há garantias de sucesso, mas há, pela primeira vez, um conflito assumido.

Esse padrão repetiu-se no dossier da Mozal. Durante décadas tratada como intocável, a maior indústria do País foi chamada à mesa para discutir o preço da energia. Chapo exigiu o fim de uma tarifa simbólica herdada dos anos 2000. A negociação, confirmada pelo MIREME, abriu espaço para rever uma equação energética que drenou receitas públicas durante anos em nome de benefícios fiscais já desfasados da realidade nacional. A mensagem política ficou clara. Os mega-projectos continuam estratégicos, mas já não operam fora do debate nacional.

O gás permanece no centro do tabuleiro. Moçambique entrou em 2025 com Afungi suspensa, insegurança persistente e um futuro energético congelado. Hoje, a TotalEnergies confirma que o plano de retoma está em fase final de avaliação operacional, após encontros do Presidente em Paris e Maputo. Em paralelo, o Governo anunciou a construção de uma refinaria de condensado em Inhambane, a renegociação de modelos de partilha com petrolíferas e a aceleração da agenda de transição energética. O país regressou ao radar. O BAD, o Eximbank chinês e fundos europeus retomaram missões técnicas suspensas desde 2021.

Mas não foi apenas nos grandes dossiers que o Executivo decidiu intervir. Em Julho, Chapo lançou o Fundo do Emprego Jovem, com foco em auto-emprego, formação técnica e micro-indústria. Segundo o Ministério da Juventude, mais de dezoito mil candidaturas foram submetidas na primeira janela. Para além dos números, o gesto é político. Sinaliza uma tentativa de romper com o assistencialismo e de devolver risco e responsabilidade às políticas públicas.

A mesma lógica atravessa o processo de terras infra-estruturadas. Energia, água e vias antes da entrega dos talhões representam uma inversão radical da prática urbana moçambicana. Inspirada em modelos da Zâmbia e de Ruanda, a medida reduz custos de autoconstrução e combate o mercado informal de ocupação desordenada. O Governo classifica-a como a maior reorganização urbana desde a expansão municipal de 1998, uma afirmação ousada, mas não destituída de fundamento.

Quando Moçambique se abriu ao mundo e os resultados vieram

No sector social, o acordo de 1,8 mil milhões de dólares com os Estados Unidos para o sistema de saúde tornou-se o maior financiamento bilateral desde a criação do Serviço Nacional de Saúde. Inclui cento e cinquenta unidades sanitárias, digitalização hospitalar e expansão de programas de HIV e tuberculose. Nunca um Governo moçambicano negociou um pacote desta escala num único ciclo. O desafio, como sempre, será transformar volume financeiro em capacidade efectiva no terreno.

Também em Cabo Delgado houve sinais de mudança de abordagem. A criação do Gabinete de Direitos Humanos para a província introduziu um elemento civil num conflito historicamente tratado sob lógica militar. Monitoria de abusos, diálogo comunitário e reparação às vítimas passam a integrar a arquitectura institucional. Organizações internacionais viram no gesto um sinal raro de abertura num contexto de securitização extrema.

Os indicadores macroeconómicos ajudaram a sustentar esta narrativa. Moçambique saiu oficialmente da Lista Cinzenta da FATF, o metical manteve uma estabilidade inédita desde 2016, o Banco Mundial projecta crescimento acima de seis por cento para 2026 e as exportações de energia e minerais cresceram catorze por cento em termos anuais. O Ministério da Economia reconhece que há sinais reais de recuperação estrutural.

Por detrás destas decisões emerge um estilo político próprio. Insiders descrevem Chapo como um Presidente que não teve medo de tocar em tabus. Não é um revolucionário, mas inaugurou algo raro na política moçambicana recente. Firmeza decisória, baixa tolerância à burocracia e controlo directo de processos críticos. No Conselho de Ministros de Setembro, resumiu o seu entendimento do poder numa frase que ecoou nos corredores do Estado. “Se o Estado não mudar de comportamento, o povo também não mudará de destino.”

Chapo não resolveu os problemas do País. Muitos estão longe disso. Mas mexeu no sistema, obrigou actores acomodados a reagirem e devolveu a política ao centro do debate nacional. Num contexto de estagnação prolongada, isso já é um facto histórico. A avaliação definitiva virá com o tempo, mas 2025 ficará registado como o ano em que Moçambique saiu do piloto automático e voltou a discutir poder, escolhas e futuro.

