“Sou vítima, não arguido” – desabafa o empresário

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  • Zanil Satar rompe silêncio e insiste que foi coagido a comprar negócio ruinoso

O empresário moçambicano, Zanil Arif Satar, reagiu ao artigo recentemente publicado no Evidências, que o retratava como arquitecto de alegada fraude financeira contra o Banco Comercial e de Investimentos (BCI). Juntando o despacho de pronúncia, algumas correspondências e o despacho de uma acção de execução, Satar afirma que não é arguido, mas sim vítima no processo que move contra o BCI, cujo julgamento está previsto para o primeiro semestre do próximo ano.

Evidências

Numa extensa carta dirigida ao jornal após a publicação, Satar afirma que ao contrário do que foi publicado, não é arguido, mas vítima e assistente nos autos criminais n.º 03/SIC/25, e parte em processo cível de execução ora suspenso.

Satar recorda que, após um longo período de instrução preparatória, em que as partes foram ouvidas e tiveram oportunidade de apresentar provas preliminares, o despacho de pronúncia determinou o envio a julgamento do BCI e de dois dos seus gestores, processo no qual ele figura como ofendido. Para o empresário, esse é o ponto central.

“O despacho de pronúncia é inequívoco: foram pronunciados para julgamento o BCI, o seu administrador George Mandawa e a directora Paula Boca pela prática, em co-autoria material, do crime de burla agravada. Eu sou inequivocamente identificado como a vítima. Se a fraude fosse minha, porque foram eles pronunciados?”, rebateu.

Ele ressalta que a justiça confirmou juridicamente a sua condição de vítima e que qualquer narrativa contrária ignora os autos.

O empresário também desmente a alegação de uma dívida em incumprimento associada ao seu grupo empresarial. Ele esclarece que a execução movida pelo banco para cobrança de 284 milhões de meticais foi suspensa pelo Tribunal Judicial da Cidade de Maputo devido a uma “questão prejudicial de natureza penal”, uma vez que os factos que originaram o processo criminal colocam em dúvida a legitimidade dessa cobrança.

“O que se chama de ‘dívidas’ são, na realidade, créditos mal parados do Grupo Taverna. Os gestores do BCI orientaram-me a liquidar créditos de longo prazo, com vencimentos até 2032, através de uma Conta Corrente Caucionada – instrumento de tesouraria de curto prazo. Essa operação viola frontalmente as regras bancárias. A justiça suspendeu a cobrança justamente por entender que se trata do possível produto de um crime, e não de uma dívida comercial legítima”, explicou.

Quanto aos valores indemnizatórios reclamados, Satar afirma que correspondem a prejuízos reais e auditados. Refere que, após o impacto inicial no Grupo Taverna, o banco teria desencadeado uma estratégia de asfixia financeira, com renovações mínimas de crédito e a inclusão forçada de outras empresas do grupo em garantias, provocando a degradação de um ecossistema empresarial antes considerado saudável.

“Não se trata de ‘encher a barriga’, como foi sugerido. Os 434 milhões que reclamo reflectem apenas o prejuízo directo no Grupo Taverna. Após o golpe inicial, o BCI iniciou uma segunda fase destrutiva: passou a forçar renovações mínimas da CCC e a incluir outras empresas saudáveis do meu grupo em contratos e garantias para as quais nunca tinham sido concebidas. Esta estratégia deliberada de contaminação de risco e asfixia financeira arrastou para o colapso um ecossistema empresarial sólido, construído com anos de trabalho honesto. Estes são números reais, auditados, que documentam a destruição patrimonial causada pelo esquema do BCI”, diz Zanil.

Satar insiste que foi o BCI quem lhe apresentou e mediou o negócio

Mesmo sem revelar detalhes sobre se fez ou não due-dilligence para apurar a viabilidade do negócio do Grupo Taverna, Satar insiste que a ideia da compra foi-lhe sugerida pelos funcionários do banco e, quanto ao screenshot que consta da defesa do banco, em que numa das mensagens com uma funcionária do BCI surge sugerindo que tinha intenção de comprar o Taverna, Satar diz que uma parte essencial das mensagens foi deliberadamente ocultada.

Predispondo-se a enviar a mensagem completa ao jornal, Satar sublinha que todas as etapas da operação financeira foram acompanhadas e orientadas por gestores do banco.

O empresário explica que gestores do banco o teriam orientado a liquidar créditos de longo prazo por meio de uma conta corrente caucionada, instrumento de curto prazo destinado à tesouraria, o que violaria regras bancárias. Para Satar, a suspensão judicial confirma que não se trata de uma dívida comercial legítima, mas de matéria dependente da decisão penal.

“A sequência foi orquestrada dentro do BCI. Chádia Damão violou o dever legal de sigilo para me alertar sobre a situação terminal do Taverna, mediou reuniões com a sua superiora Paula Boca e, sob acompanhamento do administrador George Mandawa, as contas foram analisadas, o financiamento de 600 milhões garantido e formalmente aconselharam a aquisição do Grupo Taverna. Cada passo da operação financeira subsequente foi coordenado por ambos. Não houve qualquer iniciativa minha fora do que foi orientado pelo banco, como a reportagem sugere.”

Satar esclarece que o regulador limitou-se a aspectos formais de crédito, sem avaliar o aconselhamento fraudulento que é o núcleo do processo-crime:

“O Banco de Moçambique apenas se pronunciou sobre a formalidade de um crédito específico, não sobre aconselhamento fraudulento, indução em erro e violação de sigilo, que são o núcleo do processo criminal. É precisamente o conhecimento desta realidade que alimenta a campanha de desinformação e o medo da transparência por parte do BCI”, sublinhou.

A promessa de financiamento e a protelação do banco

Quanto às contradições sobre a promessa de financiamento em 600 milhões de meticais que o banco disse nunca ter feito e não haver qualquer documento escrito sobre o assunto, Satar  diz estar devidamente documentado no processo e com uma testemunha-chave que esteve dentro da sala onde decorreu a negociação.

O empresário destaca que a demora de mais de 17 meses na análise dos seus pedidos de crédito não se explica por burocracia, mas por estratégia do banco para protelar o pedido ciente de que havia, sim, feito a promessa.

“Na carta que citei, afirmo textualmente: ‘após a vossa promessa de financiamento de 600 milhões,’ solicitava apenas 450 milhões naquele momento crítico, mais a renovação básica. Se eu era um cliente de risco tão evidente, por que razão o BCI levou mais de 17 meses para analisar e negar o crédito? Um banco sério rejeita um pedido mal fundamentado em semanas, não em quase um ano e meio. A única lógica que explica esse tempo é uma estratégia de protelação, esperando que eu desistisse ou que o prazo legal expirasse”, destacou.

O empresário conclui reafirmando que deseja julgamento com transmissão pública, garantindo que toda a extensão dos danos será conhecida.

“A verdade material será conhecida por todos. O que foi apresentado até agora é apenas a ponta do icebergue. No julgamento, serão trazidas à luz provas adicionais, robustas e incontornáveis, detalhando a extensão do esquema de asfixia financeira e a real dimensão do prejuízo, com base em contas auditadas. Não se trata de opinião ou especulação, mas de evidências documentadas. Instituições confiantes na sua inocência não fogem da escrutínio público; o BCI teme a luz da verdade”, sublinha.

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