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- Depois da fita, veio o certificado de incompetência
A estrada que liga os bairros de Intaka e Boquisso, no município da Matola, mal resistiu ao entusiasmo da inauguração. Um dia depois de cortada a fita, a nova via de 6,7 quilómetros já exibia sinais claros de deficiência de engenharia, transformando-se num caso emblemático de obras públicas que falham no primeiro teste: a chuva.
Evidências
No último sábado, o Ministro dos Transportes e Logística, João Matombe, celebrou a abertura oficial da estrada com discurso optimista, champanhe e promessas de progresso. “Estamos aqui com ordem e sentido de missão para entregar oficialmente a estrada em Intaka e Boquisso”, declarou.
A obra, avaliada em mais de 500 milhões de meticais, foi apresentada como um investimento estruturante, destinado a pôr fim a anos de degradação, poeira, lama e circulação quase impossível durante a época chuvosa.
Segundo as autoridades, a estrada representa um investimento directo de 158 milhões de meticais, foi executada em cerca de dez meses e financiada pelo Banco Mundial. Antes da reabilitação, o troço encontrava-se “sem revestimento, com depressões que acumulavam águas durante as chuvas”, um cenário que agora, ironicamente, parece repetir-se num pavimento novo em folha.
A narrativa oficial começou a ruir com a primeira chuva de fraca intensidade. Em menos de uma semana após a inauguração, parte da via ficou completamente inundada, obrigando à utilização de uma motobomba para drenar a água acumulada, numa estrada que deveria ter sistemas de drenagem funcionais. Imagens registadas por cidadãos mostram troços submersos, circulação condicionada e um cenário que contrasta violentamente com o discurso de “engenharia pensada a partir da base”.
Entre os utilizadores, a leitura é directa e sem rodeios. “A estrada aqui sendo nova, da forma que foi feita, nós não pensávamos que ia ter esses problemas. Acredito que seja alguma falta da engenharia”, afirmou um residente. Outro foi ainda mais incisivo: “A estrada não tem nem um mês e a situação é essa que estão a ver. A estrada é bonita, mas falaram que aqui não houve tubagem.”
O problema, insistem os moradores, não está na chuva, mas na concepção da obra. A ausência ou insuficiência de sistemas de drenagem adequados levanta dúvidas sérias sobre a qualidade da fiscalização, o cumprimento do projecto técnico e a responsabilidade das entidades envolvidas. Numa cidade habituada a chuvas sazonais, entregar uma estrada que alaga após três dias é, no mínimo, um sinal de alerta.
Apesar de a via ser considerada estratégica para melhorar a circulação e o acesso a outros pontos da cidade, o alagamento precoce gera incerteza quanto à durabilidade da obra e à sua capacidade de resistir a condições climáticas previsíveis. Inaugurada como símbolo de progresso, a estrada enfrenta agora o seu primeiro e mais duro teste de credibilidade pública e falhou.



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