Tio Salim: Uma governação mais próxima do povo e luta pela segurança e desenvolvimento

Eduardo Mariamo Abdula, conhecido como Tio Salim, apresenta-se como um homem comum e um governante próximo das massas, humanizando a relação entre o eleitor e eleito. Abdula abdica do casaco e da gravata, arregaça as mangas e actua no terreno, reflectindo um estilo de liderança centrado no trabalho. Apesar de assumir funções num contexto adverso, com três ciclones e manifestações violentas que destruíram infra-estruturas, Nampula regista sinais de estabilidade social, política e económica, mesmo com a pressão de deslocados de Cabo Delgado. Esses resultados são atribuídos ao novo modelo de governação do Conselho Executivo Provincial (CEP), liderado por Abdula, uma figura quase de consenso no País pelo seu impacto.

O seu modelo de governação prioriza escuta à população, transparência, combate à corrupção e inclusão de todos os actores nos projectos do Executivo Provincial, incluindo parceiros de cooperação, gerando confiança nas instituições, comunidades, agentes económicos e parceiros internacionais.

Registaram-se avanços relevantes nos sectores de água e infra-estruturas, com intervenções orientadas para melhorar o acesso à água potável, reforçar a resiliência das comunidades e assegurar melhores condições de mobilidade e circulação de pessoas e bens.

No domínio do abastecimento de água, destaca-se a instalação do sistema de desalinização do Baixo-Pinda, no Distrito de Memba, uma solução crucial para uma zona historicamente afectada por elevados níveis de salinidade nos aquíferos. A infra-estrutura representa um passo decisivo na melhoria do acesso à água potável para a população local.

Em paralelo, prosseguiram importantes obras na área de estradas e pontes, com destaque para a estrada Nametil–Angoche e a ponte sobre o rio Lúrio, que liga os distritos de Nipepe e Lalaua, facilitando a circulação interprovincial. Registou-se, igualmente, a conclusão do troço Malema–Cuamba, vital para o escoamento agrícola e para a ligação ao corredor de Nacala.

Estimulo à produção agrícola e segurança alimentar

Sob a sua liderança, Nampula tem implementado acções para estimular agricultura, pecuária, pesca e avicultura, impactando a economia familiar e a segurança alimentar. Foram adquiridas 132 cabeças de gado distribuídas por oito distritos, beneficiando 44 associações. No sector avícola, o centro de incubação de Murrupula produziu 653 galinhas e 3.297 ovos, com grande parte comercializada.

Na fruticultura, 30 pomares de manga, abacate, goiaba e limão foram implantados em sete distritos, incentivando a alimentação diversificada e práticas sustentáveis, especialmente em escolas. Pela primeira vez, Nampula instalou um viveiro de cacau com 900.000 mudas em Muecate, com 423.000 já transplantadas, visando atingir 5.000 hectares de produção.

No sector de Cultura e Turismo, Nampula tem promovido o turismo local, destacando pontos culturais, históricos e naturais. Foram lançadas a marca turística “Waphula Noophiya” e a plataforma digital “VisitNampula”, divulgando roteiros, atrações e eventos, gerando oportunidades económicas para comunidades locais.

Em 2025, a província registou avanços significativos na saúde, com inauguração do Centro de Saúde de Monapo Rio e reabilitação pós-ciclone dos centros de Chipene, Muatuca, Ampapa e Quinga. Destaca-se ainda a ampliação do Centro de Saúde de Ampita, aumentando a capacidade de atendimento, especialmente em maternidade e serviços gerais.

António Grispos: As reformas que podem relançar a economia e estimularem a produção

Do ponto de vista de economia, António Grispos, secretário de Estado do Comércio, foi eleito figura do ano pelo Evidências pela sua coragem política e capacidade de implementar reformas estruturantes que colocam os interesses nacionais no centro da política comercial. Em 2025, Grispos tomou decisões ousadas num contexto de forte pressão empresarial e social, demonstrando que é possível aliar visão estratégica a resultados concretos para a economia moçambicana.

Entre os principais feitos está a liberalização do mercado de feijão bóer, que pôs fim ao sistema de cotas e às disputas judiciais entre cartéis. Esta medida trouxe transparência, competitividade e oportunidades para produtores e exportadores, fortalecendo o sector agrícola nacional.

Grispos adoptou também restrições selectivas às importações de alguns produtos alimentares, estimulando a produção local e reforçando a indústria nacional. Estas iniciativas visam aumentar a participação de produtos moçambicanos no mercado, reduzir a dependência externa e criar condições mais favoráveis ao crescimento económico sustentável.

Produtos como carnes e miudezas comestíveis de aves, arroz (arroz não condicionado para venda a retalho), açúcar (não condicionado para a venda a retalho), óleo de palma alimentar refinado, massas alimentícias, bebidas alcoólicas (cerveja), farinha de milho, sal e cloreto de sódio passam a ter restrições na sua importação e alguns passam a depender da disponibilidade nacional.

Foi também da iniciativa do pelouro que dirige a iniciativa de liberalização do horário do comércio, passado a funcionar 24 horas por dia, obrigando-se, no entanto, ao proprietário a ter capacidade para trabalho em turnos para que os trabalhadores não possam trabalhar para além das 8 horas permitidas por lei.

O secretário de Estado avançou ainda com medidas no combate ao contrabando de bebidas, cigarros e combustíveis, aguardando apenas a aprovação do Conselho de Ministros para consolidar essas medidas. Para além disso, planeia mudanças na composição dos órgãos executivos e financeiros, garantindo que a maioria dos membros seja moçambicana, reforçando a soberania económica e a gestão local.

Ao eleger António Grispos como figura do ano, o Evidências reconhece a importância de dirigentes capazes de enfrentar interesses consolidados (cartéis), implementar reformas estruturantes e estimular a produção nacional, demonstrando que uma política comercial eficaz é um motor de desenvolvimento para Moçambique.

Dino Foi: Quando a evidência substitui a retórica

Ao eleger Dino Foi como figura do ano na área social, o Evidências não o faz por impulso emocional nem por reconhecimento circunstancial, mas com base numa análise sustentada de resultados, escala e consistência institucional. Em 2025, sob a sua liderança, a Fundação de Caridade Tzu Chi Moçambique demonstrou que a acção social pode ser planeada, executada e avaliada com o mesmo rigor que se exige a políticas públicas estruturantes. Num país onde grande parte da intervenção social continua dependente de projectos pontuais, ciclos curtos de financiamento e baixa previsibilidade operacional, a actuação da Tzu Chi destacou-se pela capacidade de combinar impacto imediato com efeitos estruturais.

O ano consolidou um modelo que integrou reconstrução pós-desastres, segurança alimentar, produção agrícola e educação, com impacto mensurável em Sofala e Maputo. Exemplo central foi o projecto de reconstrução pós-Idai, em parceria com o Governo, avaliado em 108 milhões de dólares, prevendo três mil habitações e 23 escolas. Apenas em 2025, 840 casas e 10 escolas foram entregues, com 1.678 casas concluídas ao final do ano, devolvendo segurança e dignidade a milhares de famílias.

Este desempenho não resulta apenas da disponibilidade financeira, mas de um modelo operacional assente em planeamento rigoroso, execução descentralizada e forte disciplina logística. A reconstrução foi pensada como processo social e não apenas como obra física, integrando habitação, educação e organização comunitária. O impacto foi, por isso, mais profundo do que a reposição de infra-estruturas, contribuindo para a recomposição do tecido social e para a retoma da vida comunitária em zonas severamente afectadas.

Na segurança alimentar, em Novembro de 2025, a Fundação distribuiu 210 toneladas de arroz a 21 mil famílias em Maputo e Sofala, beneficiando áreas vulneráveis e funcionando como amortecedor social frente à inflação alimentar. Além disso, a campanha agrícola 2025–2026 em Mecuzi planeou produção de mais de mil toneladas de alimentos para escolas comunitárias e unidades de saúde, reduzindo dependência de doações externas e criando integração entre agricultura, educação e saúde, melhorando nutrição infantil e condições de recuperação clínica.

No sector educativo, a Fundação concluiu a maior escola primária do País, na Beira (3,9 milhões de dólares), e a Escola Secundária de Mafambisse (13 milhões), suprindo défices agravados por desastres, crescimento populacional e limitações orçamentais.

O reconhecimento internacional veio com o Prémio de Sustentabilidade Corporativa Ásia-Pacífico 2025 para o projecto pós-Idai, destacando coerência entre investimento financeiro, execução física e resultados sociais verificáveis, posicionando Moçambique como referência em reconstrução resiliente e desenvolvimento comunitário.

Economista de formação, Dino Foi defende filantropia orientada por evidência, eficiência e capacidade local, priorizando sistemas funcionais, parceria com o Estado e responsabilização comunitária, evitando assistencialismo prolongado. Ao reconhecê-lo, o Evidências valoriza um modelo que demonstra que acção social sustentável exige escala, método e continuidade, mensuráveis com base em evidência.

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